{"id":946,"date":"2017-12-04T13:00:43","date_gmt":"2017-12-04T15:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/index.php\/2017\/12\/04\/os-predios-que-violaram-o-skyline-do-rio\/"},"modified":"2017-12-04T13:00:43","modified_gmt":"2017-12-04T15:00:43","slug":"os-predios-que-violaram-o-skyline-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apublica.org\/colecaoparticular\/2017\/12\/os-predios-que-violaram-o-skyline-do-rio\/","title":{"rendered":"Os pr\u00e9dios que violaram o skyline do Rio"},"content":{"rendered":"\n<p>O que \u00e9 <em>skyline<\/em>, ou \u201clinha do c\u00e9u\u201d em ingl\u00eas? O arquiteto Luiz Fernando Janot, conselheiro do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro, explica com um exemplo essa marca caracter\u00edstica das grandes cidades. E o melhor exemplo do Rio de Janeiro, na vis\u00e3o dele, \u00e9 olhar, com o p\u00e9 na areia da enseada de Botafogo, para os pr\u00e9dios do outro lado da avenida. \u201cOlhando essa massa de cimento armado, flagra-se um <em>skyline<\/em> onde o concreto se sobrep\u00f5e \u00e0 natureza, traduzida pela sinuosidade das montanhas logo atr\u00e1s das edifica\u00e7\u00f5es\u201d, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cParis n\u00e3o tem montanhas, S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m n\u00e3o. Ent\u00e3o o <em>skyline<\/em> nessas capitais \u00e9 limitado pelo contorno dos pontos mais altos dos edif\u00edcios. O <em>skyline<\/em> \u00e9 o perfil das cidades\u201d, diz o arquiteto. Cuidar desse <em>skyline<\/em>, portanto, \u00e9 fundamental. E a palavra m\u00e1gica para entender a agress\u00e3o ao perfil da cidade \u00e9 o \u201cgabarito\u201d, o tamanho m\u00e1ximo que um pr\u00e9dio pode crescer, de acordo com a legisla\u00e7\u00e3o, a Lei de Zoneamento ou decretos de exce\u00e7\u00e3o que s\u00e3o muito comuns no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO <em>skyline<\/em> \u00e9 desrespeitado em v\u00e1rias cidades brasileiras. Lev\u00e1-lo em conta, tomar cuidado com o gabarito dos pr\u00e9dios, \u00e9 fundamental para que n\u00e3o aconte\u00e7a algo como em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa\u201d, acrescenta Janot, lembrando o munic\u00edpio em Santa Catarina cuja praia, hoje, tem mais sombra do que de sol devido ao pared\u00e3o formado por grandes edif\u00edcios. Apenas este ano, Cambori\u00fa deixou de ser a cidade com o maior pr\u00e9dio do pa\u00eds. Na orla, esse gigante mede 177 metros e tem 46 pavimentos. Foi desbancado por um pr\u00e9dio de Goi\u00e2nia, de 190 metros.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio, construtoras, com a cumplicidade do poder p\u00fablico, j\u00e1 fizeram alguns estragos que ficaram cravados na cidade como monstros a disputar espa\u00e7o com as encostas. O caso do morro da Vi\u00fava, no Flamengo, \u00e9 emblem\u00e1tico: \u00e9 uma colina que pouca gente, mesmo do Rio, sabe que existe. Ela ainda est\u00e1 l\u00e1, mas \u00e9 cercada de grandes pr\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"635\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/morro-da-viuva.jpg?resize=960%2C635&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-479\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/morro-da-viuva.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/morro-da-viuva.jpg?resize=300%2C198&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/morro-da-viuva.jpg?resize=768%2C508&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>O morro da vi\u00fava existe, mas ningu\u00e9m v\u00ea<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A capital fluminense teve leis que ensejaram a verticaliza\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios, sobretudo entre os anos 1960 e 1970. Na d\u00e9cada seguinte, a legisla\u00e7\u00e3o ficou bem menos flex\u00edvel. No per\u00edodo do prefeito Eduardo Paes (PMDB), de 2008 a 2016, contudo, houve novas leis para aumento de gabarito na Regi\u00e3o Portu\u00e1ria, no \u00e2mbito do projeto Porto Maravilha, e de bairros que receberam hot\u00e9is para os Jogos Ol\u00edmpicos, como Copacabana.