{"id":119,"date":"2017-01-31T09:04:10","date_gmt":"2017-01-31T11:04:10","guid":{"rendered":"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/?page_id=119"},"modified":"2022-06-14T23:19:27","modified_gmt":"2022-06-15T02:19:27","slug":"botelho-o-espiao-que-ninguem-amava","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/infiltrados\/botelho-o-espiao-que-ninguem-amava\/","title":{"rendered":"Botelho, o espi\u00e3o que ningu\u00e9m amava"},"content":{"rendered":"<p><em>A estilista Mara*, 31 anos, caminhava por uma casa fr\u00e1gil, de paredes muito finas. Havia uma porta com uma abertura para c\u00e3es, por onde entrou uma cobra. Primeiro o rabo, depois a cabe\u00e7a. Era grande e amarela. A cobra olhou para Mara e falou:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEstou te vigiando. Eu vou te pegar.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>E deslizou pelos cantos escuros da casa, fugindo da luz do sol. Vigiando e se escondendo, voltou \u00e0 abertura para c\u00e3es e desapareceu.<\/em><\/p>\n<p><em>Mara colocou prote\u00e7\u00f5es nas janelas e foi abra\u00e7ar seus dois filhos em um canto da casa.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEu voltei, vou te pegar\u201d, disse a cobra, saindo das sombras.<\/em><\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de 4 de setembro de 2016, Mara acordou se sentindo mal. Levantou-se da cama e foi at\u00e9 o banheiro. Vomitou. O sonho era um aviso, ela sabia. Frequentadora habitual de protestos desde 2013, decidiu que naquele dia ficaria em casa. \u00c0s 6h, mandou um recado num grupo de WhatsApp, contando o sonho e dizendo que n\u00e3o iria \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o convocada pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular para naquele domingo gritar \u201cFora Temer\u201d na avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo. Tinha algo de errado rondando a manifesta\u00e7\u00e3o, alguma coisa sinuosa e afeita ao escuro, a ocultar segredos.<\/p>\n<h3><strong>A pris\u00e3o <\/strong><\/h3>\n<p>Daniela* leu sobre os sonhos de Mara no grupo de WhatsApp do qual ambas faziam parte. Mas estava empolgada demais para se importar com devaneios sobre cobras falantes. Ela queria ir para a rua, participar. Criada num ambiente conservador, fazia seis meses que havia mudado de lado, o que lhe rendeu o apelido de \u201cpetralha\u201d entre os amigos antigos.<\/p>\n<p>Havia conhecido nas redes sociais pessoas que pensavam como ela e curtia a ideia de irem \u00e0s ruas gritar \u201ccontra o golpe\u201d e \u201cpor nenhum direito a menos\u201d. A Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica do governo Geraldo Alckmin (PSDB) chegou a declarar que a manifesta\u00e7\u00e3o daquele domingo estava \u201cproibida\u201d por causa da passagem da Tocha Paral\u00edmpica na Paulista, marcada para as 13h30. Para n\u00e3o atrapalhar o evento, a Frente Povo Sem Medo aceitou mudar para 15h o hor\u00e1rio do protesto, inicialmente marcado para as 14h.<\/p>\n<p>Daniela conta que tinha pavor da repress\u00e3o policial, mas a empolga\u00e7\u00e3o havia vencido o medo. Marcara de encontrar outros manifestantes na esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 Consola\u00e7\u00e3o, na avenida Paulista. Gente que havia conhecido havia menos de uma semana comentavam nos eventos de Facebook que chamavam para o ato. Das p\u00e1ginas abertas, haviam migrado para chats reservados e grupos de WhatsApp.<\/p>\n<p>O temor da viol\u00eancia policial foi o principal motivo para a cria\u00e7\u00e3o dos grupos virtuais. \u201cA gente quis se unir porque estava com medo de ir sozinho aos protestos\u201d, relembra o tatuador Andr\u00e9*, 23 anos.<\/p>\n<p>Os grupos de WhatsApp reuniam dezenas de pessoas sem v\u00ednculo com partidos ou outras organiza\u00e7\u00f5es formais. Havia estudantes do movimento secundarista, militantes \u201cantifascismo\u201d e gente que estava debutando nos protestos, como Daniela. Poucos se conheciam pessoalmente. As conversas eram pr\u00e1ticas e ligeiras, a respeito de pontos de encontro, cartazes, rotas de fuga, primeiros socorros.