{"id":952,"date":"2017-11-27T11:00:27","date_gmt":"2017-11-27T13:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/index.php\/2017\/11\/27\/roubaram-a-praia-do-vidigal\/"},"modified":"2017-11-27T11:00:27","modified_gmt":"2017-11-27T13:00:27","slug":"roubaram-a-praia-do-vidigal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apublica.org\/colecaoparticular\/2017\/11\/roubaram-a-praia-do-vidigal\/","title":{"rendered":"Roubaram a praia do Vidigal"},"content":{"rendered":"<p>Cento e quarenta e um degraus. Quem quiser acessar a praia do Vidigal \u2013 e n\u00e3o for h\u00f3spede do Hotel Sheraton Grand Rio Hotel &amp; Resort\u00a0 \u2013 precisa descer exatamente 141 degraus. Essa cobi\u00e7ada faixa de areia pode ser vista por quem passa na avenida Niemeyer, que liga o bairro do Leblon ao de S\u00e3o Conrado. Mas, para chegar l\u00e1, haja degrau. Em sua inaugura\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio dos anos 1970, o hotel, situado aos p\u00e9s da favela do Vidigal, passou a ocupar o acesso antigo \u00e0 praia.<\/p>\n<p>O hotel fica em um terreno de intensa declividade com cerca de 30 mil metros quadrados, entre a pr\u00f3pria avenida Niemeyer e a praia, na capital fluminense. Da praia at\u00e9 a avenida, s\u00e3o ao todo seis pavimentos, e os acessos ao hotel s\u00e3o feitos no sexto andar por este ficar no mesmo n\u00edvel da via. Acima da avenida, s\u00e3o mais 18 apartamentos. Ao todo, a espa\u00e7osa edifica\u00e7\u00e3o conta com 596 apartamentos. Estando nela, pode-se chegar \u00e0 praia de elevador \u2013 s\u00e3o quatro principais e dois de servi\u00e7o \u2013 ou escada rolante.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, not\u00edcias de jornal mostram como o hotel era anunciado aos h\u00f3spedes VIP como se tivessem acesso a uma praia particular. O jornal O\u00a0Globo chegou a noticiar em 1973 que a praia do Vidigal era \u201cexclusiva\u201d do Sheraton. Foram not\u00edcias como essa que come\u00e7aram a revoltar moradores do<br \/>\nentorno. Lu\u00eds Cl\u00e1udio Lima, 70 anos, residente na favela do Vidigal desde os 10 anos, recorda que os moradores se organizaram. \u201cO acesso para a praia, naquela \u00e9poca, passou a fazer parte do terreno do hotel. Como ali \u00e9 uma encosta, a praia passou a ser s\u00f3 frequentada por h\u00f3spedes. Fizemos um protesto na avenida e outro na pr\u00f3pria praia.\u201d<\/p>\n<p>Pressionado, o hotel construiu a longa escadaria como \u00fanico acesso a quem n\u00e3o \u00e9 hospede. Embora o Sheraton n\u00e3o controle o acesso de quem quer chegar at\u00e9 a praia, tampouco facilita o passeio dos demais moradores da \u00e1rea. \u201cTrata-se de um acesso t\u00e3o desconfort\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao que oferece o hotel que<br \/>\nmostra claramente uma segrega\u00e7\u00e3o socioespacial\u2019\u2019, diz o arquiteto Pablo Benetti, para quem a escada est\u00e1 defasada em termos de padr\u00e3o urban\u00edstico.<\/p>\n\n\t\t\t<div class=\"baImage mt-5 mb-5\">\n\t\t\t\t<div class=\"ba-slider\">\n\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/da9685-3a2864ed6ebc483ba623e0c95d8bfb80001.jpg?fit=1030%2C766&ssl=1\" alt=\"\">       \n\t\t\t\t\t<div class=\"resize\">\n\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/da9685-3a20c1bf80844dda8dc26bc76ac10487.webp?fit=1031%2C766&ssl=1\" alt=\"\">\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<span class=\"handle\"><\/span>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"caption\">Em 1968, a \u00fanica rota de acesso era essa trilha pela pedra; pressionado, o hotel construiu uma escadaria com 140 degraus. (Foto: