Agência de Jornalismo Investigativo

“Se nós pegarmos os trabalhadores que estão procurando emprego e que dentro de 30 dias não conseguirem achar emprego, eles saem das estatísticas de desempregados para desalentados. Hoje, nós temos 9,3 milhões de trabalhadores no seguro-desemprego. Ele é considerado empregado também nessa estatística. E os ‘nem-nem’, que nem estudam nem trabalham, são 10 milhões. Isso significa que hoje nós temos não 8,6 milhões de trabalhadores desempregados: nós temos 29,5 milhões de trabalhadores desempregados.” – Ataídes Oliveira (PSDB-TO), senador, na quarta-feira (30), no plenário

2 de outubro de 2015

blefe v3 roxoA crítica do senador à metodologia utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para determinar a população desocupada não é nova. Muito já se questionou o porquê de as pessoas que desistiram de procurar emprego não serem consideradas desocupadas – o que também vale para o cálculo do desemprego em outros países. A conta que o parlamentar tentou fazer, entretanto, está equivocada por diversas razões, sobretudo ao confundir os conceitos de pessoa inativa e desocupada.

A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua divulgada pelo IBGE é relativa ao período entre maio e julho de 2015. O levantamento estima em 92,2 milhões as pessoas ocupadas, ou 56,2% do total da população em idade de trabalhar (14 anos ou mais). Com uma regra de três, se chega a 164 milhões de pessoas que estão ou poderiam estar no mercado.

O IBGE considera em 8,6 milhões o número de desocupados (pessoas à procura de emprego) por excluir das contas os inativos, que não estão trabalhando nem buscando emprego – porque não precisam, não querem ou porque estudam, entre outros motivos. Somando os ocupados aos desocupados e subtraindo o resultado do total das pessoas em idade de trabalhar, chega-se a 63,2 milhões de inativos, que como o próprio nome diz, não integram a população economicamente ativa, embora pudessem fazê-lo. Talvez tenha sido esse o número ao qual o senador tentou chegar, sem sucesso.

Os 10 milhões de “nem-nem” (jovens que não estudam e nem trabalham) citados pelo senador podem se enquadrar entre os inativos, já que não buscam ocupação, e assim serem colocados entre os 63,2 milhões. O mesmo, entretanto, não pode ser dito dos beneficiários do seguro-desemprego. Afinal, eles podem estar procurando emprego – e com isso entrando no grupo dos desocupados – ou trabalhando informalmente – o que os torna ocupados –, impossibilitando colocá-los todos no grupo dos inativos.

É preciso cuidado para analisar as duas categorias de pessoas que não trabalham, como explica Carlos Alberto Ramos, professor de Economia da Universidade de Brasília. “O inativo exclui o desocupado. Este é somente quem está procurando trabalho e não encontra. Não podemos falar que um estudante é desempregado”. A metodologia do IBGE, segundo ele, acompanha parâmetros internacionais, sobretudo os da Organização Internacional do Trabalho.
Ramos alerta que embora a fórmula de cálculo dos desocupados seja válida, é preciso atenção para alguns grupos de trabalhadores inativos. Segundo o professor, é possível que o contexto desfavorável da economia tenha levado algumas pessoas a simplesmente desistirem de procurar emprego, o que não quer dizer que o desemprego tenha diminuído – já que elas passaram de desocupadas para inativas. Ele defende análises mais detalhadas por parte dos governos para identificar e entender melhor os grupos inativos, como os nem-nem citados pelo senador. “Estão fazendo o quê?”, questiona Ramos sobre os jovens fora do mercado e das salas de aula.

Mais recentes

Guilherme Boulos, em entrevista à EBC: dados atuais mostram que 40% dos presos no país são provisórios, não 30%

Boulos subestima o número de presos provisórios

24 de setembro de 2018 | por

Segundo Conselho Nacional de Justiça, 40% dos detentos são provisórios no Brasil – não 30%, como disse o candidato à Presidência pelo PSOL

Haddad em ato realizado em São Paulo em janeiro: dinheiro para educação cresceu menos do que o anunciado pelo político na sua gestão

Haddad exagera crescimento de verbas do Ministério da Educação

24 de setembro de 2018 | por

Candidato do PT diz que quintuplicou o Orçamento da pasta na sua gestão, mas aumento foi de três vezes

Marina Silva participa de evento da CNA, em agosto de 2018: não há estudos que confirmem dado citado pela candidata

Marina Silva usa dado inexistente sobre leitos ociosos no SUS

20 de setembro de 2018 | por

Candidata da REDE afirma que taxa de ociosidade no sistema é de 50%, mas ministério não possui estatística nacional

Truco!

#leitegate: Eduardo Leite rompeu contrato com Banrisul para obter verbas do PAC

25 de setembro de 2018

Enquanto prefeito de Pelotas, candidato ao Piratini pelo PSDB diz que fez acordo judicial com o banco estadual porque o município poderia ficar impedido de receber financiamento federal para obras de infraestrutura. Ofício do Tesouro Nacional confirma informação

Hospitais filantrópicos realizaram 67% das cirurgias “difíceis” do SUS no Paraná

24 de setembro de 2018

Hospitais públicos atendem mais a média complexidade, deixando a oferta de leitos e a alta complexidade para as instituições filantrópicas

Correto, Anastasia: Minas Gerais teve dois primeiros lugares no IDEB em 2013

24 de setembro de 2018

Ex-governador cita corretamente os dados da pesquisa que avalia o desempenho dos alunos

Explore também

Contraditório

Volta da CPMF. Aécio em crise!

18 de setembro de 2015 | por

“Não é aceitável (…) a volta da CPMF, o famoso imposto sobre transações financeiras que a sociedade já tinha se mostrado contra na sua última tentativa de renovação, em 2007.” – Aécio Neves (PSDB-MG), senador, em nota divulgada no site do PSDB na segunda-feira (14)

Flávio Rocha cita dados falsos sobre segurança pública

15 de maio de 2018 | por , e

Pré-candidato à Presidência exagerou número de evangélicos e acertou beneficiados do Bolsa Família em Pernambuco

Cunha e os cortes de gastos. Blefe!

11 de setembro de 2015 | por

“Não é pela via do aumento de impostos que vamos resolver o problema da conta. É melhor cortar gastos”, disse Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, em entrevista na terça-feira (8)