AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Tem água de graça em Paris – e, talvez, no Rio

Na capital parisiense, fontes públicas fornecem água gratuitamente em toda a cidade. Lei obriga restaurantes do Rio a fazerem a mesma coisa, mas ainda não é cumprida

Turistas brasileiros que visitam a França costumam ficar surpresos quando o garçom de um café ou restaurante coloca uma jarra de água sobre a mesa. A pergunta mais frequente é: “Dá para beber isso?” O costume de servir água de graça, juntamente com a refeição, é muito comum por lá. Muitas vezes o cafezinho vem com um copo de água e, quando isso não ocorre, o cliente pode pedir esse acompanhamento. A água não é cobrada e isso, evidentemente, evita o uso excessivo do plástico. Mais estranho ainda para um brasileiro é descobrir que, na rua ou em parques, pode-se beber a água das fontes localizadas nos jardins e nas praças.

Detalhe da fonte Wallace (Foto: Eau de Paris / Emile Luider)

Detalhe da fonte Wallace (Foto: Eau de Paris / Emile Luider)

Um mapa editado pela Eau de Paris (Água de Paris), empresa pública responsável pelo fornecimento de água na capital francesa, mostra a localização de mais de 1.200 bebedouros públicos na cidade. Alguns são antigos, como os 101 bebedouros ou fontes Wallace que existem desde o século 19. Outros extraem o líquido do aquífero subterrâneo de Albión. Pode-se achar inclusive água com gás (uma forte rival para empresas desse setor). A maioria dessas fontes têm hoje um design moderno ou artístico.

Perguntamos a Elisabeth Thieblemont, assessora de comunicação da Eau de Paris, qual era o custo do serviço para a empresa. “Não sabemos. A gente nunca se questionou sobre isso, nem fizemos esse cálculo. Oferecer água na rua é parte de um serviço público. Não vemos a água como uma mercadoria”, respondeu, um pouco chocada. De acordo com um estudo realizado a pedido da Eau de Paris em outubro de 2011 pelo Ifop, um instituto independente de pesquisas, 90% dos parisienses entrevistados declararam que “têm plena confiança na água da torneira e que a bebem durante as refeições”.

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A Eau de Paris tem boa reputação por vários motivos. Primeiro, porque a gestão da água retornou ao setor público depois de 20 anos no setor privado, que aumentou os preços e não conseguiu bons resultados. Com a mudança, tanto consumidores como ONGs defensoras do meio ambiente passaram a ter o direito de participar nos conselhos de administração. Em segundo lugar, porque, ao contrário de outras empresas, a Eau de Paris parou de usar o sulfato de alumínio no tratamento há mais de 20 anos – justamente por causa do potencial risco à saúde dos habitantes, especialmente o relacionado à doença de Alzheimer. Metade da água da capital francesa vem de fontes subterrâneas, e as zonas de captação – que ficam a 150 quilômetros de distância – têm sido protegidas. Contratos são assinados com agricultores para eliminar o uso de agrotóxicos nessas áreas, estimulando cultivos orgânicos.

Existem, porém, alguns pontos negativos. Desde 2001, por causa do plano de vigilância Vigipirate (que define uma série de mecanismos para evitar atos de terrorismo, incluindo tentativas de contaminação da água), é preciso adicionar cloro à água no sistema de abastecimento. Isso faz com que a água de Paris tenha um gosto forte da substância, embora a concentração esteja dentro dos limites aceitáveis determinados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A empresa aconselha a botar a água na geladeira por 15 minutos para que o cloro evapore.

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Ainda que exista um forte controle sobre a água de Paris e ela seja considerada de “excelente qualidade” pela autoridade sanitária da França, não são conhecidos os níveis de poluentes emergentes e perturbadores endócrinos contidos nela. “Esses parâmetros não são considerados pela legislação francesa. Mas a empresa fez as suas próprias análises. Esses poluentes estão presentes em níveis baixos na água da torneira e praticamente não foram detectados na casa dos consumidores. Mas é verdade que ainda falta informação para saber se esses níveis podem ter um impacto na saúde e, ainda, se existe o famoso ‘efeito coquetel’, ou seja, se todas essas moléculas juntas podem provocar algum dano”, reconhece Natalie Fleury, responsável pela qualidade na Eau de Paris.

Oficialmente, as autoridades sanitárias francesas e europeias estão mais preocupadas com a presença desses contaminantes na comida do que na água – particularmente os resíduos de antibióticos e de hormônios de crescimento na carne. Mas, ainda hoje, esse risco é um dos argumentos mais utilizados pelas empresas de água engarrafada para vender a água mineral.

