AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Diretor da Vale reclamou de ingerência do governo na companhia

Segundo Guilherme Cavalcanti, governo pressionava para que empresa agregasse valor ao minério extraído do país

Um diretor da mineradora Vale do Rio Doce reclamou a diplomatas dos Estados Unidos no Brasil, de pressão por parte do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com telegramas do Wikileaks obtidos pela Pública.

Em conversa registrada em outubro de 2009, Guilherme Cavalcanti, que ocupava a diretoria de Finanças Corporativas da empresa e hoje é diretor de Finanças e Relações com Investidores, menciona investimentos em siderurgia e na produção de cloreto de potássio – empregado amplamente em fertilizantes – como parte dos planos do governo para agregar  valor ao minério extraído no país.

A pressão de Lula e do governo sobre a Vale é apontada como o principal motivo para a mudança de comando na empresa, promovida em março de 2011. O Palácio do Planalto estaria insatisfeito com a condução da mineradora, que relutava em investir em formas de agregar valor à matéria-prima extraída do solo nacional.

Para críticos, a mudança no comando da Vale demonstra a ingerência do governo em assuntos de uma empresa privada.

Cavalcanti reuniu-se com Lisa Kubiske, encarregada de negócios da embaixada de Brasília. Entre outros temas, a conversa envolveu a relação com o Executivo.

“Fomos pressionados pelo governo a produzir aço”, teria dito Cavalcanti. “Mas eles parecem ter se apaziguado com nosso investimento de mais de US$ 1 bilhão em siderurgia.” Hearne menciona ainda pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral que teriam apontado o investimento em cloreto de potássio como outra “demanda” de Lula à Vale.

O derivado do potássio é considerado essencial para o desenvolvimento de fertilizantes alternativos a partir de outros sais minerais, como o magnésio. O Brasil possui, em Sergipe e no Amazonas, a terceira maior reserva mundial de potássio, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, atrás apenas de Rússia e Canadá.

Privatizada em 1997, a Vale é controlada por um consórcio que tem como principais acionistas o banco Bradesco e fundos de pensão de estatais – principalmente Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e Petros, da Petrobras.

Entre os projetos que teriam sofrido influência do governo brasileiro está a siderúrgica de Marabá, no sul do Pará. Segundo a Vale, o investimento de US$ 3,2 bilhões deve gerar 16 mil empregos diretos e 14 mil indiretos.

Inicialmente a companhia teria resistido, segundo notícias veiculadas pelo noticiário econômico no país, a aceitar o local em decorrência de elevados custos de infraestrutura. Mas o local foi apoiado pela governadora do Pará á época, Ana Júlia Carepa, do PT.

Ao iniciar as obras, em junho de 2010, o ex-presidente da Vale, Roger Agnelli, chegou a apontar a “marca de Lula” no projeto.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública.

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Comentários

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  • Gilliardt Dinu

    Estranho o pessoal da VALE ir reclamar com diplomatas americanos a situação.
    A VALE mexe no solo brasileiro e vai falar com os EUA sobre isso ???
    Pra mim, isso não faria sentido algum mas, os EUA podem fazer pressão. Eu não gostei de receber a notícia da VALE ter saído das mãos do governo há muito tempo atrás.
    Privatizar certos tipos de empresas eu sou totalmente contra e o governo tem de pressionar sempre para o que for o melhor para o Brasil porque os minérios, não são da empresa mas sim do Brasil.

    Parabéns ao Anselmo Massad pela reportagem.

    • robert

      bando de babacas

  • Cesar Luiz da Silva Pereira

    Quer dizer que a turma da VALE foi correndinho se queixar pro antigo patrão? Isso depõe contra essa diretoria, não contra o governo. A este cabe, sim, estabelecer estratégias válidas para o desenvolvimento nacional, principalmente considerando que os principais acionistas são a PREVI e a PETROS, comprometidas com o projeto desenvolvimentista da nação.

  • Luiz Penna Cortez

    Nada estranho que o diretor da Vale reclamar. O Lula, e com toda a propriedade reclamava que a Vale vendia minério (barato) para China e comprava trilhos (muito caro) para a ferrovia deles. Mas uma vez fica bem claro a capacidade de governar e entender como só o Lula, soube fazer. Por isso os sócios da Vale ( Bradesco e fundos de Pensão ) mandou todo mundo embora ( presidente, diretores… etc). Não queriam agregar nada. Quando a reclamar dos americanos tudo normal, afinal de contas a empresa só pensa nos acionista e grande parte deles é americano.

  • Evandro

    A venda da VALE foi crime de lesa-pátria, não foi feita nenhuma consulta se o povo brasileiro concordava com essa negociata, a venda das empresas estatais, propriedade de todos os brasileiros, foi conduzida por um partido, um grupo de aproveitadores em conluio con a rapinagem internacional, em nome da globalização, desestruturaram a economia brasileira deixando-a mais dependente do capital internacional. O Brasil está se desindustrializando devido a isso, venderam suas industrias de base a preço de banana, e com a desculpa que são contratos perfeitos temos que engolir goela abaixo. Então não é de se estranhar que um diretorzinho vá reclamar. Agora, qual a relação que esse diretorzinho tem com os gringos é que tinha que ser esclarecida.

  • robert

    como voces são babacas !!!

    se o fernando henrique tivesse dado de graça a vale , já teria feito um negocio maravilhoso para o brasil … ele simplesmente tirou a galinha dos ovos de ouro do controle das raposas e entregou para as pessoas certas que levaram a vale de 8ª companhia mineradora do mundo para 2ª , e fizeram a vale crescer de tamanho 17 vezes … até o mercadante uma vez em off , falou que a privatização tinha sido o melhor caminho …eu to cansado de ouvir esses comentários tendenciosos sobre a privatização … ou voces são muito burros ou também tem interesses excusos nessa latrina que são as empresas estatais

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