AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

O não-legado da Copa do Mundo

Em 9 das 12 cidades-sede, o financiamento federal para os estádios é maior do que os repasses para a educação

 

O NÃO-LEGADO DA COPA DO MUNDO

Por Ciro Barros / Infografia: Bruno Fonseca

A Pública errou. Os dados nos quais baseamos a reportagem abaixo estao incompletos, conforme apontou a CGU em nota publicada ontem.

Em resposta à nota da CGU, a Pública pede desculpas e esclarece que:

1- O repórter Ciro Barros conversou sim com a assessoria de imprensa da CGU em dezembro do ano passado e foi orientado a somar os gastos da rubrica “Educação”, identificados na reportagem como “repasses do governo federal à educação”. Cometemos um erro grave, evidentemente, embora de boa fé;

2- Ao identificar os repasses do Fundeb como “encargos especiais” e fora da rubrica “educação”, a CGU dificultou não apenas o trabalho do repórter – que não foi alertado para isso – mas o direito à transparência de todo e qualquer cidadão brasileiro;

3- Por esse motivo, a Pública se desculpa junto aos leitores e republicadores pela distorção do resultado e convida a CGU a revelar e publicar no Portal da Transparência os investimentos do governo federal em educação discriminando o quanto foi repassado para cada uma das 12 cidades-sede da Copa;

4- Quanto à natureza dos recursos, a opção foi editorial. Consideramos que os investimentos públicos – quer em forma de financiamento ou de gastos diretos – refletem prioridades do governo e isso está claramente assinalado na reportagem.

Leia o nosso Editorial a respeito.

“Copa do Mundo, eu abro mão. Quero dinheiro pra saúde e educação”. Este foi um dos gritos mais ouvidos durante as manifestações de junho em diversas capitais brasileiras. De fato, ao comparar os investimentos do governo federal  com as bandeiras da população, as prioridades parecem não ser as mesmas.

 

A Pública levantou pelo Portal da Transparência da CGU (Controladoria-Geral da União) os repasses federais para a saúde e educação entre 2010 e 2013. Foi em 2010 que foi firmada a Matriz de Responsabilidades, documento que reúne os investimentos previstos para a Copa. Em 9 das 12 cidades-sede (as três exceções são Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro) o financiamento federal para a construção e reforma dos estádios para a Copa é maior do que os repasses da União para a educação nos últimos quatro anos. Em Recife, por exemplo, a construção da Arena Pernambuco recebeu um financiamento três vezes maior do que o que o Governo Federal repassou para a educação na capital pernambucana.

 

 

Em pesquisa feita pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) em parceria com o IBOPE, publicada no último dia 25 de julho, 7.686 entrevistados de 434 municípios apontaram como os setores mais críticos do país – entre 25 selecionados – a saúde (desaprovada por 71% dos entrevistados), a segurança pública e a educação (desaprovada por 37%). Nesse comparativo com os gastos federais, deixamos fora a segurança pública, atribuição principalmente dos Estados.

 

 

A Pública elencou os investimentos públicos relacionados ao evento e dividiu-os entre os que ficarão como desejável legado para população brasileira (aeroportos, portos e mobilidade urbana) e os que foram feitos exclusivamente para a realização do mundial – como os estádios, os gastos em telecomunicações, segurança, turismo, etc. – sempre utilizando como dado os valores contratados (consequentemente comprometidos) de acordo com o Portal da Transparência da CGU. Só nas estruturas provisórias, montadas para receber espaços de mídia, exposição comercial e atendimento a torcedores VIP, entre outras coisas, foram gastos R$ 208,8 milhões em verbas estaduais nas seis sedes da competição de 2013.

 

 

No quadro abaixo, é possível visualizar o total dos repasses do Governo Federal para saúde e educação entre os anos de 2010 e 2013. Os dados foram levantados a partir do Portal da Transparência da CGU. No caso de 2013, estavam disponíveis os repasses até o último mês de setembro. Os repasses para Brasília estão bem acima das demais cidades porque a União banca integralmente os gastos com saúde, educação e segurança pública da capital federal, enquanto as outras cidades contam com verbas estaduais e municipais para estas áreas.

