{"id":2864,"date":"2020-06-15T22:28:46","date_gmt":"2020-06-16T01:28:46","guid":{"rendered":"https:\/\/apublica.org\/100.new\/o-que-descobrimos\/"},"modified":"2022-06-02T17:01:57","modified_gmt":"2022-06-02T20:01:57","slug":"o-que-descobrimos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apublica.org\/100\/pt\/o-que-descobrimos\/","title":{"rendered":"O que descobrimos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Giulia Afiune, Jessica Mota e Natalia Viana | 20 de Julho de 2016<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As expuls\u00f5es ol\u00edmpicas deixaram um legado dif\u00edcil de esconder: viol\u00eancias psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas, rela\u00e7\u00f5es sociais dilaceradas, moradores endividados e sujeitos ao controle das mil\u00edcias da zona oeste do Rio<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/09-altair-4b-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4999\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/09-altair-4b-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/09-altair-4b-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/09-altair-4b-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/09-altair-4b-2.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s da porta de metal da rua Camerino, no centro do Rio de Janeiro, duas escadas carcomidas levam ao segundo andar, onde, na aus\u00eancia de janelas, tudo \u00e9 malcheiroso e escuro. Ali, no meio de outras cinco ou seis fam\u00edlias, moram as crian\u00e7as Jackson, Jasmin, Jamile, Carolaine, Iuri, Karolyn, Cauane e Janderson, filhos de<a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/jailson-lourenco-da-costa-nascimento-2\/\"> Jailson Louren\u00e7o da Costa<\/a>, um negro alto, bonito, analfabeto. Eles dividem dois c\u00f4modos no corti\u00e7o ao pre\u00e7o de R$ 700 mensais; um deles acolhe geladeira, fog\u00e3o e o colch\u00e3o dos pais. No outro h\u00e1 uma c\u00f4moda, uma TV e uma cama compartilhada por todos os filhos. \u201cQuerendo ou n\u00e3o, um rola pro ch\u00e3o e a friagem bate\u201d, preocupa-se o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz sete anos que Jailson foi expulso do casar\u00e3o azul, sobrado antigo que fica no tra\u00e7ado do VLT (ve\u00edculo leve sobre trilhos), uma das atra\u00e7\u00f5es do Porto Maravilha \u2013 por sua vez, um dos grandes legados da Olimp\u00edada de 2016 para o Rio, <a href=\"http:\/\/www.apo.gov.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Plano_Politicas_Publicas_Municipio.pdf\">de acordo com&nbsp;a prefeitura<\/a>. \u201cEles falaram que ia fazer reforma do cais do porto e ia passar aquele bonde, e n\u00e3o podia ter moradia ali\u201d, lembra. O casar\u00e3o, abandonado, havia sido ocupado por moradores da regi\u00e3o: ambulantes, catadores, trabalhadores com parcos sal\u00e1rios como ele.&nbsp;Foi ali que Jailson conheceu sua mulher. Em junho de 2009, foram removidos em apenas dez dias. A promessa era que \u201celes [a prefeitura] iam dar essa casa no Minha Casa Minha Vida pra cada um morar, sendo que n\u00e3o deu nada, cancelou, depois disso n\u00e3o deu nada pra ningu\u00e9m\u201d. H\u00e1 tr\u00eas anos, a fam\u00edlia mora no corti\u00e7o da rua Camerino. \u201cEu n\u00e3o posso falar pra senhora que eu sou feliz, que eu n\u00e3o vejo meus filhos muito felizes, n\u00e3o tem espa\u00e7o, n\u00e3o tem nada. Tenho que ficar chamando a aten\u00e7\u00e3o. Se tivesse uma casa grande, eles iam ficar brincando e eu n\u00e3o ia ficar brigando tanto com eles, n\u00e9?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSinto saudade do casar\u00e3o mesmo, de morar l\u00e1, era bom. Era tranquilidade\u201d, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s das saudades de Jailson e de milhares de fam\u00edlias removidas para dar lugar ao espet\u00e1culo dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016, h\u00e1 diversas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que permearam todo o processo, intrinsecamente ligado tamb\u00e9m \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do Rio como sede da&nbsp;Copa do Mundo de 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias entrevistadas pela P\u00fablica para o projeto 100 relataram viol\u00eancias psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas. Dezoito dentre as 100&nbsp;fam\u00edlias ouvidas disseram ter sido diretamente amea\u00e7adas para deixar suas casas. \u201cFalaram que iam botar a pol\u00edcia em cima da gente, que iam derrubar a casa com a gente dentro\u201d, relembra <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/eunice-dos-santos-2\/\">Eunice dos Santos<\/a>, ex-moradora da Estrada da Boi\u00fana, hoje no residencial Col\u00f4nia Juliano Moreira, do programa Minha Casa Minha Vida, na zona oeste. <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/marcia-da-silva-2\/\">M\u00e1rcia da Silva<\/a> relembra o trauma da filha, com ent\u00e3o 3 anos, ao ver a antiga casa sendo demolida. A menina come\u00e7ou a ter pesadelos recorrentes. \u201cO pediatra disse que talvez fosse precisar de tratamento psiqui\u00e1trico\u201d, conta M\u00e1rcia.