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve ainda o aumento de gabarito no bairro da Penha, aprovado na C\u00e2mara dos Vereadores em outubro de 2011.&nbsp;Isso ocorreu a despeito de o Plano de Estrutura\u00e7\u00e3o Urbana (PEU) ter previsto ali gabaritos de quatro andares, que permitem que a Igreja da Penha, constru\u00edda em 1613 sobre uma rocha de 111 metros de altura, possa ser admirada desde qualquer ponto do bairro. O PEU foi alterado sob forte influ\u00eancia do ent\u00e3o secret\u00e1rio municipal de Urbanismo, S\u00e9rgio Dias, que n\u00e3o teve nenhum constrangimento em afirmar que o novo PEU aprovado na C\u00e2mara \u2013 e, portanto, com for\u00e7a de lei \u2013 iria atrair mais empreendimentos imobili\u00e1rios ao bairro por liberar pr\u00e9dios com 12 andares, alterando radicalmente o gabarito anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFizeram isso para agradar a interesses imobili\u00e1rios\u201d, disse \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> o arquiteto Fl\u00e1vio Ferreira, respons\u00e1vel pelo Plano de Estrutura\u00e7\u00e3o Urban\u00edstica da Penha anterior, realizado em 1988.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">C\u00e9us da antiga capital<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"398\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/copa-palace-amarelo.jpg?resize=640%2C398&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-810\"\/><figcaption>O Copacabaan Palace foi o primeiro no pared\u00e3o de pr\u00e9dios que hoje domina Copacabana<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O hist\u00f3rico do Rio de Janeiro, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 altura das edifica\u00e7\u00f5es, foi bem mais pr\u00f3ximo do ch\u00e3o at\u00e9 o s\u00e9culo 20. O arquiteto David Cardeman, autor do livro <em>O Rio nas alturas<\/em>, em parceria com Rog\u00e9rio Cardeman, narra que, at\u00e9 a chegada do pr\u00edncipe regente dom Jo\u00e3o VI, em 1808 \u2013 que trouxe a capital do imp\u00e9rio portugu\u00eas para o Brasil ao fugir de Napole\u00e3o \u2013, a \u00e1rea do centro era povoada por casas de um e dois pavimentos e, em casos mais raros, tr\u00eas ou quatro. Dom Jo\u00e3o VI, naquele tempo, fez decretos visando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios, mas determinou que n\u00e3o passassem de dois andares. Em 1885, um decreto imperial determinava que habita\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias de baixa renda deveriam ter apenas um pavimento. No Brasil republicano, as edifica\u00e7\u00f5es come\u00e7am a ficar um pouco mais perto do c\u00e9u da ent\u00e3o capital do pa\u00eds. Um decreto de 1900, como aponta Cardeman, liberava a algumas ruas pr\u00e9dios de tr\u00eas andares.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1920, a cidade rompe com o andar baixo. Um mesmo arquiteto, o franc\u00eas Joseph Gire, assina o projeto do edif\u00edcio A Noite, com 22 pavimentos, e o Copacabana Palace, com duzentos e vinte e seis apartamentos e su\u00edtes, 148 no pr\u00e9dio principal e 78 no anexo, em uma \u00e1rea de onze mil metros quadrados. Tamb\u00e9m nos anos 1920, o prefeito Ant\u00f4nio Prado J\u00fanior contrata o urbanista franc\u00eas Alfred Agache para fazer o primeiro Plano Diretor da cidade, no qual o zoneamento de \u00e1reas industriais e residenciais \u00e9 definido. \u201cSeu plano n\u00e3o foi implementado, mas acabou influenciando a ocupa\u00e7\u00e3o de Copacabana. Assim, Copacabana se verticalizou muito entre os anos 1940 e 1960, formando pared\u00f5es devido \u00e0 falta de espa\u00e7amento entre um pr\u00e9dio e outro. \u201cBairros como Botafogo, Flamengo, Catete seguiram o mesmo caminho\u201d, explica Cardeman \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong>. Ele ressalta que, at\u00e9 os anos 1930, o bairro conhecido como \u201cPrincesinha do Mar\u201d era pontificado somente por casas.