Com relação às obras de mobilidade urbana, consideradas como principal legado para as cidades-sede, foi grande a redução do previsto na Matriz de Responsabilidade: em vez dos 50 empreendimentos previstos para o setor em 2010, apenas 35 intervenções urbanas – e mais dez obras destinadas a facilitar o acesso aos estádios – permaneceram. Algumas obras, como o BRT Pedro II/Carlos Luz, em Belo Horizonte, foram desmembradas em intervenções menores. Até agora 24 obras de mobilidade urbana em 10 cidades-sede já caíram. O investimento público que não se concretizou em todas elas chega a quase R$ 7 bilhões.

Comentários

Opte por Disqus ou Facebook

  • Eduardo Santos

    Gente,

    Não que eu ache que os investimentos em educação são suficientes, mas a reportagem esqueceu de algo muito importante: a constituição e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação estabelecem que o financiamento da educação é de responsabilidade de Estados e Municípios, e não do Governo Federal. A conta certa seria somar o repasse do Governo Federal MAIS o investido por Estados e Municípios.

    Esquecendo desse detalhe a conta está matematicamente errada e a reportagem perde credibilidade.

    • Daniel

      Não necessariamente, pois a matéria está tratando somente dos investimentos FEDERAIS na Copa do Mundo. Na matéria são descartados os investimentos dos municípios e estados com a Copa, bem como os investimentos que fizeram em educação e saúde.

      • Sim, mas existe uma questão estatutária que torna a discussão injusta. Teoricamente o Governo Federal não deveria investir em educação, pois não é o que diz a lei. O repasse é feito através do Funda Nacional de Educação, dinheiro esse a que os municípios têm acesso. Os repasses federais também não entram na conta dos investimentos obrigatórios em educação, que correspondem a 25% da arrecadação.

        Pode-se discutir a constituição, que acho válido já que tenho minhas ressalvas em relação à ela. O fato é que o dinheiro do Governo Federal deveria ser aplicado em investimento, como estradas, portos, aeroportos e estádios (sim, isso também entra nessa rubrica). O investimento em educação vindo do Governo Federal, seguindo a determinação da lei, deveria ser zero.

        • ★ Sr. Quintela ★

          Parabéns Eduardo!
          Tentar enganar quem tem a informação é mais embaixo!

  • RIOTURISMO.NET

    Vergonha

  • ★ Sr. Quintela ★

    A “reportagem” é manipuladora e tendenciosa!
    Vamos debater com responsabilidade e não fazer terrorismo!
    Cadê a responsabilidade dos governos ESTADUAIS e MUNICIPAIS?

    Outro item que o “repórter” não fala: A necessidade de se investir em infra-estrutura independente da COPA.
    Salvador sequer tinha ESTÁDIO! Qualquer cidadezinha dos EUA com menos de 50.000 habitantes tem seu ginásio seu estádio sua arena.
    Salvador com 7 milhões de habitantes não tinha NADA!
    Porque só comparam com os EUA quando interessa? Quando falam de impostos sobre veículos?
    Tô ficando de saco cheio de tanta manipulação!
    Acabou essa de Bonner falar pros “Homer Simpson” ouvirem CALADOS!
    Há mais de 500 anos temos uma educação ruim, saúde, educação, segurança e moradia ruim!
    Não é a não realização da COPA que vai melhorar a educação, saúde…
    Vejo isso como tentativa de sabotar o governo do PT… só essa explicação!
    E os investimentos? Não são computados?
    Porque o MUNDO briga por uma COPA?
    Todos estão errados e somente alguns “jornalistas” e a oposição estão certos?
    Acredito que se o PSDB estivesse fazendo a COPA o comportamento da IMPRENSA seria bem diferente!