&nbsp;Outras press\u00f5es foram mais veladas, por\u00e9m cont\u00ednuas. &#8220;As amea\u00e7as eram mais psicol\u00f3gicas. Diziam:&nbsp;&#8216;ah, mas voc\u00ea v\u00ea bem, que t\u00e1 todo mundo saindo em volta, voc\u00ea tem que pensar na fam\u00edlia, porque sua fam\u00edlia pode sofrer depois as consequ\u00eancias&#8221;, relata <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/jose-ronilson-da-silva-2\/\">Jos\u00e9 Ronilson da Silva<\/a>, residente na Vila Aut\u00f3dromo.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 3 de junho de 2015, a Guarda Municipal agrediu moradores deste&nbsp;vilarejo, onde moravam cerca de 500 fam\u00edlias \u00e0 beira da lagoa de Jacarepagu\u00e1 e onde hoje est\u00e1 fincado o Parque Ol\u00edmpico, durante uma tentativa de demoli\u00e7\u00e3o. Imagens dos vizinhos de Ronilson com as cabe\u00e7as ensanguentadas e marcas de bala de borracha nos bra\u00e7os <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LVgg5f4nhFg\">circularam pelas redes<\/a>. A persist\u00eancia dos moradores em ficar no local resultou em uma pequena, mas simb\u00f3lica vit\u00f3ria: 30 casas foram constru\u00eddas para aqueles que ficaram na Vila Aut\u00f3dromo. Al\u00e9m das moradias, duas escolas e \u00e1reas de lazer comp\u00f5em o plano de urbaniza\u00e7\u00e3o da comunidade, anunciado pela prefeitura em mar\u00e7o de 2016, quando a maior parte das fam\u00edlias j\u00e1 havia deixado o local.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o h\u00e1 dados<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/p1011545-final-1024x768-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5001\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/p1011545-final-1024x768-1.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/p1011545-final-1024x768-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/p1011545-final-1024x768-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante a gest\u00e3o do prefeito Eduardo Paes, do PMDB, o Rio de Janeiro viu um ciclo de remo\u00e7\u00f5es massivas sem precedentes na hist\u00f3ria. Sua real dimens\u00e3o ainda \u00e9 desconhecida. Apenas em julho de 2015, a prefeitura disponibilizou <a href=\"https:\/\/medium.com\/explicando-a-pol%C3%ADtica-de-habita%C3%A7%C3%A3o-da-prefeitura\">em um blog<\/a> dados gerais: entre 2009 e 2015, foram reassentadas 22.059 fam\u00edlias no Rio. A Prefeitura sustenta que 72,2% do total, ou 15.937 fam\u00edlias, foram removidas por estarem sob risco de desabamentos, alagamentos, ou por estarem morando em condi\u00e7\u00f5es insalubres. A gest\u00e3o municipal reconhece apenas como demoli\u00e7\u00f5es ligadas aos megaeventos aquelas realizadas na Vila Aut\u00f3dromo. \u201cNenhum outro processo de reassentamento em curso hoje na cidade tem v\u00ednculo com as instala\u00e7\u00f5es esportivas criadas para os Jogos\u201d, diz o texto da prefeitura.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o que se verifica nas entrevistas com as v\u00edtimas. A grande maioria dos removidos foi avisada do despejo por empregados da prefeitura, que disseram claramente se tratar de obras relativas aos Jogos Ol\u00edmpicos. Em alguns casos, como no galp\u00e3o abandonado que ficava na rua Ipadu, 700, em Curicica \u2013 removido para dar lugar ao BRT Transol\u00edmpica, o dossi\u00ea, documento inicial do processo de remo\u00e7\u00e3o, trazia o logo dos Jogos Ol\u00edmpicos. Josu\u00e9 Lima, ex-morador da favela Metr\u00f4 Mangueira, resume: \u201cN\u00e3o gosto de lembrar, n\u00e3o. A gente construiu a nossa vida l\u00e1. E ver ser destru\u00edda por causa de Olimp\u00edada n\u00e3o \u00e9 legal. Se fosse por causa de uma guerra, por causa de uma bomba, a gente aceitaria, mas por causa de Ol\u00edmpiada&#8230;?\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"216\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/remoc3a7c3b5es-das-olimpc3adadas1-300x216-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5002\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A prefeitura jamais publicou os dados oficiais detalhados sobre as remo\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas. N\u00e3o se sabe, por exemplo, quantas pessoas foram removidas das comunidades que estavam na rota de algumas obras-chave para os Jogos. De acordo com dados do relat\u00f3rio \u201cOlimp\u00edada Rio 2016, os jogos da exclus\u00e3o\u201d, publicado em novembro de 2015 pelo Comit\u00ea Popular da Copa e Olimp\u00edada do Rio de Janeiro, se contarmos\u00a0apenas tr\u00eas grandes investimentos<a href=\"http:\/\/www.apo.gov.