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade do Rio, no s\u00e9culo 20, fica sob vigil\u00e2ncia dos zoneamentos previstos pelas prefeituras, por decreto, ou seja, n\u00e3o era lei e, assim, n\u00e3o contava com a participa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Vereadores. Houve zoneamentos elaborados pelo poder p\u00fablico em 1914, 1918 e 1925. Em 1937, foi baixado um decreto que marcaria a cidade, o C\u00f3digo de Obras, que perdurou at\u00e9 1970, com gabaritos variando de dois a dez pavimentos. Mas o decreto fundamental para entender alguns dos pr\u00e9dios imensos do Rio de Janeiro \u00e9 o de n\u00famero 3.800 de 1970, na gest\u00e3o do governador do ent\u00e3o estado da Guanabara Negr\u00e3o de Lima, em que se permitia o erguimento de edifica\u00e7\u00f5es de maneira bem radical: o decreto simplesmente liberou o gabarito ao c\u00e9u desde que as edifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocupassem todos os limites do terreno e recuassem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cal\u00e7ada. Ou seja, os donos de terrenos grandes poderiam fazer constru\u00e7\u00f5es onde o c\u00e9u seria o limite.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image wp-image-487 size-full\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"292\" height=\"280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/carlos-lacerda.jpg?resize=292%2C280&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-487\"\/><figcaption>O pol\u00eamico Carlos Lacerda liberou as constru\u00e7\u00f5es ao infinito<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cAntes de Negr\u00e3o de Lima, o governador Carlos Lacerda [1960-1965] havia baixado o Decreto 991, de 1962, no qual n\u00e3o havia barreiras ao crescimento vertical, quando o pr\u00e9dio n\u00e3o usava todos os limites do terreno\u201d, diz Cardeman, apontando um exemplo de arranha-c\u00e9u dessa \u00e9poca. \u201cEm 1962, o edif\u00edcio Apolo XI, pr\u00f3ximo ao morro da Vi\u00fava, no Flamengo, p\u00f4de subir \u00e0 vontade seus 28 pavimentos gra\u00e7as ao decreto de Lacerda.\u201d Foi o primeiro pr\u00e9dio a tapar a vista do morro que hoje continua ali, mas ningu\u00e9m consegue ver. A pol\u00edtica do c\u00e9u como limite acabou com um decreto de 1976, do ent\u00e3o prefeito Marcos Tamoyo, que proibia a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios acima de 18 pavimentos no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a arquiteta Andrea Redondo, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e, no Rio de Janeiro, a Lei de Org\u00e2nica do Munic\u00edpio deram um fim aos decretos promulgados diretamente por prefeitos. \u201cAgora, qualquer mudan\u00e7a tem de passar pela C\u00e2mara dos Vereadores.\u201d Isso, teoricamente, abre mais discuss\u00e3o \u00e0 sociedade sobre os rumos de edif\u00edcios e do <em>skyline<\/em> da cidade. \u201cO problema aumenta quando leis de exce\u00e7\u00e3o que fogem do zoneamento dos bairros permitem gabaritos ainda mais acima daqueles que j\u00e1 cortam a paisagem\u201d, afirma Roberto Anderson, arquiteto carioca com grande experi\u00eancia em patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O edif\u00edcio Candido Mendes<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/candido-mendes.jpg?resize=242%2C429&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-811\" width=\"242\" height=\"429\"\/><figcaption>O edif\u00edcio C\u00e2ndido Mendes, projetado pelo escrit\u00f3rio de arquitetura Harry James Cole<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O centro viria a ter uma edifica\u00e7\u00e3o que gerou uma grande pol\u00eamica em rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 agress\u00e3o ao <em>skyline<\/em> ali como tamb\u00e9m \u00e0 hist\u00f3ria do lugar. Cardeman o considera um atentado \u00e0 arquitetura e ao urbanismo. Trata-se do edif\u00edcio Candido Mendes, que abriga a faculdade de mesmo nome. Inaugurado em 1982, era o mais alto da cidade. Possui 49 pavimentos, com \u00e1rea total de 94.000m\u00b2 e 140m de altura, foi projetado pelo renomado escrit\u00f3rio de arquitetura Harry James Cole.