    • Rafa Aragao

      Salvador não tinha estádio? Fonte Nova e Barradão não são estádios? Ok a Fonte Nova tava interditada mas existia há anos. Em uma entrevista pra Playboy em 1999 ( edição de dezembro) o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, falava da candidatura do Brasil pra Copa de 2006. E nela ele dizia que nossa grande vantagem é que não precisariamos construir estádios como em outros países, que reformar era mais fácil que construir e que nem seria necessário dinheiro publico. Esse mantra foi dito até a então campanha vitoriosa para Copa de 2014. E que nós estamos vendo? Estádios desnecessariamente sendo construídos. Precisava de mais um estádio em São Paulo para abertura da Copa? Precisava de um estádio em Manaus, sendo que Belém é muito mais tradicional no futebol e tem um dos maiores estádios do Brasil? Será que precisava de mais um estádio em Pernambuco onde todos os clubes tem estádio próprio? Ou seja nós foi vendido uma ideia que Copa iria trazer benefícios a população, mesmo os estados que não fossem sede e não é bem isso que estamos vendo.

      • ★ Sr. Quintela ★

        Vc é de Salvador? Se sim não conhece a realidade da cidade na qual mora.
        O Barradão é um estádio PRIVADO!
        Se vc acha que o Barradão está preparada para receber um copa…
        Seu padrão de qualidade deve ser o pior possível.
        Isso que vc afirma de Ricardo Teixeira é uma grande MENTIRA.
        Desde o primeiro momento que o Brasil foi o ganhador da escolha para receber a COPA se falou o TEMPO TODO na reforma dos estádios.
        Ou seja: Só vc ouviu isso de Ricardo Teixeira…
        Na Fonte Nova, 7 pessoas perderam a vida. A arquibancada desabou e 7 pessoas cairam de uma altura de quase 16 metros.
        A Fonte Nova foi condenada por TODOS os engenheiro que periciaram o antigo estádio.
        Se vc acha que não!….
        Poderia debater com vc sobre a construção do estádio em SP… mas não estou afim.
        Procure se informar melhor… fala muita bobagem, parece um papagaio repetindo a revista VEJA e seus asseclas…
        Seja feliz na sua ignorância…. destile seu ódio e sua raiva depois descubra o quanto vc foi manipulado para servir de munição para atacar o PT…

  • Lucas

    Acho discutível essa classificação de vocês de legado e não legado. Por que turismo não é legado? Rede hoteleira sinalização, revitalização de espaços turísticos/culturais, etc, isso tudo é legado sim.
    É um critério que me pareceu subjetivo demais e foi apresentado como exato, matemático. Até porque dentro do item segurança, por exemplo, parte da cifra deve ser destinada a questões que de fato não são legados, são temporários (como o pagamento dos policiais extras que farão patrulha durante a Copa), mas também parte da cifra deve ir para aquisição de equipamentos e etc, que são legado sim. Da mesma forma telecomunicações. E o entorno do Maracanã, por exemplo, que compreende a passarela ligando a radial oeste à quinta da boa vista e a revitalização das estações de trem e metro, além da pista de caminhada, é legado sim, senhores.

    Enfim, podemos discutir se serão benéficos ou não; se é justo gastar essas quantias com essas obras ou não; se existem outras áreas prioritárias que estão ficando de lado; mas essa construção que vocês optaram é decepcionante frente à seriedade do trabalho da Agência Pública. Falo isso como admirador do site, incentivador (inclusive do crowdfunding) e alguém que fica muito feliz quando vê as notícias daqui ganharem repercussão.

    Mas dessa vez, desculpem, pisaram na bola.

    • ★ Sr. Quintela ★

      O objetivo da reportagem não é informar.
      É polemizar e manipular.
      Reportagem TOSCA e mal feita.
      Tomou um sarado BATEU LEVOU de Jorge Hage…
      Se todos do Gov. fizessem como ele não haveria tanta desinformação.
      Na próxima o autor vai estudar um pouquinha mais antes de tomar pito pela internet!
      Trabalho tosco, porco e mal feito!
      Será que ele quer ser contratado de VEJA?
      Tá no caminho certo…