Henrique Mindlin Associados)<\/div>\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\n<p>Pescadores cuja presen\u00e7a s\u00f3 \u00e9 notada devido aos arm\u00e1rios de madeira onde guardam seu material de pesca e moradores da favela do Vidigal, comunidade com quase 10 mil habitantes segundo o Censo de 2010, localizada na encosta acima do hotel, relataram \u00e0 P\u00fablica que o hotel n\u00e3o d\u00e1 apoio a quem<br \/>\nprecisa ir de elevador at\u00e9 a avenida \u2013 caso de pessoas com problemas de mobilidade. \u201cJ\u00e1 houve pessoas que ou passaram mal ou mesmo quase se\u00a0afogaram e tiveram de subir a escadaria. Casos assim dependem da boa vontade do gerente de plant\u00e3o\u201d, diz o pescador Marco Aur\u00e9lio Costa.<\/p>\n<p>Moradora do Vidigal, J\u00e9ssica Carvalho, de 25 anos, estava na praia do Vidigal, amamentando um beb\u00ea de 4 meses no \u00faltimo m\u00eas de setembro. A reportagem da P\u00fablica perguntou ent\u00e3o se ela enfrentaria aqueles 141 degraus de volta para casa. \u201cVoc\u00ea contou o n\u00famero de degraus?\u201d, indagou. \u201cVou voltar pela escada, sim; nem passou pela minha cabe\u00e7a pedir ao hotel.\u201d<\/p>\n<p>A reportagem da <strong>Ag\u00eancia\u00a0P\u00fablica<\/strong> tentou algumas vezes contato com o hotel, mas n\u00e3o foi atendida. Sem se identificar, um gerente disse que o crit\u00e9rio de acesso \u00e9 \u201ccaso a caso\u201d, explicando que se trata de um pr\u00e9dio privado.<\/p>\n<p>O Sheraton atualmente pertence \u00e0 rede norte-americana Marriott, que, por sua vez, o adquiriu da rede StarWood em 2014, somando assim mais de 5 mil\u00a0hot\u00e9is no mundo. A estada custa mais de R$ 600 no quarto mais em conta. H\u00e1 unidades para casal, fam\u00edlia, de frente para o mar, tudo isso levando a varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. Uma refei\u00e7\u00e3o pode sair de R$ 100 a R$ 300.<\/p>\n<p>O hotel \u00e9 mais frequentado por argentinos, chilenos e, em menor escala, brasileiros, de acordo com funcion\u00e1rios. E tem um hist\u00f3rico de h\u00f3spedes famosos como o ex-presidente americano George Bush, o cantor norte-americano Tony Bennett e o \u00eddolo brit\u00e2nico da m\u00fasica pop Rod Stewart. Entrevistados pela P\u00fablica, alguns h\u00f3spedes disseram n\u00e3o ver nenhuma segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, na faixa de areia, nota-se uma clara divis\u00e3o. Aquelas cadeiras de madeira na praia, t\u00e3o caracter\u00edsticas de hot\u00e9is de luxo, firmam uma esp\u00e9cie de linha divis\u00f3ria entre os h\u00f3spedes e moradores do Vidigal que frequentam o peda\u00e7o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_170\" aria-describedby=\"caption-attachment-170\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-170 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular.new\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?resize=1024%2C768&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/colecaoparticular\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/area-de-lazersheraton.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-170\" class=\"wp-caption-text\">A piscina do Sheraton Grand Rio. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<h2>O come\u00e7o<\/h2>\n<p>Em 1968, quando instalou ali seu empreendimento, a administra\u00e7\u00e3o do Sheraton resolveu privatizar a praia do Vidigal, onde j\u00e1 havia uma col\u00f4nia de pescadores. Armando Almeida Lima, de 75\u00a0anos, a quem moradores da favela do Vidigal recorrem quando o assunto \u00e9 mem\u00f3ria do morro, disse que j\u00e1 durante a obra o hotel tentou fechar os caminhos da praia, o que seria ilegal segundo a legisla\u00e7\u00e3o atual \u2013 a Lei 7.661, de 1988, garantiu que as praias s\u00e3o bens p\u00fablicos de uso comum do povo.