AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

HQ: Meninas em Jogo

Durante três meses, nossa equipe de repórter e quadrinista percorreu estradas do Ceará em busca da teia da exploração sexual de meninas para a Copa. Aqui você os acompanha na primeira reportagem em quadrinhos da Pública, em cinco capítulos

Fazer uma reportagem inteira em quadrinhos. Pensada e concebida para o formato HQ. Investigativa. Sobre um tema delicado, complexo, triste e sobretudo urgente: a exploração sexual de crianças e adolescentes em Fortaleza. Revisitar a pauta antiga como a violação dos direitos dos meninos em um novo contexto, a Copa do Mundo no Brasil. Como ponto de partida, eu tinha uma denúncia feita por pessoas que estão nas ruas convivendo diretamente com o aliciamento dessas meninas em outras cidades do estado do Ceará para trabalhar em Fortaleza durante o megaevento. Uma realidade dramática que não podia ser retratada de forma chapada, burocrática, didática ou superficial. E ainda tinha a novidade da linguagem, minha primeira reportagem em quadrinhos.

Te parece uma ideia maluca? Escrevendo isso agora, confesso que me parece. Mas a Pública acreditou e nos incentivou a inscrever o projeto no Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo da ANDI, que nos trouxe informação de qualidade sobre como tratar desse tema sem ferir ainda mais as vítimas do abandono da sociedade e do Estado; e também recursos financeiros para realizar essa jornada. A parceria com o De Maio já tinha rolado antes, em projetos menores, sempre admirei o trabalho dele. Os traços sombrios, realistas e duros que vi pela primeira vez na redação da Caros Amigos, em uma parceria De Maio e Ferréz, nunca saíram da minha cabeça. Quando eu pensava em uma reportagem investigativa em quadrinhos (é um sonho antigo e compartilhado com a Natália Viana) eram essas imagens que vinham à mente. Então por que não achar o cara e fazer a proposta? Convicto de que qualquer reportagem pode ser feita em quadrinhos, ele topou de primeira. E lá fomos nós para o Ceará.

“Danou-se, agora tem que dar certo”.

A narração em quadrinhos traz alguns recursos novos. Permite, por exemplo, que o leitor acompanhe o processo da reportagem enquanto ela é feita, o repórter está em cena, pesquisando, entrevistando, e muitas vezes dando com os burros n’agua também, e o leitor está ali, descobrindo junto. É uma forma que considero muito honesta e ao mesmo tempo subversiva de fazer jornalismo. Mas traz alguns desafios. Pessoalmente, tive de me acostumar com a ideia de me ver personagem, achei essa exposição bem estranha no começo! “Preciso mesmo aparecer aqui?” o De Maio ria e me provocava: “Você já leu um cara chamado Joe Sacco?”. O próprio processo de reportagem é diferente em quadrinhos. Em uma reportagem escrita, você pesquisa, vai a campo, faz entrevistas, volta para a redação, transcreve tudo, lê e depois escreve: campo, aspas, dados. Com quadrinhos o processo se parece mais com um roteiro de filme que precisa ser criado ao longo da investigação. Tive muita sorte de ter um parceiro bacana e paciente como o De Maio e uma editora brilhante como a Marina Amaral que conseguiu ir além dos desenhos, editar o conteúdo jornalístico e ainda segurar alguns momentos de crise e insegurança desta repórter que vos escreve.

No Ceará, procuramos conversar com pessoas que convivem, denunciam e lutam pelo fim da exploração sexual como o pessoal da Cufa (Central Única de Favelas), da Barraca da Amizade, da Aproce (Associação de Prostitutas do Ceará), do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e Adolescente do Ceará) e tantos outros que aparecem na reportagem. Optamos por não abordar meninas nas ruas, como explico na matéria, mas falamos com meninas abrigadas que abriram suas vidas de forma voluntária e num fôlego só, surpreendidas apenas pela pergunta final: “E o que você quer ser quando crescer?”. Aí apareciam sorrisos e alguns minutos de silêncio, seguidos de sonhos bonitos de se ouvir.

Também não vou esquecer as andanças pelos cabarés (bordeis) com o pessoal da Aproce e as conversas com mulheres que um dia já foram essas meninas e que continuam nas pistas, sustentando suas famílias, filhos, abandonados pelos pais, sobrinhos, parentes doentes.