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Plano_Politicas_Publicas_Municipio.pdf\"> listados como Legado dos Jogos Ol\u00edmpicos<\/a>, mais as obras para a reforma do est\u00e1dio do Maracan\u00e3, que vai abrigar a abertura e encerramento do evento, foram 2.548 fam\u00edlias expulsas. Esse levantamento contempla as comunidades da regi\u00e3o do Recreio, por onde passou o BRT (<em>bus rapid tranport<\/em>) Transoeste, o bairro de Curicica, cortado pelo BRT Transol\u00edmpica, o morro da Provid\u00eancia, na \u00e1rea do Portro Maravilha, onde houve remo\u00e7\u00f5es por causa da instala\u00e7\u00e3o de um telef\u00e9rico, al\u00e9m de outras ocupa\u00e7\u00f5es naquele mesmo per\u00edmetro, como a do casar\u00e3o azul de Jailson.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a prefeitura, no mesmo blog, apenas 2.125 fam\u00edlias foram reassentadas por causa de obras de mobilidade e infraestrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>A P\u00fablica fez dois pedidos pela Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-130657123-hdr-2-1024x575-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5003\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-130657123-hdr-2-1024x575-1.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-130657123-hdr-2-1024x575-1-300x168.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-130657123-hdr-2-1024x575-1-768x431.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 arma<\/h2>\n\n\n\n<p>A falta de informa\u00e7\u00e3o sobre os despejos foi uma constante no processo das expuls\u00f5es ol\u00edmpicas e levou a organiza\u00e7\u00e3o Artigo 19, que defende o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, a apontar para \u201cum quadro cr\u00edtico de falta de transpar\u00eancia e de restri\u00e7\u00e3o a informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre importantes obras de infraestrutura que est\u00e3o modificando o espa\u00e7o urbano da cidade do Rio de Janeiro e a vida de seus moradores, sob a justificativa da prepara\u00e7\u00e3o para um megaevento esportivo\u201d. Em um relat\u00f3rio sobre o BRT Transol\u00edmpica \u2013 primeira grande obra relativa aos Jogos 2016, que come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 2012\u2013 , a ONG afirma que houve uma \u201cgeneralizada falta de informa\u00e7\u00f5es\u201d para os moradores das comunidades da regi\u00e3o. N\u00e3o havia um site espec\u00edfico para pedidos de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, e todos tinham de ser feitos pessoalmente, em papel, na prefeitura. De 39 pedidos feitos a quatro secretarias municipais e ao gabinete do prefeito, apenas um foi integralmente respondido. O relat\u00f3rio conclui que, ap\u00f3s meses fazendo pedidos de informa\u00e7\u00e3o, era imposs\u00edvel saber qual seria o tra\u00e7ado final do BRT, embora centenas de fam\u00edlias j\u00e1 tivessem sido expulsas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa verdade, a gente ficamos sabendo atrav\u00e9s de boatos na internet que ia haver uma desapropria\u00e7\u00e3o, que ia passar uma linha e a gente ia sair\u201d, lembra <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/ozineide-da-silva-2\/\">Ozineide Pereira da Silva<\/a>, que morou 20 dos seus 30 anos em um enorme galp\u00e3o ocupado na Ipadu, n\u00famero 700, em Curicica. \u201cAt\u00e9 que um dia a prefeitura teve l\u00e1 fazendo cadastro, tirando foto da nossa casa, e falou que a gente ia sair e que ia indenizar a gente.\u201d Entre o primeiro susto e a desapropria\u00e7\u00e3o efetiva, passaram-se mais de dois anos, sem nenhuma informa\u00e7\u00e3o precisa: \u201cEu fiquei sabendo que ali ia sair mesmo em 2013. Em 2014, pelo m\u00eas de julho, que elas come\u00e7aram ir na nossa casa. A\u00ed, em agosto, comecou todo o processo de documento, e a gente recebeu em 2015\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora Mariana Cavalcanti, que acompanhou de perto o processo das remo\u00e7\u00f5es em Curicica, \u201ca falta de informa\u00e7\u00e3o foi uma estrat\u00e9gia deliberada da prefeitura\u201d, diz. Ela conta que os moradores da Vila Uni\u00e3o de Curicica, pr\u00f3xima \u00e0 comunidade de Ozineide, ficaram sabendo da amea\u00e7a do BRT quando um v\u00eddeo propagand\u00edstico da prefeitura foi postado na internet, mostrando o tra\u00e7ado original planejado, em meio a promessas de valoriza\u00e7\u00e3o e benef\u00edcios para a popula\u00e7\u00e3o. \u201cAs pessoas viram que o BRT ia simplesmente passar pelo meio da comunidade.