AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Meirelles recebeu R$ 50 milhões no cargo, mas repasse não é irregular

Verificamos acusação feita pelo líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini, em discurso durante a votação da denúncia contra Temer

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concede entrevista no Senado

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concede entrevista no Senado. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

“Nós requeremos a Henrique Meirelles que explique como recebeu R$ 217 milhões da JBS: R$ 50 milhões desses R$ 217 milhões ele recebeu no exercício do cargo de ministro da Fazenda, o que, portanto, é absolutamente irregular.” – Carlos Zarattini (PT-SP), deputado federal, líder do PT na Câmara

FalsoDurante a sessão de votação da denúncia de Michel Temer, o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) falou que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recebeu repasses da JBS durante o exercício de sua função no ministério. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do deputado encaminhou cópia da representação que Zarattini encaminhou à Procuradoria-Geral da República, solicitando que Meirelles seja investigado pelos repasses.

O Truco – projeto de checagem de fatos (fact-checking) da Agência Pública – verificou a afirmação de Zarattini. Os valores dos repasses indicados pelo parlamentar estão corretos, mas ele erra ao dizer que toda a quantia veio da JBS e ao considerar a conduta “absolutamente irregular”. Por isso, a frase é falsa.

Meirelles recebeu R$ 217 milhões entre 2015 e abril de 2016, da empresa de consultoria da qual é dono. Desse montante, R$ 50 milhões foram pagos em abril de 2016, quando ele já atuava como ministro. A informação foi revelada com exclusividade em 26 de julho, pelo BuzzFeed, com base em documentos da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).

Procurado pela reportagem do site, o ministro confirmou o recebimento dos valores, que seriam referentes a consultorias prestadas a firmas nacionais e internacionais antes da sua posse no comando da Fazenda. “Os valores foram declarados no Imposto de Renda e pagos os impostos municipais e federais. Além disso, foram declarados às demais autoridades competentes”, afirmou Meirelles ao BuzzFeed.

O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), em discurso na Câmara

O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), em discurso na Câmara. Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

Dentre as empresas para as quais a consultoria de Meirelles prestava serviço estão gigantes como as instituições financeiras norte-americanas Lazard e KKR e também a brasileira J&F, holding controlada por Joesley Batista e detentora das marcas JBS e Friboi. Ao BuzzFeed, Meirelles confirmou que recebeu por serviços prestados à empresas do grupo de Batista. “É fato público que o ministro orientou a construção da plataforma digital do Banco Original e, portanto, foi remunerado pelo serviço prestado”, disse a assessoria de Meirelles ao veículo, citando um banco de propriedade do grupo J&F.

Zarattini alega que “Meirelles recebeu R$ 217 milhões da JBS”. Os documentos da Jucesp, no entanto, mostram que este foi o repasse total feito pela empresa de consultoria para Meirelles entre 2015 e 2016. O valor de R$ 217 milhões refere-se aos lucros obtidos em todos os serviços prestados pela consultoria do ministro ao longo de quatro anos, não apenas àqueles dedicados ao Banco Original, do grupo J&F.

Outro deslize do deputado é alegar que os repasses feitos ao ministro depois de sua posse no ministério são “absolutamente irregulares”. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República considerou regulares as operações feitas pelo economista. O assunto foi encaminhado por Meirelles à comissão em 22 de agosto de 2016. A reunião na qual foi emitido parecer favorável à regularidade das transações ocorreu em 27 de setembro de 2016. O resultado foi registrado na ata, disponível online. Na ocasião, o colegiado deliberou de forma unânime e considerou que a situação “não configura transgressão à ética pública tampouco situação de conflito de interesses”.

Veja também: Checamos 8 frases da votação da denúncia contra Temer

O próprio documento enviado pelo deputado petista à PGR não expõe a existência de irregularidades nos valores recebidos por Meirelles. Ao invés disso, levanta apenas suspeitas e demanda investigações. Assinada em conjunto com o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), a representação de Zarattini solicita que a Procuradoria-Geral da República investigue, justamente, se os pagamentos representam algum ilícito, conflito de interesses ou ato de improbidade administrativa.

“É preciso que essa Procuradoria-Geral da República analise se os recursos transferidos quando o Representado já exercia o cargo de Ministro de Estado da Fazenda não configuram violação aos princípios da administração pública (moralidade e probidade), dando ensejo, em tese, a prática de improbidade administrativa e/ou crime de responsabilidade”, solicitam os parlamentares na representação encaminhada à PGR.

Portanto, o Truco classifica a frase de Zarattini com o selo “Falso”. A conduta de Meirelles não é considerada irregular pela Comissão de Ética Pública, e o valor indicado pelo deputado como repasse da JBS é, na verdade, o montante total recebido pelo ministro por todos os serviços prestados por sua empresa em quatro anos de atuação.

A assessoria de Zarattini, ao ser informada do resultado da checagem, afirmou que, nas entrevistas concedidas à imprensa sobre o assunto, o deputado não alegou que toda a quantia seria proveniente da JBS, como fez em plenário. “A versão que passou e predominou no noticiário foi a das entrevistas”, argumenta a assessoria.

Entenda mais sobre a metodologia e sobre os selos de classificação adotados pelo Truco no site do projeto. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org ou por WhatsApp e Telegram: (11) 96488-5119.