Foram muitas conversas (mais de 30 entrevistas), muita gente, muitas histórias, muito “tem mas não está tendo”. “Tem um programa que atende mas no momento estamos mudando a gestão e está parado” ou “tem o Conselho mas não tem conselheiro, não tem carro, é longe”. “Tem a delegacia mas só uma delegada para todo o Ceará”. Tem condições de mudar. Mas não tem vontade política.

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Comentários

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  • samucael

    Parabéns! Muito interessante e essencial a abordagem que fizeram do assunto, ainda mais da forma como foi apresentado. Infelizmente ao mesmo tempo em que me contento em ver isso sendo divulgado, me entristeço bastante, pois não vejo uma solução palpável para isso, nem mesmo um interesse por parte do Poder Público e da Iniciativa Privada em auxiliar os profissionais da área de proteção em pelo menos inibir a ocorrência dessa exploração sexual.

    A população tem que se indignar e se levantar contra isso. As famílias das vítimas têm que se conscientizar do quanto isso é danoso para as pessoas exploradas… Algo precisa ser feito!

  • Rosa Maria da Costa

    Sem palavras! Parabéns pela matéria e pelo formato quadrinhos. contudo, dói saber que todos os que tem poder de fogo são coniventes e se beneficiam de um jeito ou de outro… :-(

  • Bruno Martins

    Parabéns!!! Disponibilize ela em forma de vídeo no youtube…. fica mais fácio de divulgar esse trabalho maravilhos…
    Se me permite, que tal fazer uma sobre o Funk carioca, ele tambem fere os direitos dos adolecentes e influenciam o trafico de drogas, prostituição entre outras coisas..
    Novamente PARABÉNS!!!!

  • Tercio Vellardi

    Parabéns, ficou massa essa linguagem HQ prum tema tão “escroto” !!! Abração da Galera Sadia da Vila do Estevão em Canoa-Quebrada.

  • Eliane Oliveira Rangel

    Parabéns, a idéia foi ótima! A linguagem chama atenção para o problema de uma forma muito inteligente! Continuem asssim!

  • Junia Almeida

    Déa, a matéria ficou incrível. Parabéns a vc e ao ilustrador, que mostraram com tanta propriedade o que acontece por lá. Extremamente bem escrito e desenhado. Amei o formato.

  • A matéria ficou excelente, mas o que mais me atraiu foi a forma. Como apreciador da nona arte, sempre defendo-a como mídia eficaz para temas e públicos variados. Inclusive, coloquei a matéria em meu blog para download, com a devida referência para o sítio de vocês. Adoraria ver outras matérias em quadrinhos.

  • Adriano Chaves

    Sensacional, muito bom mesmo. Parabéns para a equipe.

  • Nara de Moura

    Ótima perfeita, e triste mas e uma realidade da Cidade de Sao Gonçalo, e essa e a hora de fazer algo.

  • Nilson W T

    Sensacional…. Parabéns a todos. Infelizmente a realidade é cruel.
    Cruel para com o nosso povo que passivamente, impotentemente se deixa levar porque o problema é com os outros….
    Cruel para mim que, não sendo diretamente ligado a órgãos públicos competentes, à políticas de combate a tudo isto, me sinto incapaz de lutar contra esta sujeira toda. Resta-me apenas uma pequena e intensiva luta de alerta para com o pequeno mundo que me rodeia.

  • Danilo LaGuardia

    Quase não cheguei ao fim da matéria por não se tratar necessariamente de uma historinha em quadrinhos, como imaginava. Mas valeu muito a pena ter seguido em frente. Ficou ótimo tanto o trabalho jornalístico quanto a arte do post. Excelente maneira de atrair leitores mais jovens para o universo da informação. Parabéns aos envolvidos.

  • Camila Victorino

    Para mim foi como ler um ótimo livro. Muito bom mesmo! Parabéns! Algo que o brasileiro e brasileira tem que aceitar hoje é o que vocês falaram: o problema somos nós! Nós ficamos esperando medidas governamentais que não vem, enquanto vemos “Pânico na TV”, votamos na gostosa do futebol, somos machistas, ensinamos nossos filhos a terem direitos que nossas filhas não podem ter, enfim, a mulher e o homem brasileiro deve saber que em suas pequenas atitudes machistas cotidianas estão gerando um efeito borboleta que vai levar uma sociedade inteira a criar os clientes de menores no Brasil. Mais educação de gênero e mais atitude! Isso nos falta muito também!

  • Antonio Carlos Jr.

    Perfeito. Parabéns! Sem nada a argumentar.

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