\u201d \u201c\u00c9 como se voc\u00ea fizesse uma brincadeira, cortasse a cidade como se fosse Deus\u201d, completa o soci\u00f3logo Paulo Magalh\u00e3es, que na \u00e9poca era consultor da vice-presid\u00eancia da Caixa Econ\u00f4mica Federal e acompanhou de perto as negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis acompanha ainda hoje os moradores removidos da Vila Uni\u00e3o e do Ipadu, mesmo depois de terem ido morar no condom\u00ednio Col\u00f4nia Juliano Moreira atrav\u00e9s do programa Minha Casa, Minha Vida. Durante a entrevista \u00e0 P\u00fablica, Ozineide mostra o \u00fanico papel que recebeu \u2013 um \u201cdossi\u00ea\u201d, sem nenhum valor legal. At\u00e9 hoje, nem ela nem seus vizinhos receberam o contrato que atesta serem os ocupantes legais do im\u00f3vel. \u201cEu tenho medo. Porque aqui a gente n\u00e3o paga, porque foi uma troca de chave. Mas e depois o governo muda, depois vai saber. A gente assinou, mas eles n\u00e3o deram nenhum contrato pra gente. N\u00e3o tenho nada que diga que isso aqui \u00e9 meu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave porque, como constatou <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2016\/06\/apos-remocoes-para-transolimpica-prefeitura-do-rio-descumpre-acordo-e-deixa-moradores-endividados\/\">a reportagem da P\u00fablica<\/a>, muitos moradores do Col\u00f4nia come\u00e7aram a receber cobran\u00e7as do Banco do Brasil no valor de R$ 75 mil \u2013 como se efetivamente tivessem devendo um dinheiro que jamais ter\u00e3o. O valor deveria estar sendo pago pela prefeitura, \u00e0 qual o Banco do Brasil atribui o problema. Resultado: muitos moradores est\u00e3o com o nome sujo no SPC, o Sistema de Prote\u00e7\u00e3o ao Cr\u00e9dito .<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos t\u00eam medo de falar, n\u00e3o querem aparecer em fotos ou v\u00eddeos. Ou porque j\u00e1 foram amea\u00e7ados ou porque podem vir a ser. A pr\u00f3pria reportagem da P\u00fablica, durante a apura\u00e7\u00e3o deste especial, recebeu um \u201crecado\u201d. Uma moradora de um dos condom\u00ednios disse que ligou para ela a sobrinha de Marli Ferreira Lima Pe\u00e7anha, que era assessora do gabinete do prefeito em 2015 e hoje \u00e9 coordenadora de Articula\u00e7\u00e3o Social da Secretaria de Habita\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela quem lida pessoalmente com diversos casos de remo\u00e7\u00f5es. Seu nome \u00e9 citado recorrentemente por moradores, que contam terem recebido dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos promessas que n\u00e3o se cumpriram . \u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 autorizada a fazer entrevista aqui\u201d, nos falou a mandante do recado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-112106502-2-1024x576-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5004\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-112106502-2-1024x576-1.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-112106502-2-1024x576-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/img-20160531-112106502-2-1024x576-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Amea\u00e7a constante<\/h2>\n\n\n\n<p>A amea\u00e7a reiterada de remo\u00e7\u00e3o, ao longo de d\u00e9cadas, foi mencionada por entrevistados de todas as comunidades. N\u00e3o \u00e0 toa, todas elas estavam n\u00e3o s\u00f3 no caminho dos BRTs e obras para os Jogos, mas em \u00e1reas de grande valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. O pesquisador Lucas Faulhaber relata no seu livro <em>SMH 2016 \u2013 Remo\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro, <\/em>uma&nbsp;co-autoria com a jornalista Lena Azevedo, que em 2014 o Rio possu\u00eda o metro quadrado mais caro do pa\u00eds, uma m\u00e9dia de R$ 10.250, ap\u00f3s um aumento dos pre\u00e7os residenciais em 700% em 2010, segundo levantamento da Secov-Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm 2006, o C\u00e9sar Maia, com o pretexto de que n\u00e3o poderia ter com\u00e9rcio nas comunidades, veio e derrubou a casa das pessoas. Quando foi final de 2008 pra 2009, a Subprefeitura da Barra come\u00e7ou de novo a vir aqui falar besteirinha. Primeiro mandou um monte de&#8230; diz que era assistente social, pegaram todos os dados da comunidade e entregaram tudo pra subprefeitura. Ent\u00e3o, quando a subprefeitura chegou em cima da gente [em 2012], sabia da nossa vida mais do que a gente\u201d, diz o capixaba <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/jorge-santos-2\/\">Jorge Santos<\/a>, ex-morador da Vila Recreio II.<\/p>\n\n\n\n<p>O fundador da Vila Aut\u00f3dromo, o pescador <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/steliano-francisco-dos-santos-2\/\">Steliano Francisco dos Santos<\/a>, relatou ter recebido as primeiras amea\u00e7as de despejo apenas seis meses depois de ter montado o primeiro barraco da comunidade.\u201cA\u00ed parava, passava seis meses, vai, sai hoje, sai amanh\u00e3\u2026 e nunca sai. E eu ficando. Nisso foram 36 anos\u201d, lembrou, em entrevista feita no come\u00e7o de 2014. Ele faleceu pouco depois de ter sua casa demolida.