<\/p>\n<p>Para Daniela, apenas uma conversa online havia fugido ao roteiro. Na noite de 3 de setembro, um participante chamado Balta Nunes, com quem ela n\u00e3o havia trocado nem uma d\u00fazia de palavras, chamou-a para um chat privado no Facebook. Come\u00e7ou a elogiar suas fotos e a passar cantadas baratas. Um papo besta. \u201cBalta, voc\u00ea t\u00e1 carente, velho? Vai tomar uma Heineken\u201d, ela respondeu, encerrando a conversa. E ainda exp\u00f4s a falta de no\u00e7\u00e3o com uma mensagem para o grupo. \u201cGente, o Balta t\u00e1 carente\u201d, avisou pelo WhatsApp. Ele n\u00e3o voltou a incomodar e Daniela deixou para l\u00e1.<\/p>\n<p>No domingo, Daniela encontrou os demais manifestantes diante do metr\u00f4 Consola\u00e7\u00e3o e dali seguiu para encontrar integrantes de diferentes grupos de WhatsApp no Centro Cultural S\u00e3o Paulo (CCSP), na rua Vergueiro, a tr\u00eas quil\u00f4metros dali, para irem ao protesto. O que poderia dar errado?<\/p>\n<p>O primeiro sinal de perigo veio do c\u00e9u. Caminhando em dire\u00e7\u00e3o ao CCSP, os manifestantes repararam num helic\u00f3ptero que parecia segui-los. Pouco antes das 15h, chegaram ao CCSP, onde encontraram outros membros dos grupos virtuais \u2013 Balta era um deles.<\/p>\n<div id=\"metaslider-id-412\" style=\"max-width: 300px;\" class=\"ml-slider-3-108-0 metaslider metaslider-flex metaslider-412 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default\" role=\"region\" aria-label=\"Baltazar - Antes e depois\" data-height=\"300\" data-width=\"300\">\n    <div id=\"metaslider_container_412\">\n        <div id=\"metaslider_412\">\n            <ul class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-363 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:56:32\" data-filename=\"botelho-antes-de-balta0-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/botelho-antes-de-balta0-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-412 slide-363 msDefaultImage\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Willian Pina Botelho antes de assumir a identidade de Baltazar Nunes<\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-441 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:30:41\" data-filename=\"balta-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/balta-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-412 slide-441 msDefaultImage\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\">Botelho j\u00e1 como Baltazar Nunes<\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div>\n<p>Foi quando os policiais apareceram.<\/p>\n<p>Pareciam vir de todos os lados, cerca de 30, uniformizados, de armas nas m\u00e3os, gritando \u201clevanta\u201d e \u201cencosta\u201d. Daniela viu um PM dar uma chave de bra\u00e7o no pesco\u00e7o de uma das meninas e o outro socar as costelas de um garoto. Bolsas e mochilas foram abertas e revistadas. Ningu\u00e9m explicava nada: \u201cOrdens superiores\u201d, diziam.<\/p>\n<p>Ela tomou um susto ao ver o aparato preparado para prend\u00ea-los: cerca de dez viaturas policiais e at\u00e9 um \u00f4nibus, sem falar no helic\u00f3ptero. Ficaram um bom tempo enfileirados na cal\u00e7ada, em p\u00e9. \u201cVoc\u00eas n\u00e3o falavam que era uma ditadura? O sonho de voc\u00eas n\u00e3o era ser preso pela ditadura? T\u00e1 a\u00ed, agora voc\u00eas est\u00e3o sendo presos pela ditadura\u201d, disse um policial.<\/p>\n<p>\u201cFoi tudo muito bizarro mesmo. Eu ca\u00ed de gaiata, nem entendi que estava sendo presa, porque os policiais n\u00e3o deram voz de pris\u00e3o\u201d, diz a fot\u00f3grafa Jana\u00edna Roque, 28 anos, que naquela tarde pretendia participar da segunda manifesta\u00e7\u00e3o da sua vida. O pior momento para ela foi quando a PM levou as mulheres do grupo \u2013 e apenas as mulheres \u2013 para uma revista \u00edntima dentro de um banheiro da esta\u00e7\u00e3o Vergueiro do metr\u00f4. \u201cAs policiais femininas disseram para a gente tirar toda a roupa. At\u00e9 a calcinha. E a\u00ed a gente tinha que mostrar que n\u00e3o tinha nada [dentro da vagina]\u201d, diz. \u201cEu me senti humilhada. Essa \u00e9 a palavra.