<\/p>\n\n\n\n<p>Constru\u00eddo sobre pilotis (colunas a partir do t\u00e9rreo), sua \u00e1rea avan\u00e7ou sobre o Convento do Carmo \u2013 edifica\u00e7\u00e3o mais antiga da Pra\u00e7a XV, do s\u00e9culo 17, que foi moradia de dona Maria I, a Louca, entre 1808 e 1816. A Antiga S\u00e9, ao lado do convento, tamb\u00e9m contrasta, no mau sentido, com o edif\u00edcio. Conhecida como Nossa Senhora do Carmo da Antiga S\u00e9, foi a Capela Real, no per\u00edodo de dom Jo\u00e3o VI, e Capela Imperial, no tempo de dom Pedro I e dom Pedro II.<\/p>\n\n\n\n<p>Em frente ao pr\u00e9dio e ao convento, surge o Pal\u00e1cio Tiradentes, constru\u00eddo em 1922, a atual Assembleia Legislativa. Ali funcionava a chamada Cadeia Velha, onde o alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, ficou preso antes de ser enforcado em 1792. \u201cAli havia uma harmonia entre as edifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Esse pr\u00e9dio quebrou isso de uma forma violent\u00edssima. \u00c9 uma das maiores aberra\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro\u201d, diz o historiador Nireu Cavalcanti.<\/p>\n\n\n\n<p>O edif\u00edcio Candido Mendes foi aprovado na gest\u00e3o do governador do estado da Guanabara Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Chagas Freitas (1970-1975 ), no contexto do Conselho Superior de Planejamento Urbano como \u00f3rg\u00e3o normativo e consultivo. Sua fun\u00e7\u00e3o era estabelecer as diretrizes e normas do planejamento urbano e, entre outras atribui\u00e7\u00f5es, opinar nos casos especiais a cargo do governador \u2013 casos do licenciamento de edifica\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter p\u00fablico e privado que se utilizassem da isen\u00e7\u00e3o dos dispositivos previstos no Decreto 3.800, que regulamentava o zoneamento, o parcelamento da terra e, claro, as edifica\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es. Nesse conselho havia a lideran\u00e7a do arquiteto Lucio Costa, um mito da arquitetura e do urbanismo nacional. Costa foi um a dar seu aval \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Candido Mendes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Construtora da Globo fez shopping que desrespeitou lei em Botafogo<\/h3>\n\n\n\n<p>Em sua tese de doutorado, a arquiteta Rose Compans conta que o Botafogo Praia Shopping tamb\u00e9m se insere no tr\u00e1gico contexto de exce\u00e7\u00f5es. O pr\u00e9dio j\u00e1 tinha oito pavimentos quando era a Sears, uma famosa loja de departamentos onde foi inaugurada a primeira escada rolante do Brasil, e fechou em 1991 &#8211; mas ocupava apenas parte do terreno.<\/p>\n\n\n\n<p>A construtora S\u00e3o Marcos, que era ent\u00e3o um bra\u00e7o imobili\u00e1rio das Organiza\u00e7\u00f5es Globo, obteve, em 6 de novembro de 1997, uma licen\u00e7a municipal pela qual p\u00f4de aumentar para oito o n\u00famero de andares do pr\u00e9dio em todo o quarteir\u00e3o. &#8220;O projeto apresentado pela construtora S\u00e3o Marcos transformaria a constru\u00e7\u00e3o num caixote \u00fanico de oito andares da praia do Botafogo \u00e0 Rua Muniz Barreto&#8221;, descrevia&nbsp; o <em>Jornal do Brasil<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o final ocorreu em novembro de 1997, na administra\u00e7\u00e3o do prefeito Luiz Paulo Conde (PFL), mas a tramita\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1996, quando seu antecessor, Cesar Maia, do mesmo partido, ainda era o prefeito do Rio. Segundo reportagem do <em>Jornal do Brasil<\/em> da \u00e9poca, o projeto previa que a parte de tr\u00e1s do edif\u00edcio seria ampliada, passando de tr\u00eas para oito andares. J\u00e1 no terreno dos fundos, na rua Muniz Barreto, seria constru\u00eddo um edif\u00edcio-garagem com oito pavimentos. A \u00e1rea constru\u00edda passaria de 15.227 para 46.745 metros quadrados. &#8220;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"429\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/anuncio-no-jb-10-11-1997-1.png?resize=1024%2C429&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-856\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/anuncio-no-jb-10-11-1997-1.