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Jarbas Vasconcelos ‘previu’ que Lula não terminaria segundo mandato

Em conversa com diplomatas dos EUA em setembro de 2006, ex-governador do Pernambuco afirmou que reeleição lulista seria uma “tragédia”

O segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva seria tão ruim que o ex-presidente poderia não terminá-lo, disse o ex-governador de Pernambuco (1999-2006) Jarbas Vasconcelos a diplomatas dos EUA que o visitaram em Recife em 5 de setembro de 2006, cerca de um mês antes do primeiro turno das eleições presidenciais que reelegeram Lula para mais quatro anos de governo. Para o atual senador pernambucano pelo PMDB, a reeleição do ex-presidente seria uma “tragédia”.

A conversa foi relatada em um telegrama da embaixada de Brasília dez dias depois. O documento, redigido pelo próprio embaixador estadunidense na época, Clifford Sobel, afirma que Vasconcelos “descreveu um cenário político desanimador”. Ele não especificou como o segundo mandato lulista terminaria de forma prematura, mas “pareceu sugerir que seria uma renúncia em virtude de uma implacável oposição”. Para o atual senador, Lula teria um páreo duro com o novo Congresso.

Segundo o telegrama, Jarbas Vasconcelos também fez comentários sobre o PMDB, corrupção no governo Lula e a disputa eleitoral para o Legislativo nacional. “Algumas das observações de Jarbas pareceu-nos razoáveis, exceto pela assombrosa e, mais que tudo, misteriosa, previsão de que Lula pode não terminar seu segundo mandato. Vindo de uma tão respeitada liderança política, a precisão de Jarbas é um alerta de que um impasse político pode revisitar o Brasil de uma forma ou de outra em uma segunda presidência de Lula”, diz o documento vazado, que destaca a surpresa com que as afirmações de Vasconcelos foram recebidas, uma vez que, quando governador, ele havia mantido boas relações com Lula.

Ainda de acordo com o telegrama, o ex-governador pernambucano “não tinha dúvida” de que o ex-presidente tinha conhecimento dos escândalos que ficaram conhecidos como “mensalão”, pois configuravam “nepotismo desenfreado”. Ele próprio teria ficado sabendo do que ocorria “a nível federal” em 2003, e posteriormente teria alertado seus comandados a não deixarem acontecer o mesmo em Pernambuco. Segundo Vasconcelos, a já provável vitória de Lula na época se explicava porque a maioria dos eleitores não se importava o suficiente com a corrupção para rejeitar o petista nas urnas, “apesar de ataques implacáveis da mídia contra ele”.

Segundo o telegrama, o atual senador valeu-se de tais ataques para comparar Lula com João Goulart, presidente deposto pelo golpe de 1964. Enquanto o primeiro teria sobrevivido a eles e estava liderando a corrida presidencial, Goulart teria sucumbido devido a dois editoriais do Estado de S. Paulo, embora tivesse, ao mesmo tempo, minado “dois pilares fundamentais para o apoio militar: disciplina e hierarquia”, o que teria sido decisivo para sua queda, de acordo com o político.

“Embora a maior parte do PMDB permaneça do lado de Lula, Jarbas não modera sua postura anti-Lula”, continuava o documento, ponderando que, segundo o próprio interlocutor pernambucano, ele nem sempre foi antilulista: em 2003, teria recomendado ao PMDB cooperar com o ex-presidente, mas o partido se recusou.

Jarbas teria afirmado que tal recusa foi uma “forte evidência” de que seu partido agia apenas em interesse próprio. O PMDB, de acordo com o político, era “podre” e um “saco de gatos ideológico”. “Mesmo assim, ele disse que não entrou em outro partido porque ele não tem um ‘perfil’ PSDB e não se sente próximo o suficiente de nenhum outro partido”, acrescentava o telegrama.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública. LEIA MAIS

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Comentários

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  • Bruno Scalet

    “o ex-governador pernambucano “não tinha dúvida” de que o ex-presidente tinha conhecimento dos escândalos.”

    Isso era óbvio, não havia como não saber. Confesso que já fui anti PT por muito tempo, temendo que a corrupção sindical fosse alastrada pelo país. O que realmente aconteceu. Agora já não sou contra nem a favor daquele partido, desse partido, do partido acolá. Acredito que uma “revolução” deva ser feita para limpar esse país, em termos de senado, câmaras, ministérios etc…

    O poder público, juntamente com o privado está totalmente corrompido, o povo brasileiro precisa deixar de ser conivente com tais atos e declarar um basta a essa mancha à nossa imagem.

    Mas com ás máscaras utilizadas pelo governo, as tais “bolsas tudo”, o povo é enganado e não se revolta contra corrupção e enganação, como descrito no artigo.

    Gostei muito do site, vou divulgar e participar mais…se possível, me encaminhem um e-mail. Gostaria de conversar com vocês!

    Um abraço!

    • Emilia Possidio

      Esse cidadão é uma vergonha para Pernambuco e para o Brasil. Duvido que se reeleja a alguma coisa no estado de Pernambuco. Lula foi o melhor presidente do Brasil e voltará depois dos 8 anos de Dilma

  • Sérgio Ruiz

    Estadão conseguiu ajudar no golpe contra Goulart, já com Lula…, a mídia e seu golpismo sujo.

  • é interessante o reconhecimento deste prócer oposicionista, Jarbas Vasconcellos, ao golpismo desenfreado da midia nativa.
    É descarado, nem eles mesmos negam.

  • João

    O Jarbas Vasconcelos vive semeando a desgraça, mostrando sua competência política e pessoal .

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