\u201d<\/p>\n<p>Por volta das 18h, o grupo foi colocado em um \u00f4nibus e uma viatura. Eram 21 presos, sendo tr\u00eas adolescentes. O destino n\u00e3o era uma delegacia comum, mas o Departamento Estadual de Investiga\u00e7\u00f5es Criminais (Deic), \u00f3rg\u00e3o da Pol\u00edcia Civil que costuma lidar com crimes de alto calibre ligados a organiza\u00e7\u00f5es criminosas, como roubo de cargas e fraudes financeiras. Cair ali n\u00e3o era um bom sinal.<\/p>\n<p>A caminho do Deic, os manifestantes presos especulavam que aquela pris\u00e3o \u2013 que tinha toda pinta de ser uma armadilha \u2013 s\u00f3 poderia ter sido montada por um agente infiltrado nos grupos de Facebook e WhatsApp. Mas foi apenas no estacionamento da delegacia que perceberam um detalhe sinuoso. \u201cO Balta n\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d, algu\u00e9m comentou. N\u00e3o dava para entender por qu\u00ea. S\u00f3 podia haver uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa das \u00faltimas mensagens que mandou ao grupo de WhatsApp antes que o Deic confiscasse seu celular, Daniela avisou: \u201cO infiltrado \u00e9 o Balta\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Os ass\u00e9dios do capit\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Balta Nunes nunca existiu. Ap\u00f3s a pris\u00e3o dos 21 jovens, reportagens publicadas pela <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/infiltrado-do-tinder-que-espionava-manifestantes-e-oficial-do-exercito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ponte Jornalismo<\/a> e por <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/09\/09\/politica\/1473452777_631937.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>El Pa\u00eds<\/em><\/a> revelaram que era um personagem inventado pelo capit\u00e3o de intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito Willian Pina Botelho. Mentindo sobre seu nome e hist\u00f3ria de vida, o oficial passou dois anos monitorando os movimentos sociais em S\u00e3o Paulo e participando tanto de protestos de rua como de encontros e reuni\u00f5es fechadas.<\/p>\n<p>Natural de Lavras (MG), Botelho formou-se em Ci\u00eancias Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), e concluiu o mestrado em Opera\u00e7\u00f5es Militares na Escola de Aperfei\u00e7oamento de Oficiais. As primeiras refer\u00eancias \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o como Balta datam de 2014.<\/p>\n<p>Em dezembro daquele ano, o capit\u00e3o criou o perfil falso de Balta Nunes no Facebook. Numa conversa com um socorrista do Grupo de Apoio ao Protesto Popular (Gapp), Balta contou que come\u00e7ou a frequentar os movimentos sociais logo ap\u00f3s chegar a S\u00e3o Paulo, na \u201c\u00e9poca da Copa\u201d \u2013 em junho e julho de 2014. Na internet e em manifesta\u00e7\u00f5es de rua, apresentava-se como um iniciante com vontade de aprender. Era um trabalho que ia al\u00e9m da mera observa\u00e7\u00e3o: ele queria ser \u201caceito\u201d e visto como algu\u00e9m que tinha \u201cuma vida de milit\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<div id=\"metaslider-id-413\" style=\"max-width: 300px;\" class=\"ml-slider-3-108-0 metaslider metaslider-flex metaslider-413 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default\" role=\"region\" aria-label=\"Baltazar - Conversas no Facebook\" data-height=\"300\" data-width=\"300\">\n    <div id=\"metaslider_container_413\">\n        <div id=\"metaslider_413\">\n            <ul class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-349 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:36:00\" data-filename=\"balta-trajetoria-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-trajetoria-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-413 slide-349 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-350 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:36:01\" data-filename=\"balta-trajetoria2-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-trajetoria2-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-413 slide-350 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-351 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:36:02\" data-filename=\"balta-trajetoria3-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-trajetoria3-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-413 slide-351 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-352 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:36:03\" data-filename=\"balta-trajetoria4-261x261.