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/anuncio-no-jb-10-11-1997-1.png?resize=300%2C126&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/anuncio-no-jb-10-11-1997-1.png?resize=768%2C322&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Not\u00edcia no JB sobre a libera\u00e7\u00e3o do Botafogo Praia Shopping<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os jornais louvavam o investimento de US$ 42 milh\u00f5es feito pela S\u00e3o Marcos, os oito cinemas e as 226 lojas. O <em>Jornal do Brasil<\/em> descrevia: \u201cSeu principal produto, para qualquer esta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 a vista da Enseada de Botafogo e do Cristo Redentor, em oferta a partir de dois terra\u00e7os e da primeira escada rolante panor\u00e2mica do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que as normas urban\u00edsticas de Botafogo s\u00f3 permitem tr\u00eas andares para pr\u00e9dios n\u00e3o residenciais, tamb\u00e9m pensando no impacto de circula\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O departamento de arquitetura e urbanismo da prefeitura de ent\u00e3o se recusou a indicar um profissional que desse um parecer favor\u00e1vel \u00e0quela modifica\u00e7\u00e3o, que feria o Plano Urban\u00edstico de Botafogo, segundo ex-funcion\u00e1rios. Uma reportagem do <em>Jornal do Brasil<\/em> de novembro de 1997 detalhava: \u201cEm of\u00edcios internos adquiridos pelo jornal, a arquiteta Maria L\u00e9a de Ara\u00fajo, da Coordena\u00e7\u00e3o de Licenciamento Central, e a ent\u00e3o superintendente do Parcelamento e Edifica\u00e7\u00f5es da Secretaria, Leila Le\u00e3o, afirmavam que o projeto fere o gabarito da lei de zoneamento de Botafogo e ainda aumenta a taxa de ocupa\u00e7\u00e3o do terreno para 90%, enquanto o permitido na \u00e1rea era de 70%\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A construtora argumentava que o empreendimento era de interesse da cidade por revalorizar um pr\u00e9dio degradado e investir na cultura. A subsecret\u00e1ria de Urbanismo, Madalena Ast\u00e1cio, defendeu em of\u00edcio a constru\u00e7\u00e3o. \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o foi de que n\u00e3o haver\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um pr\u00e9dio, mas a amplia\u00e7\u00e3o de um j\u00e1 existente e que j\u00e1 tinha oito andares\u201d, escreveu. Ainda segundo a reportagem do <em>JB<\/em>: \u201cEm resposta manuscrita, o prefeito Luiz Paulo Conde aprovou o projeto e fez apenas uma pondera\u00e7\u00e3o: que sejam abertas vitrines e acessos de pedestres para a rua Alfredo Gomes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A licen\u00e7a foi dada sob a rubrica denominada \u201cdespacho superior\u201d, ferindo a Lei Org\u00e2nica do Munic\u00edpio, segundo disseram \u00e0 <strong>P\u00fablica<\/strong> funcion\u00e1rios que trabalhavam na prefeitura e pediram para n\u00e3o ser identificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 2000, quando Cesar Maia, j\u00e1 no PTB, saiu vitorioso e voltou a ser prefeito do Rio, sua declara\u00e7\u00e3o de bens trazia dois apartamentos; um deles, no sexto andar do luxuoso edif\u00edcio Rive Droite, em S\u00e3o Conrado \u2013 as metragens das unidades variam de 486 a 600 metros quadrados de \u00e1rea interna e contam cinco quartos, sendo quatro su\u00edtes, e quatro vagas de garagem \u2013 valia R$ 500 mil e fora adquirido com financiamento da construtora S\u00e3o Marcos, segundo declara\u00e7\u00e3o oficial do candidato. O valor foi questionado da imprensa da \u00e9poca, j\u00e1 que outros apartamentos no mesmo pr\u00e9dio custavam pelo menos o dobro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"249\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/declaracao-de-cesar-maia-no-jb-de-16-de-agosto-de-2000-1.png?resize=1024%2C249&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-857\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/declaracao-de-cesar-maia-no-jb-de-16-de-agosto-de-2000-1.