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Comentários

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  • Augusto Sousa

    Desde o afastamento de Dilma, toda manifestação, sobre qualquer assunto, leva consigo os gritos de “Fora Temer”.
    A economia foi dilapidada ao longo de 13 anos com total complacência dos eleitores de partidos de extrema-esquerda, mas essas mesmas pessoas condenam Michel Temer − que ainda não completou um ano no cargo − por não ter resolvido todos os problemas do Brasil de forma imediata e indolor.

    • Fernando Pereira

      Qual parte da mala com dinheiro e gravações você não entendeu? Você tem certeza que o Michel Temer não está dilapidando ainda mais a economia? Tem certeza que ele não completou um ano no cargo? Você lembra dos discursos acalorados da época que diziam que era a Dilma sair que tudo daria certo? Você se lembra? Tem certeza?

  • Marcco

    Parece que Publica virou assessoria de imprensa do Meirelles. O tom da matéria é completamente laudatório ao magnata goiano.
    Notem: a Ata indicada do Conselho de Ética linkada na matéria simplesmente NÃO MENCIONA o nome do atual Ministro Meirelles. Pode ser um erro do link. Se for, corrijam.
    Mais ainda, e principalmente, seria adequado que Pública verificasse se o trabalho alegado por Meirelles foi de fato entregue, e se está dentro dos valores de mercado. Essa “orientação” da construção da plataforma digital do Banco Original é uma dos trabalhos mais caros e bem pagos que já ouvi falar.
    Plataforma digital para bancos, convenhamos, já vem sendo feito há décadas. Nada de novo sob o sol para justificar esse valor.
    O interessante é que as pessoas gastam toda sua ânsia realista e conspiratória contra as palestras do Lula, mas isso aqui passa batido. Meirelles falou, está falado. Afinal, Meirelles pode.
    Muito cedo para afirmar que a frase do Zaratini é falsa.

    • Fernando Pereira

      Sim, seria adequado que a Pública verificasse se o trabalho alegado por Meirelles foi de fato entregue, e se está dentro dos valores de mercado. Essa foi uma boa observação sua. Porém, isso não muda o fato de que a afirmação feita pelo deputado Carlos Zarattini é falsa, e esse é justamente o ponto da matéria.

      • Marcco

        Ainda penso que é cedo para sentenciar a frase do Zarattini como falsa, já que o trabalho pode não ter sido entegue, ou ter sido absolutamente superfaturado.
        É muito dinheiro por uma “plataforma digital” de um banco [ainda bem inexpressivo], não? O site do Banco Original afirma que ele é um banco sólido, com 2,2 bilhões de patrimônio: caramba, e dá mais de 10% do valor do seu patrimônio pela prestação de um serviço de aconselhamento?
        Conheço empresa de TI que faria isso com alguma tranquilidade. Há protocolos nacionais e internacionais a serem seguidos. Além disso, Meirelles não parece ser o gênio do TI bancário.
        Sei não.

    • Márcio Rezende

      Também concordo que seria interessante a demonstração do trabalho executado pelo Meirelles e sua consultoria, e que isso fosse realmente detalhado. O ministro tem o dever ético de demonstrar a execução da assessoria, assim como Publica deveria apurar o valor de mercado para esse serviço.

    • Alexandre R

      Parte desse dinheiro é de atividades irregulares. Insider trading e uso de influência, que todas agências fizeram vista grossa, assim como então fazendo agora para as manobras de Josley B. operando por antecipação de delação. Meirelles, parecido, quando chegou na JBS e comprou titulos públicos esperando uma baixa de juros que ninguém podia imaginar e foi (a jbs) um dos poucos ganhadores, criando lucro (financeiro) absurdo em pouco tempo para a JBS (que ganhou num daqueles anos o nome pela bloomberg: “The Hedge Fund that sells meat” – “o fundo multimercado que vende carne.” bricando com a ideia de que eles tinham mais lucro atuando como banco do que no negócio industrial deles.), o negócio era estranho porque ele tinha acabado de sair do BC e a própria ida da selic a 7,25% foi rápida nao durou 1 ano demonstrando que a decisão do BC não tinha mesmo lógica como o já mercado não via. Segunda atividade “estranha” foi recentemente o BC permitir abertura de conta bancária online somente com copia da ID, isso um mês depois do banco original ser lançado por ele também.

      • Marcco

        Gratíssimo, Alexandre R!!!
        Informações e análise fundamentais.
        Então, pessoal da Pública e do Truco, estamos aguardando o aprofundamento das investigações, ou a imediata revisão da redação do artigo acima, pois, de fato, não dá para dizer que seja mentira a afirmação do Zarattini.
        Antes pelo contrário, as evidências de negócios estranhíssimos do ministro da Fazenda Meireilles, envolvendo uso de informações privilegiadas, tráfico de influência e conflitos escancarados de interesses estão explícitas, além do fato de que essa dinheirama toda é muita grana para uma página de internet.
        Digo mais, o tom com que a matéria foi escrita me surpreendeu [pareceu mesmo assessoria de comunicação do Meirelles], e colocou uma suspeita sobre a autonomia da Pública e do Truco.

  • betão

    Não é um bom caminho combater estes golpistas com as mesmas armas a mentira…foi uma derrota que o próprio deputado petista se impos.

  • JSM 069

    É. Nada errado. Tudo certo. Tudo legal e eticamente compreensível.