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-trajetoria4-261x261.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-413 slide-352 msDefaultImage\" \/><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cDa primeira vez em que nos vimos, Balta disse que me conhecia do Facebook e come\u00e7amos a conversar. Ele me pareceu uma pessoa de esquerda com posi\u00e7\u00f5es moderadas, que estava come\u00e7ando na milit\u00e2ncia\u201d, conta um ativista do Terra Livre, movimento de luta por terra e moradia, que pediu para n\u00e3o ser identificado. Em setembro de 2015, Balta participou da compra de 15 banquinhos de pl\u00e1stico para o grupo, em troca da promessa de um dia visitar uma ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<div id=\"metaslider-id-419\" style=\"max-width: 300px;\" class=\"ml-slider-3-108-0 metaslider metaslider-flex metaslider-419 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default\" role=\"region\" aria-label=\"Baltazar - Doa\u00e7\u00e3o banquinhos\" data-height=\"300\" data-width=\"300\">\n    <div id=\"metaslider_container_419\">\n        <div id=\"metaslider_419\">\n            <ul class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-347 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:35:57\" data-filename=\"balta-cadeiras-288x288.png\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-cadeiras-288x288.png\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-419 slide-347 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-348 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:35:59\" data-filename=\"balta-cadeiras2-288x288.png\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-cadeiras2-288x288.png\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-419 slide-348 msDefaultImage\" \/><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div>\n<p>No mesmo ano, o capit\u00e3o participou tamb\u00e9m de reuni\u00f5es da Frente Povo Sem Medo e de um encontro chamado Comunicadores Sem Medo, em 4 e 5 de junho numa das casas do coletivo Fora do Eixo, <a href=\"https:\/\/ninja.oximity.com\/article\/Infiltrado-do-Ex%8Ercito-mirava-MTS-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo den\u00fancia da M\u00eddia Ninja<\/a>.<\/p>\n<p>Enquanto viveu como Balta, o capit\u00e3o Botelho morou no apartamento 906 da avenida Brigadeiro Lu\u00eds Ant\u00f4nio, 3249, registrado em nome do general de brigada Manoel Morata Almeida, primeiro-comandante da Base e Administra\u00e7\u00e3o e Apoio do Ibirapuera e ex-capit\u00e3o do Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00e3o \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi), ele pr\u00f3prio um participante, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/10\/19\/politica\/1476909547_364512.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo <em>El Pa\u00eds<\/em><\/a>, de a\u00e7\u00f5es de infiltramento contra estudantes nos anos finais da ditadura militar.<\/p>\n<p>Funcion\u00e1rios do pr\u00e9dio ouvidos pela reportagem confirmaram que conheciam Botelho pelo nome verdadeiro e sabiam que era do Ex\u00e9rcito. Fora do edif\u00edcio, o capit\u00e3o costumava dizer que trabalhava em cargos gen\u00e9ricos: gestor, consultor, gerente de projetos. A pelo menos uma pessoa, disse que trabalhava numa consultoria de seguran\u00e7a que atuaria na Copa do Mundo e nos Jogos Ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>O tatuador Andr\u00e9 havia cruzado com Botelho\/Balta em protestos de rua e se lembra da sua falta de habilidade para puxar papo. \u201cEu achava ele meio bob\u00e3o, tentando puxar assunto de uma forma meio for\u00e7ada\u201d, afirma. \u201cEle foi num protesto com um uniforme Adidas completo, sabe? Destoava. Enquanto todos ali estavam meio punk\u201d, recorda o empres\u00e1rio Erico Perrela, 25 anos, que tamb\u00e9m foi preso em setembro.