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante das renitentes amea\u00e7as, quando a hora \u201cdo bicho pegar\u201d \u2013 nas palavras de seu Steliano \u2013, muitas fam\u00edlias aceitaram a \u00fanica proposta feita pela prefeitura. Jorge Lima, n\u00e3o. Ele ajudou a organizar a mobiliza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias da favela Metr\u00f4 Mangueira, que conseguiu uma das maiores conquistas: dois condom\u00ednios populares a apenas algumas ruas de dist\u00e2ncia. E se lembra da \u201cfrase sempre usada\u201d pelos funcion\u00e1rios da prefeitura, nas primeiras visitas. \u201cAquela frase que eles repetiam: \u201cou Cosmo ou rua\u201d. \u201cCosmo\u201d significava serem transferidos para um dos condom\u00ednios do Minha Casa Minha Vida no bairro de Cosmos, na zona oeste, a 60 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os que se dizem mais contentes s\u00e3o justamente aqueles que sa\u00edram de uma situa\u00e7\u00e3o de moradia degradante para os apartamentos do Minha Casa Minha Vida em regi\u00f5es pr\u00f3ximas de onde moravam, como no morro da Provid\u00eancia e no metr\u00f4 Mangueira. &#8220;A gente bateu o p\u00e9 que n\u00e3o ia sair dali e a\u00ed teve o assunto de que iam liberar esse aqui pra gente, a\u00ed falei: &#8216;Maravilhoso&#8217;\u201d, diz o ex-morador do Mangueira, <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/jose-miranda-2\/\">Jos\u00e9 Miranda<\/a>. \u201cEm mat\u00e9ria de moradia, est\u00e1 muito melhor; em mat\u00e9ria de conforto, est\u00e1 muito melhor.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi o caso da maioria dos entrevistados. Nossa reportagem ouviu, por exemplo, fam\u00edlias removidas do bairro do Recreio transferidas para Campo Grande, a 28 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, e fam\u00edlias removidas do centro da cidade para o bairro de Senador Camar\u00e1, a cerca de 40 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Os ex-moradores da ocupa\u00e7\u00e3o Machado de Assis, no local do Porto Maravilha, quando moravam no centro, estavam do lado de seus trabalhos. Agora, t\u00eam de acordar \u00e0s 4 da manh\u00e3 para ir para o mesmo lugar, se \u00e9 que n\u00e3o perderam o emprego. \u201cO ambiente, pra mim, \u00e9 normal. T\u00f4 superbem. Mas que eu preferia estar l\u00e1 no centro, eu preferia. L\u00e1, em qualquer lugarzinho, eu colocava um isopor com cerveja, com biscoito, qualquer esquinazinha ali eu j\u00e1 tinha um trabalho. Pra ajudar na renda dentro de casa\u201d, diz Simone da Concei\u00e7\u00e3o, que hoje mora no Minha Casa Minha Vida em Senador Camar\u00e1. \u201cS\u00f3 me arrependo em mat\u00e9ria de trabalho. L\u00e1 eu j\u00e1 tinha uma ocupa\u00e7\u00e3o certa pra mim, sendo mulher com 40 anos de idade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f4nia Braga, ex-moradora da comunidade Vila Harmonia, no Recreio, e hoje tamb\u00e9m em Senador Camar\u00e1, disse que as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram adequadas quando as fam\u00edlias foram reassentadas \u2013 e tiveram um alto custo pessoal. \u201cAqui n\u00e3o tinha \u00f4nibus, n\u00e3o tinha van, n\u00e3o tinha nada. Eu n\u00e3o ia botar meu filho pra sair de madrugada num lugar deserto. A prefeitura falou que ia colocar \u00f4nibus e n\u00e3o colocou. Meu filho ficou quase dois anos sem estudar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A seguran\u00e7a do bairro onde todos se conheciam h\u00e1 10, 20, 30 anos desapareceu. O p\u00e9 no ch\u00e3o de terra do quintal tamb\u00e9m. As \u00e1rvores que faziam sombra, os bichos, os quintais, como o de <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/jane-nascimento-2\/\">Jane Nascimento<\/a>, que davam espa\u00e7o para seu trabalho. \u201cO espa\u00e7o fora da sala, quarto, cozinha n\u00e3o \u00e9 mais meu. Eu n\u00e3o posso receber um caminh\u00e3o pra me entregar um material para fazer uma placa\u201d, explica a artes\u00e3 e ex-moradora da Vila Aut\u00f3dromo. \u201c&#8217;Dessocializou\u2019 minha vida toda, acabou com tudo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/vaniperes5-2-1024x576-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5005\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/vaniperes5-2-1024x576-1.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/vaniperes5-2-1024x576-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/vaniperes5-2-1024x576-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Vila Aut\u00f3dromo<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante a pesquisa que originou seu livro, o arquiteto e urbanista Lucas Faulhauber conseguiu identificar diversas estrat\u00e9gias adotadas pela prefeitura e outros \u00f3rg\u00e3os para a remo\u00e7\u00e3o de uma comunidade. Entre elas, a visita de agentes p\u00fablicos disfar\u00e7ados, sob pretextos inventados, para medir e fotografar as casas e entrevistar as pessoas; a repress\u00e3o da guarda municipal contra moradores; as demoli\u00e7\u00f5es de casas j\u00e1 negociadas, deixando a comunidade em frangalhos e cheia de entulhos, lixo, baratas e ratos; e as negocia\u00e7\u00f5es individualizadas, que minaram a for\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o coletiva para garantir um melhor \u201cneg\u00f3cio\u201d para a prefeitura. Dessa