  • Jaime Balbino

    Achei a reportagem muito confusa. O repórter, por exemplo, não sabia como descriminar o FUNDEB que é o principal recurso na educação básica. Também ainda cisma em contabilizar gastos com municípios sendo que parte do repasse federal vai para os estados e de lá chegam aos municípios.
    Ele acerta ao considerar o período de 2010 até 2014. Coisa muito rara lembrar que os 7,5 bilhões com estádios abrange 5 anos por isso não dá para comparar com 1 ano de Orçamento da União apenas.
    Mas (para compensar?) ele erra feio ao computar e ainda defender que emprestar 7,5 bi é o mesmo que o investimento de 8,8 bi. Não se está doando dinheiro a empresários, mas financiando-os e eles terão que devolver o dinheiro ao governo com juros e correção. Do outro lado, o dinheiro social investido é a fundo perdido e constrói ou mantêm equipamentos para uso da população.
    É uma pena que se propague essa falsidade.
    Por fim, lembro que a Arena do Corinthians demorou quase 2 anos para receber dinheiro do BNDES, mesmo já estando em construção, porque ninguém dava garantias para o empréstimo de reles 400 milhões. Por lei o dinheiro não podia ser liberado e não havia negociação possível.

  • Lucas

    Desapeguem-se aos gráficos lindos que vocês construíram e a todo o trabalho que tiveram. É sofrido, deve ter dado o maior orgulho de ter feito, eu como jornalista ficaria muito feliz em ter concluído uma matéria dessas. Mas houve um erro grave, os dados estão completamente comprometidos. E vocês ainda o ostentam aqui!

    Jornalistas, apeguem-se somente à verdade!

  • Silvio Ene Esse

    Bom artigo. As informações são relevantes, não e difícil ver o que esta errado realmente, basta olhar ao redor. O esbanjamento para a copa de fato vai nos deixar um legado, projetos de infraestruturas serão reconstruídos ou melhorados, mas o problema não é o que será melhorado mas sim o esbanjamento. isso ficou claro na reportagem.

  • Bia Loren

    Gente,
    o que todos falarão tá certo mais voces já pensarão que melhorias vai trazer para o povo brasileiro?

  • Susan Michael

    Você está procurando um empréstimo? Ou você foi recusado um empréstimo por um banco ou uma instituição financeira para uma ou mais razões? Você tem o lugar certo para suas soluções de empréstimo aqui! Empresa empréstimo Elina Johnson estamos limitados em dar empréstimos a empresas e particulares, a uma taxa de juros baixa e acessível de 2%. Entre em contato conosco por e-mail hoje via [email protected]

    DADOS DO REQUERENTE:

    1) Nome Completo:

    2) País:

    3) Endereço: um

    4) Estado:

    5) Sexo:

    6) Estado civil:

    7) Profissão:

    8) Número de Telefone:

    9) Atualmente posição no local de trabalho:

    10) Renda mensal:

    11) Valor do Empréstimo Necessário:

    12) Empréstimo Duração:

    13) Finalidade do empréstimo:

    14) Religião:

    15) Você já aplicada antes;

    16) Data de nascimento;

    obrigado,

    Sra. Elina Johnson

  • John Carlson

    Nós oferecemos uma baixa taxa de juros de 3% e seu melhor jogo empréstimo fixo incluindo empréstimos para os candidatos com deficiência de crédito ou ruim, apenas pense no que você poderia fazer com um aumento significativo na sua conta ou em dinheiro reservas bancárias. Para pagar a dívida existente, reduzir saída mensal, consolidando empréstimos pessoais existentes e dívida de cartão de crédito. damos a hipotecas, empréstimos de carro, empréstimos comerciais, empréstimos internacionais, empréstimos ao consumidor, bem como qualquer outro tipo de empréstimo que você está pensando. se estiver interessado pode contactar-nos pelo e-mail: [email protected]

O maior mistério da Olimpíada

| por | 30 de maio de 2016

Seis vigas de aço pesando 110 toneladas simplesmente desapareceram em meio às obras para o Porto Maravilha. Nosso repórter foi atrás dessa história e da fracassada investigação policial