<\/p>\n<p>Um dos principais m\u00e9todos de monitoramento usado pelo capit\u00e3o era a aproxima\u00e7\u00e3o com as mulheres, por meio de a\u00e7\u00f5es que frequentemente descambavam para o ass\u00e9dio sexual. Uma de suas frentes de batalha era o aplicativo de paquera Tinder, em que se exibia numa foto de sunga, os cabelos desgrenhados que deixou crescer sobre o antigo corte militar, rente, e usava frases com um alegre sabor progressista: uma, sem atribui\u00e7\u00e3o de autoria, de Rosa Luxemburgo (\u201cPor um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres\u201d), e outra, em ingl\u00eas, falsamente atribu\u00edda a Karl Marx (\u201cDemocracia \u00e9 o caminho para o socialismo\u201d). As cita\u00e7\u00f5es ajudavam a atrair o interesse de mulheres que se identificavam com ideias de esquerda. \u201cApoio totalmente suas ideias!\u201d foram as primeiras palavras ditas por uma programadora cultural para Balta no Tinder, um m\u00eas antes da pris\u00e3o dos jovens no CCSP. Muitas vezes, contudo, a abordagem n\u00e3o dava resultado. \u201cCruzei com esse cara no Tinder e realmente tinha me soado esquisito, meio for\u00e7ado. Ele foi logo perguntando de uma conhecida em comum, que \u00e9 bem militante. Achei bizarro e desconversei, nunca mais falei com ele\u201d, conta uma servidora municipal.<\/p>\n<p>Nas conversas online, o capit\u00e3o sa\u00eda fazendo declara\u00e7\u00f5es de afeto e insinua\u00e7\u00f5es sexuais para mulheres que havia acabado de conhecer. Muitas das suas tentativas fracassavam. \u201cVoc\u00ea \u00e9 uma feminista que acho bonita\u201d, \u201cestou esperando voc\u00ea aqui, enrolado no cobertor\u201d e \u201cquando voc\u00ea olha para mim, voc\u00ea se sente atra\u00edda?\u201d foram algumas das frases que lan\u00e7ou, via redes sociais, para cinco mulheres em 2015, conforme print das mensagens publicadas pela <a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/capitao-infiltrado-do-exercito-espionou-atividades-do-midia-ninja-fora-do-eixo-mtst-cut-une-jornalistas-comunicadores-e-militantes-de-partidos-de-esquerda.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">M\u00eddia Ninja<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cAs meninas ele cantava mesmo, chamava no privado\u201d, lembra Mara sobre o comportamento de Balta nos grupos online. Se com os homens o capit\u00e3o ainda ensaiava algumas conversas t\u00edmidas sobre pol\u00edtica, nos papos com as mulheres logo partia para tentativas de sedu\u00e7\u00e3o, fazendo elogios. Se a interlocutora trabalhava com artes, Balta dizia que adorava artistas, pois \u201cs\u00e3o livres de tabu\u201d; se fazia <em>pole dance<\/em>, derretia-se soltando um \u201cn\u00e3o imagino como \u00e9 ter uma namorada que faz pole dance, voc\u00ea me emociona\u201d. Tentava se mostrar uma pessoa aberta, dizendo, por exemplo, que a conviv\u00eancia com \u201co p\u00fablico LGBT\u201d o havia deixado \u201cmais tolerante\u201d. Mesmo sem qualquer intimidade, vinha logo com \u201ceu gosto de voc\u00ea\u201d ou \u201csaudades de voc\u00ea\u201d. Dizia \u201cestou carente\u201d e, se a interlocutora n\u00e3o reclamasse de cara, completava com \u201cvoc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 carente de carinho\u201d.<\/p>\n<h3><strong>\u201cEsse tempo, felizmente, j\u00e1 passou\u201d <\/strong><\/h3>\n<p>Os jovens presos no dia 4 ficaram detidos no Deic at\u00e9 a tarde seguinte. O delegado decidiu indiciar os 18 adultos por associa\u00e7\u00e3o criminosa e corrup\u00e7\u00e3o de menores. Cada um dos dois crimes podia render at\u00e9 quatro anos de reclus\u00e3o. Para a imprensa, o chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Dimitrios Fyskatoris, pintou-os como membros de um grupo organizado e violento, que teria espalhado \u201cv\u00e1rias c\u00e9lulas\u201d pela cidade com o objetivo de promover \u201catos de hostilidade e desordem\u201d.