O alto grau de confiança na água pelos parisienses foi conseguido depois de muito esforço da Eau de Paris. “Embora a empresa não conte com o orçamento que as empresas de água engarrafada têm, nos comunicamos muito sobre a qualidade para dar certeza e tranquilidade à população de que pode beber a água da torneira”, explica Elisabeth Thieblemont, responsável pela comunicação da empresa.

Fonte prestes a ser inaugurada (Foto: Olivia Blaizac)

Fonte prestes a ser inaugurada (Foto: Olivia Blaizac)

A Eau de Paris tem toda uma estratégia de comunicação para a água e inclusive um setor de venda de objetos, como garrafas, para promover o consumo da água da torneira. Também faz, regularmente, campanhas de comunicação: a última fez referência ao vinho para promover a água da torneira com um gran cru, os seja, como um excelente vinho.

Na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), embora o espaço físico onde fica a assessoria de comunicação da empresa seja enorme, não existe nenhuma ação para conscientizar a população sobre o consumo de água tratada. “Falamos sobre a economia que os clientes têm que fazer, mas nada sobre beber a água da torneira”, reconhece Wagner de Oliveira Prado, assessor de comunicação da Sabesp. Em São Paulo, isso seria necessário porque, entre os anos 70 e 80, o Ministério da Saúde aconselhava a ferver a água antes de beber. Essas recomendações ainda estão na cabeça das pessoas.

Contra o plástico

Sem nenhuma ajuda, duas ambientalistas criaram a iniciativa Água na Jarra, umas das primeiras que tentam limitar o uso do plástico. O projeto defende que os restaurantes assumam o compromisso de oferecer água da torneira para os consumidores, em vez de garrafas de água mineral. “É incrível ver que todos os restaurantes vendem garrafinhas de água somente para ganhar mais dinheiro, sem se preocupar com o meio ambiente”, explica Leyticia Janot, uma das criadoras do Água na Jarra. Todos os estabelecimentos que até hoje aderiram à iniciativa estão em São Paulo.

No Rio de Janeiro, a Lei Estadual 2424, de 1995, diz que “é obrigatório o fornecimento de água potável, filtrada e não mineral, gratuitamente, para uso dos consumidores no Estado do Rio de Janeiro” nos restaurantes. Isso é confirmado pelo Procon-RJ. Recentemente a entidade começou a sensibilizar esses estabelecimentos, porque reconhece que ninguém respeita a norma. O segundo passo será a fiscalização.

Simulação 3D da fonte Poing do bonde T3 (Ilustração: Eva Albarran & Co)

Simulação 3D da fonte Poing do bonde T3 (Ilustração: Eva Albarran & Co)

Qualquer restaurante é obrigado a ter água filtrada, mesmo que os garçons digam que não podem oferecê-la. Esses estabelecimentos também precisam limpar regularmente a caixa d’água. Pouca gente se dá conta, mas não se usa água mineral engarrafada para fazer café. “Se os restaurantes passassem a usar garrafas grandes já seria uma vitória, embora a verdadeira vitória seria beber água da torneira”, diz Leyticia Janot. À medida que os consumidores se habituarem a pedir água filtrada, menor será a quantidade de plástico que acabará em rios, praias e aterros. E os donos de restaurantes poderão entender, aos poucos, os danos que as garrafas provocam ao meio ambiente.

O Brasil, como muitos outros países, ratificou que a água é um direito humano. Isso, porém, ainda não ocorre na prática.

Confira abaixo o mapa das fontes de água na cidade de Paris

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Comentários

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  • Queridas, vocês me perdoem. Faltou muita apuração nessa matéria. Acho que falta experiência de vida à reporter, talvez.

    Em qualquer boteco em Sampa ou no Rio em que se peça um copo de água da torneira ou filtrada (e em restaurantes não metidos a besta também, bares, etc), dá pra tomar água de graça. Talvez ela nunca tenha frequentado esses locais, ou nunca tenha simplesmente pedido a água de torneira ou filtrada. Sem falar nos bebedouros de parques e praças em São Paulo…

    Além disso, os únicos locais do mundo que eu conheci que realmente só tinha água engarrafada disponível como potável foram a Tunísia e pequenas cidades na Turquia. Porque realmente mal existe água não-potável, potável então… Agora, Inglaterra, Holanda, Coreia, EUA, Argentina… Consegui água de graça em todos, na maioria deles disponível facilmente ao público. E na França, fora de Paris, também.