maneira, os que j\u00e1 haviam aceitado os termos da administra\u00e7\u00e3o passavam a pressionar tamb\u00e9m vizinhos e familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas uma comunidade passou por absolutamente todas essas etapas, a mais emblem\u00e1tica das remo\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas: a Vila Aut\u00f3dromo. Os entrevistados pela P\u00fablica relataram situa\u00e7\u00f5es de intrigas plantadas pelos funcion\u00e1rios da prefeitura, como <a href=\"https:\/\/apublica.org\/100\/heloisa-helena-costa-berto-2\/\">Helo\u00edsa Helena Costa Berto<\/a>, que diz ter sido acusada de ter embolsado a indeniza\u00e7\u00e3o de outra pessoa. Ela mostrou \u00e0&nbsp;<strong>P\u00fablica<\/strong> uma mensagem de <em>WhatsApp<\/em> de um membro da administra\u00e7\u00e3o municipal que fazia uma amea\u00e7a velada. De maneira semelhante, um parente de uma lideran\u00e7a da Vila Aut\u00f3dromo contou \u00e0 reportagem que estava disposto a process\u00e1-la porque teria \u201cperdido\u201d uma indeniza\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria: ela, que o abrigava, negou-se a sair da casa e abriu m\u00e3o de qualquer indeniza\u00e7\u00e3o para permanecer na Vila.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que os moradores da Vila Aut\u00f3dromo receberam compensa\u00e7\u00f5es muito maiores do que os de outras comunidades. Em especial, aqueles que resistiram por mais tempo. Colaboraram para isso a uni\u00e3o dos moradores, que, sobre escombros continuavam fazendo festejos juninos na terra enlameada, o apoio de estudantes, midialivristas e pesquisadores \u00e0 sua causa, e o fato de ser a \u00fanica comunidade que afetava diretamente os planos da gest\u00e3o de Eduardo Paes e das construtoras para os Jogos Ol\u00edmpicos e os condom\u00ednios de luxo \u00e0 beira da Lagoa, que vir\u00e3o&nbsp;depois. Mesmo essas compensa\u00e7\u00f5es, mais adequadas ao valor do terreno valorizado pelos empreendimentos, foram absolutamente desiguais e marcadas por viol\u00eancia psicol\u00f3gica. Houve pessoas que receberam indeniza\u00e7\u00f5es de R$ 700 mil; outras, propostas de at\u00e9 R$ 2,5 milh\u00f5es. Outras, ainda, receberam sete apartamentos no Minha Casa Minha Vida. Os nomes n\u00e3o ser\u00e3o publicados a pedido delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse quadro de coer\u00e7\u00e3o, negocia\u00e7\u00f5es individualizadas e falta de transpar\u00eancia, \u00e9 not\u00e1vel a postura da <a href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/diarios\/88096375\/dom-rj-normal-18-03-2015-pg-58\">assessora do prefeito<\/a> Marli Ferreira Lima Pe\u00e7anha, filmada pela <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2016\/02\/uma-demolicao-dentro-do-parque-olimpico\/\">reportagem da P\u00fablica em 25 de fevereiro deste ano<\/a>. Diante da demoli\u00e7\u00e3o da casa de dona Helo\u00edsa, onde funcionava tamb\u00e9m seu terreiro de candombl\u00e9, Marli bradava para quem quisesse ouvir: \u201cEu sinto o cheiro desse povo de longe. N\u00e3o dou papo. Aqui \u00e9 tudo farinha do mesmo saco. Eles n\u00e3o moram aqui e vivem disso\u201d. N\u00e3o \u00e9 o tratamento profissional que se espera de um agente p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionada via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o sobre a origem dos recursos usados para indeniza\u00e7\u00f5es na Vila Aut\u00f3dromo, a prefeitura n\u00e3o respondeu at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"436\" src=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/jane-3-2-1024x436-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5006\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/jane-3-2-1024x436-1.jpg 1024w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/jane-3-2-1024x436-1-300x128.jpg 300w, https:\/\/apublica.org\/100\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/jane-3-2-1024x436-1-768x327.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O maior legado das remo\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas: uma multid\u00e3o nas m\u00e3os das mil\u00edcias<\/h2>\n\n\n\n<p>O jornalista desavisado que tentar entrar em alguns dos condom\u00ednios do Minha Casa Minha Vida da zona oeste vai rapidamente se deparar com tr\u00eas coisas. A primeira \u00e9 que todos s\u00e3o cercados, com port\u00f5es que controlam a sa\u00edda e a entrada dos moradores. N\u00e3o h\u00e1 porteiros. A segunda \u00e9 que h\u00e1 sempre alguns jovens fortes encostados nos pr\u00e9dios ou em carros, observando o movimento. E a terceira \u00e9 que os moradores t\u00eam muito medo de dar entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem da P\u00fablica conheceu a realidade do medo impingido pela mil\u00edcia quando esteve por duas vezes no Condom\u00ednio Col\u00f4nia Juliano Moreira, em Jacarepagu\u00e1. Na primeira vez, um rapaz alto, de blusa regata, nos chamou para explicarmos o que