<\/p>\n<p>\u201cNosso \u00fanico acesso, que era uma escada de barro, passou a fazer parte do terreno do hotel.\u00a0\u00c9 claro que o Vidigal foi contra, mas o fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de novos caminhos para a praia foi a press\u00e3o de moradores de classe m\u00e9dia alta da avenida Niemeyer, que tamb\u00e9m n\u00e3o se conformaram com a ideia de uma praia exclusiva para o hotel. Ent\u00e3o, o hotel construiu uma escada de madeira e, depois de protestos, uma de alvenaria.\u201d<\/p>\n<p>Armando n\u00e3o vai mais \u00e0 praia que leva o nome da favela onde mora. \u201cCom a minha idade, fica imposs\u00edvel encarar aqueles degraus\u2019\u2019, diz. Mal\u00a0conservado, o caminho \u00e9 in\u00f3spito, \u00edngreme e com concreto j\u00e1 desgastado. Tamb\u00e9m morador do Vidigal, o cantor e compositor S\u00e9rgio Ricardo, de 80 anos, \u00e9 outro que nunca mais frequentou a praia. \u201cN\u00e3o vou pedir para ir \u00e0 praia no elevador do hotel. Aquilo ali \u00e9 uma invas\u00e3o\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Para outra moradora do Vidigal, B\u00e1rbara Nascimento, de 28 anos, o hotel criou \u201cum apartheid\u201d. \u201cE n\u00e3o criaram uma rampa para cadeirantes ou idosos, mas uma escada praticamente s\u00f3 para jovens.\u201d A praia \u00e9 dos moradores, segundo ela. \u201cEssa praia tem tanto a ver com o Vidigal que at\u00e9 Vinicius de Moraes fez um poema chamado \u2018Balada da praia do Vidigal\u2019. Parece que ele teve um encontro amoroso por l\u00e1.\u201d Para B\u00e1rbara, s\u00f3 um acesso decente a todos devolveria o ar democr\u00e1tico \u00e0 areia. \u201c\u00c9 muito estranha essa hist\u00f3ria de acessos diferenciados \u00e0 praia.\u201d<\/p>\n<p>Em 2016, quando o peemedebista Eduardo Paes ainda era prefeito, sua administra\u00e7\u00e3o prometeu um caminho mais acess\u00edvel aos moradores. Nada foi\u00a0feito. Procurada pela P\u00fablica, a atual prefeitura de Marcelo Crivella (PRB) limitou-se a responder: \u201cN\u00e3o h\u00e1 projeto para o local. A prioridade da Geo-Rio [Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Geot\u00e9cnica, \u00f3rg\u00e3o da Secretaria Municipal de Obras] s\u00e3o obras nas encostas que ofere\u00e7am riscos\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, a prefeitura do Rio, com Cesar Maia (PMDB) \u00e0 frente da administra\u00e7\u00e3o municipal, fez o projeto Favela-Bairro, no morro do Vidigal. Como a cal\u00e7ada do hotel era por demais estreita, o poder p\u00fablico local pediu que ela fosse refeita, a fim de ficar mais larga e evitar atropelamentos em uma via bem movimentada.\u00a0Ent\u00e3o secret\u00e1rio municipal de Habita\u00e7\u00e3o e hoje presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), S\u00e9rgio Magalh\u00e3es relembra o car\u00e1ter elitista do hotel \u00e0 \u00e9poca numa \u00e1rea cont\u00edgua \u00e0 favela do Vidigal.\u00a0\u201cO hotel n\u00e3o queria pobres passando em frente a ele, e s\u00f3 fez a cal\u00e7ada depois que saiu uma nota em uma coluna famosa do jornal O Globo\u201d, conta o presidente do IAB.\u00a0\u201cNo final, a cal\u00e7ada foi refeita.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cento e quarenta e um degraus. Quem quiser acessar a praia do Vidigal \u2013 e n\u00e3o for h\u00f3spede do Hotel Sheraton Grand Rio Hotel &amp; Resort\u00a0 \u2013 precisa descer exatamente 141 degraus. 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