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/declaracao-de-cesar-maia-no-jb-de-16-de-agosto-de-2000-1.png?resize=300%2C73&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/declaracao-de-cesar-maia-no-jb-de-16-de-agosto-de-2000-1.png?resize=768%2C187&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o: Jornal do Brasil, 16 de agosto de 2000.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A construtora S\u00e3o Marcos, enquanto esteve sob controle da holding Globopar, foi repetidamente acusada de ignorar a legisla\u00e7\u00e3o para limites de constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios na Cidade Maravilhosa. O pr\u00f3prio edif\u00edcio Rive Droite foi alvo de protestos da Associa\u00e7\u00e3o de Voo Livre do Rio de Janeiro, que usa o local para voos de asa-delta. A obra chegou a ser embargada pela Justi\u00e7a em 1992, mas reiniciada em raz\u00e3o de uma liminar concedida \u00e0 construtora pela 4\u00aa Vara de Fazenda P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Secret\u00e1rio de Obras e Urbanismo na gest\u00e3o de Marcello Alencar (PDT) entre 1989 e 1992, Luiz Paulo Correa da Rocha afirmava abertamente ao <em>Jornal do Brasil<\/em> que \u201c\u00e9 uma rotina a concess\u00e3o de autoriza\u00e7\u00f5es para que os limites sejam ultrapassados\u201d. Em novembro de 1990, ele detalhou: \u201cAgora mesmo, estamos analisando o projeto da cidade cenogr\u00e1fica da Rede Globo de Televis\u00e3o, em Jacarepagu\u00e1, que, para ser executado, ter\u00e1 que ultrapassar em 267 metros o gabarito, que \u00e9 de 33 metros.\u201d O argumento que terminou vencedor foram os empregos que a cidade cenogr\u00e1fica ia gerar. \u201cO que levamos em conta \u00e9 o interesse da cidade e n\u00e3o o privil\u00e9gio para esta ou aquela empresa\u201d, disse o secret\u00e1rio \u2013 e citou ainda ao <em>JB<\/em> outro caso em que a construtora S\u00e3o Marcos n\u00e3o seguiu a legisla\u00e7\u00e3o: o hotel Rio Atl\u00e2ntico, na avenida Atl\u00e2ntica. \u201cEm 1985, foi pedida licen\u00e7a para uma edifica\u00e7\u00e3o com 53 metros de altura. No entanto, foi constru\u00eddo um hotel com 59,30 metros de altura\u201d, disse ele ao <em>JB<\/em>, explicando que a prefeitura do PDT considerou \u201cinvi\u00e1vel\u201d ordenar a demoli\u00e7\u00e3o do excesso e, por isso, cobrou mais-valia e deu o habite-se em dezembro de 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa das Organiza\u00e7\u00f5es Globo informou, por meio de nota, que a S\u00e3o Marcos &#8220;foi vendida para a Ancar em janeiro de 2008&#8221;. A Ancar era s\u00f3cia no Brasil do fundo canadense Ivanhoe Cambridge. O valor da aquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi informado, mas <a href=\"http:\/\/www.investe.sp.gov.br\/noticia\/ancar-finaliza-aquisicao-da-sao-marcos\/\">o jornal Valor Econ\u00f4mico<\/a> estimou que tenha custado cerca de US$ 382 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Atualiza\u00e7\u00e3o em 4\/11: <\/strong>Uma vers\u00e3o anterior desta reportagem dizia que a Sears tinha apenas 3 pavimentos, mas o pr\u00e9dio situado na rua Praia de Botafogo j\u00e1 tinha oito andares.&nbsp; O seu estacionamento, na parte de tr\u00e1s, era mais baixo e foi ampliado. A informa\u00e7\u00e3o foi corrigida. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 skyline, ou \u201clinha do c\u00e9u\u201d em ingl\u00eas? O arquiteto Luiz Fernando Janot, conselheiro do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro, explica com um exemplo essa marca caracter\u00edstica das grandes cidades. 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