faz\u00edamos ali. N\u00e3o se apresentou, mas assentiu. Os moradores falaram da mil\u00edcia de maneira velada, reclamando que \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais tanta liberdade\u201d, \u201cas crian\u00e7as n\u00e3o podem ficar na rua depois das 22 horas\u201d ou \u201ctem gente demais querendo mandar aqui\u201d. Numa segunda visita, a vigil\u00e2ncia foi mais ostensiva: enquanto nossa rep\u00f3rter conversava com um morador no primeiro andar, dois jovens vigiavam do andar t\u00e9rreo, deixando o homem e sua esposa profundamente consternados. \u201cN\u00e3o \u00e9 o miliciano, \u00e9 o filho do miliciano\u201d, ele disse. Assustados, n\u00e3o quiseram dar entrevista nem contar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O medo do poder da mil\u00edcia ecoa outro medo, sempe constante nas favelas cariocas, o medo do tr\u00e1fico. Nas palavras da pesquisadora Mariana Cavalcanti, \u201ccomunidade pobre no Rio sempre tem dono\u201d, e o controle de pr\u00e9dios inteiros do Minha Casa Minha Vida por mil\u00edcias formadas por ex-policiais e bombeiros \u00e9 o rev\u00e9s dessa realidade. Segundo os relatos ouvidos, os milicianos imp\u00f5em a ordem, cobram taxas de g\u00e1s, luz, TV a cabo, d\u00e3o toques de recolher, espancam e expulsam moradores que se insurgem contra eles. Assim garantem, na pr\u00f3pria vis\u00e3o, a \u201cordem\u201d e a \u201cseguran\u00e7a\u201d, deixando o tr\u00e1fico longe dali.<\/p>\n\n\n\n<p>Na origem das atuais mil\u00edcias que controlam a zona oeste da cidade est\u00e1 a pol\u00edcia mineira, que se enraizou na zona oeste&nbsp;a pretexto de combater a criminalidade nos anos 2000. Em setembro de 2008, quando era candidato a governador do estado, o prefeito Eduardo Paes explicou ao jornal RJTV, da Rede Globo, a efic\u00e1cia desse tipo de mil\u00edcia: \u201cVoc\u00ea tem \u00e1reas em que o Estado perdeu a soberania por completo. A gente precisa recuperar essa soberania. Eu vou dar um exemplo, pois as pessoas sempre perguntam como recuperar essa soberania. Jacarepagu\u00e1 \u00e9 um bairro que a tal da pol\u00edcia mineira, formada por policiais e bombeiros, trouxe tranquilidade para a popula\u00e7\u00e3o. O morro S\u00e3o Jos\u00e9 Oper\u00e1rio era um dos mais violentos desse estado e agora \u00e9 um dos mais tranquilos. O morro do Sap\u00ea, ali em Curicica. Ou seja, com a\u00e7\u00e3o, com intelig\u00eancia, voc\u00ea tem como fazer com que o Estado retome a soberania nessas \u00e1reas\u201d, disse. Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, Paes negou diversas vezes defender a a\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>O peemedebista iniciou sua carreira pol\u00edtica naquela mesma regi\u00e3o em 1993, como subprefeito da Barra e de Jacarepagu\u00e1 aos 23 anos. \u00c9 ainda ali onde mant\u00e9m seu maior apoio eleitoral \u2013 quando foi reeleito em 2002, 822 mil entre os cerca de 2 mih\u00f5es de votos obtidos vieram da zona oeste. Uma das \u00e1reas em que ele teve maior percentual de vota\u00e7\u00e3o foi Santa Cruz, onde atualmente foram implantados diversos condom\u00ednios do Minha Casa Minha. Obteve quase 77% dos votos v\u00e1lidos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a presen\u00e7a de mil\u00edcias \u00e9 bem mais marcante na zona oeste do Rio. Se a maioria dos novos empreendimentos do Minha Casa Minha Vida est\u00e1 nessa regi\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 surpresa que a grande maioria desses pr\u00e9dios esteja submetida a elas. Segundo dados da Prefeitura, de um total de 16.309 mil pessoas removidas atrav\u00e9s do programa, metade foi para a zona oeste e a outra metade foi dividida em condom\u00ednios no centro, zona norte e Jacarepagu\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;gabinete do prefeito informou ainda o n\u00famero&nbsp;de fam\u00edlias assentadas em alguns empreendimentos vistados para o projeto 100. Tr\u00eas dos&nbsp;mais populosos conjuntos de condom\u00ednios \u2013 os de Campo Grande, Senador Camar\u00e1 e Cosmos, que receberam juntos 5,121 fam\u00edlias reassentadas \u2013 est\u00e3o no extremo da zona oeste da cidade. Esses condom\u00ednios foram habitados por pessoas que j\u00e1 passaram por todos os processos descritos nessa reportagem. H\u00e1 relatos em ambos de presen\u00e7a de mil\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mapa produzido pela P\u00fablica, com a origem e o destino das remo\u00e7\u00f5es de comunidades ligadas \u00e0 Olimp\u00edada, percebe-se o massivo deslocamento que ocorreu para a zona oeste. A P\u00fablica utilizou como base as localiza\u00e7\u00f5es dos condom\u00ednios do Minha Casa, Minha Vida constru\u00eddos at\u00e9 o primeiro semestre de 2015, apuradas pelos jornalistas Lu\u00e3 Marinatto e Rafael Soares, do Jornal Extra, e informa\u00e7\u00f5es reunidas no dossi\u00ea do Comit\u00ea Popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Num not\u00e1vel