    Talvez tenha sido só uma má escolha de ângulo para a matéria.

    • Guest

      Teste

      • nataliaviana

        Resposta da Repórter Anne Vigna:

        “Obrigada Marilia pelo comentario. Mas sim fiz a experiência de pedir agua filtrada de graça ha mais de dois anos nos restaurantes, e no Rio sobre tudo, nao é fácil obter uma jarra de agua de graça ou so um copo como voce describe a tentativa. A situaçao é melhor em Sampa do que no Rio, sobre todo nos restaurantes mais carros. Mas a minha experiencia é que os funcionarios nao sabem de isso também nao. Nao tem jarra para ofrecer, nao tem “agua filtrada” até falaram.

        Por isso existe a iniciativa http://aguanajarra.com ou a campana feita atualmente pelo grupo FB https://www.facebook.com/riosurreal?fref=ts
        para apoiar a lei de 1995 ( “é obrigatório o fornecimento de água potável, filtrada e não mineral, gratuitamente, para uso dos consumidores no Estado do Rio de Janeiro”). A rede Delírio Tropical aderiu essos dias à JARRA D’ÁGUA no Rio.

        Todo mundo pode fazer a experiência de pedir-la,. Acho que meu look de gringa nao é a unica razon de nao ter obtido agua de graça até so um copo de agua.

        Eu nao sabia das fontes dos bebedouros de parques e praças em São Paulo. Falei de isso com a Sabesp e nao tinha a informaçao de onde a gente podia beber agua potavel na cidade. Os amigos de Sampa também nao falaram ne bebem…
        É uma boa noticia. Voce tem como me dar mas informaçaos ?

        Acho que falta no artigo explicar que a experiencia descrita em Paris existe em outros lugares do mundo, como Europa, EUA, Russia, Corea, etc. Mas essa experiença é interesante de descrever por varios motivos.
        Em muitos paises de América latina, tem so agua engarrafada a ofrecer nos restuarntes. Em Paris e na França toda, a jarra da agua chega com a comida. é um ejemplo interesante a contar por os que nao conhecem a França. A empresa de Eau de Paris esta especialmente em França um bom ejemplo de qualidade e cuidado da agua. E também é interesante de explicar porque.
        A comunicaçao é parte de esse logro, algo que nao existe nas empresas de agua no Brasil. Isso sao as razones ademais do fato que so francesa.

        Em muitos lugares de Africa e Asia voce nao tem agua potavel outra que a engarrafada. No mundo todo tem 884 milhoes de pessoas que nao tem aceso a agua potavel. A gente tem que comprar agua engarafada. Asi que se podemos reducir o nosso consumo de plastico onde for possivel no planeta, ja é um gran logro.”

  • Gabriela

    Marília. Acho que ao ler essa matéria junto com a outra “Dá para beber essa água?” se entende que ambas se complementam. Você tem razão quando diz que existem muitos lugares no Brasil onde a água da torneira é acessível, porém, têm muuuuitos aonde isso não acontece e o resultado final é um uso excessivo de plástico… Acho que, entre outras coisas, as duas matérias no seu conjunto põem em discussão um problema real no Brasil: o consumo excessivo de água engarrafada e o impacto ao meio ambiente que isso significa. Eu na verdade fico revoltada quando veio tantas pessoas bebendo agua engarrafada nos restaurantes, quanto plástico para beber 250ml de água! isso no melhor dos casos, porque tem lugares que vende só garrafas de 200ml ou até menos…
    Na verdade, também acho que se ao sentar na mesa de um estabelecimento a gente recebesse uma garrafa com água, o consumo de agua engarrafada nos
    estabelecimentos seria menor, e o impacto ao meio ambiente também… Claro,
    isso daria certo se a população tivesse confiança na agua da torneira e por
    isso acho importante a discussão sobre a qualidade da água potável. A matéria menciona problemas como a presença de agrotóxicos, de hormônios, o uso de alumínio no processo de limpeza da água, etc.. Existem lugares, onde o governo está apoiando aos agricultores orgânicos como medida de prevenção de poluição das aguas mineiras, poderia se trocar o uso de sulfato de alumínio no tratamento da água, poderíamos exigir campanhas de informação da qualidade da água, etc.

    Na verdade, às vezes eu imagino as montanhas de plástico que se acumulam um domingo no Rio de Janeiro, entre as garrafinhas que ficam na areia das praias cariocas e as vendidas nos estabelecimentos… Um pequeno gesto como receber a água da torneira numa jarra ou o hábito de levar
    garrafas não descartáveis conosco ajudaria muito.

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