esfor\u00e7o de reportagem durante o primeiro semestre de 2015, os jornalistas do Jornal Extra&nbsp;<a href=\"http:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/todos-os-condominios-do-minha-casa-minha-vida-no-rio-sao-alvos-do-crime-organizado-15663214.html\">constataram<\/a> que, at\u00e9 ent\u00e3o, todos os 64 condom\u00ednios do Minha Casa Minha Vida que j\u00e1 haviam sido inaugurados no Rio destinados aos benefici\u00e1rios mais pobres eram alvos de grupos criminosos. Mais da metade \u2013 38 conjuntos habitacionais na zona oeste \u2013 era, na data da apura\u00e7\u00e3o, controlada por mil\u00edcias. Entre eles os condom\u00ednios Livorno, Trento e Varese, em Cosmos, e Treviso, Terni e Ferrara, em Campo Grande, que receberam removidos da Olimp\u00edada. Em Cosmos, <a href=\"http:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/na-zona-oeste-milicia-domina-38-conjuntos-do-minha-casa-minha-vida-ate-pinta-seu-simbolo-nos-condominios-15701296.html\">os rep\u00f3rteres flagraram<\/a> edif\u00edcios que tinham o s\u00edmbolo de um famoso miliciano, o ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman \u2013 um morcego negro, sobre a frase: \u201cbem-vindos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;aus\u00eancia de garantias b\u00e1sicas aos moradores removidos \u2013 como informa\u00e7\u00f5es sobre as contas, o condom\u00ednio, prazo para o im\u00f3vel passar ao seu nome e contrato de entrega de chave \u2013 ajuda a deix\u00e1-los vulner\u00e1veis \u00e0s exig\u00eancias da mil\u00edcia. \u201cA subprefeitura local tem um poder enorme\u201d, explica o soci\u00f3logo Paulo Magalh\u00e3es, que observou a din\u00e2mica da regi\u00e3o ap\u00f3s ser contratado pela Invepar para fazer um plano de investimento social privado em virtude da constru\u00e7\u00e3o da Transol\u00edmpica. \u201cE faz a pol\u00edtica articulada com dois mercados grandes \u2013 o mercado de seguran\u00e7a e o mercado imobili\u00e1rio formal\u201d. Ambos os interesses, diz Paulo, s\u00e3o concatenados. \u201cO marketing da milicia \u00e9 vender um terreno onde voc\u00ea&nbsp;n\u00e3o tem problemas de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a nova face de um expediente t\u00e3o antigo que permeou todas as fases da hist\u00f3ria do Rio de Janeiro. As remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas j\u00e1 aconteciam em 1808, quando o rei de Portugal dom Jo\u00e3o VI se mudou para Brasil e usurpou casas dos moradores do centro da cidade para instalar sua luxuosa corte. As casas eram marcadas com a sigla \u201cPR\u201d, de \u201cPr\u00edncipe Regente\u201d, uma viol\u00eancia simb\u00f3lica, mas real, reeditada durante as remo\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas: at\u00e9 2013, todas as casas a serem demolidas eram marcadas com a sigla SMH \u2013 Secretaria Municipal de Habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA hist\u00f3ria do Rio de Janeiro \u00e9 calcada em cima de constru\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o daqueles que constru\u00edram\u201d, reflete Sandra Maria, uma das moradoras da Vila Aut\u00f3dromo que contou sua hist\u00f3ria para este especial. \u201cOs ex-escravos constru\u00edram o centro do Rio de Janeiro e depois foram expulsos dele. A\u00ed constr\u00f3i o morro de Santo Ant\u00f4nio e depois \u00e9 expulso dele. A zona sul foi contru\u00edda pelo trabalhador expulso do centro. O pobre, no Rio de Janeiro, n\u00e3o tem direito a morar pr\u00f3ximo das \u00e1reas privilegiadas. N\u00e3o pode morar perto da praia, n\u00e3o pode morar perto da cacheoira, n\u00e3o pode morar perto da floresta. Chega uma hora que voc\u00ea questiona: qual \u00e9 o valor da hist\u00f3ria de um povo?\u201d Foi essa percep\u00e7\u00e3o, conta ela, que a fez decidir juntar-se \u00e0 briga dos demais moradores, e permanecer at\u00e9 ter sua casinha na pequena vila que hoje ladeia o Parque Ol\u00edmpico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAlgu\u00e9m precisa mudar a hist\u00f3ria desta cidade\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Fotos: AF Rodrigues, Jessica Mota, Natalia Viana<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Giulia Afiune, Jessica Mota e Natalia Viana | 20 de Julho de 2016 As expuls\u00f5es ol\u00edmpicas deixaram um legado dif\u00edcil de esconder: viol\u00eancias psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas, rela\u00e7\u00f5es sociais dilaceradas, moradores endividados e sujeitos ao controle das mil\u00edcias da zona oeste do Rio Atr\u00e1s da porta de metal da rua Camerino, no centro do Rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2858,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"coauthors":[13],"class_list":["post-2864","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":{"introduction":"","byline":""},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - 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