<\/p>\n<p>Na tarde do dia 5, por\u00e9m, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo determinou o relaxamento da pris\u00e3o durante a audi\u00eancia de cust\u00f3dia (destinada a definir se suspeitos presos podem responder aos processos em liberdade) no F\u00f3rum Central Criminal da Barra Funda. O juiz afirmou que n\u00e3o havia ilegalidade na posse de qualquer dos objetos apreendidos com eles, como vinagre e material de primeiros socorros, e que n\u00e3o havia ind\u00edcios de que os jovens tivessem inten\u00e7\u00e3o de praticar algum delito. Comparou a a\u00e7\u00e3o do governo paulista \u00e0 ditadura militar: \u201cO Brasil como Estado Democr\u00e1tico de Direito n\u00e3o pode legitimar a atua\u00e7\u00e3o policial de praticar verdadeira \u2018pris\u00e3o para averigua\u00e7\u00e3o\u2019 sob o pretexto de que estudantes reunidos poderiam, eventualmente, praticar atos de viol\u00eancia e vandalismo em manifesta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Esse tempo, felizmente, j\u00e1 passou\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Violadas<\/strong><\/h3>\n<p><em>Voc\u00ea e Balta Nunes agora s\u00e3o amigos no Facebook.<\/em><\/p>\n<p>A mensagem apareceu na tela do celular da hostess Clarissa Reche, 29 anos, na mesma noite da pris\u00e3o. Fazia seis horas que ela estava postada diante do Deic aguardando por not\u00edcias do namorado, Erico Perrela, um dos 21 detidos. A jovem n\u00e3o havia ido ao protesto nem fazia parte dos grupos de WhatsApp onde, \u00e0quela altura, o nome de Balta j\u00e1 aparecia como \u201cinfiltrado\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-354 aligncenter\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/reacao-grupo-1.jpg\" width=\"250\" height=\"424\" \/><\/p>\n<p>Por isso, Clarissa n\u00e3o estranhou quando o desconhecido a adicionou no Facebook, por volta da meia-noite, contando que havia sido preso ao lado dos outros manifestantes e levado para uma delegacia diferente. Passados 15 minutos, Balta come\u00e7ou a assedi\u00e1-la. \u201cEle disse que tinha visto minhas fotos no Face e me achado bonita. Perguntou se eu ia nas manifesta\u00e7\u00f5es, porque nas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinha meninas bonitas como eu. At\u00e9 perguntou se eu queria sair com ele no dia seguinte\u201d, conta Clarissa. Ela apenas o ignorou.<\/p>\n<p>Dias depois, quando descobriu que era um capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito pago para fazer aquilo, Clarissa disse ter sentido \u201cnojo\u201d. \u201cComo mulher, eu me sinto abusada. Como assim \u00e9 permitido que o Estado use como t\u00e1tica xavecar meninas? Com quantas meninas ele saiu pra conseguir informa\u00e7\u00e3o? \u00c9 um machismo institucionalizado, um atentado contra todas as mulheres\u201d, ataca. \u201cA gente cresce achando que pode confiar no Estado, na pol\u00edcia, e v\u00ea que n\u00e3o. \u00c9 um clima de descren\u00e7a total. A gente perde o ch\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>No mesmo hor\u00e1rio em que elogiava a beleza de Clarissa, o capit\u00e3o lan\u00e7ava um \u201cSaudades de vc\u201d para o WhatsApp da estudante Quelem Alves Caetano, 26 anos, com quem havia trocado apenas algumas palavras, dias antes, pelo Facebook. Ela estranhou o tom da abordagem. \u201cTem como sentir saudades de uma pessoa que voc\u00ea n\u00e3o conhece?\u201d, perguntou.<\/p>\n<div id=\"metaslider-id-421\" style=\"max-width: 300px;\" class=\"ml-slider-3-108-0 metaslider metaslider-flex metaslider-421 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default\" role=\"region\" aria-label=\"Baltazar - Quelem\" data-height=\"300\" data-width=\"300\">\n    <div id=\"metaslider_container_421\">\n        <div id=\"metaslider_421\">\n            <ul class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-422 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:18:08\" data-filename=\"quelem1-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/quelem1-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-421 slide-422 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-423 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:18:10\" data-filename=\"quelem2-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/quelem2-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-421 slide-423 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-424 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:18:13\" data-filename=\"quelem3-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/quelem3-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-421 slide-424 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-425 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:18:15\" data-filename=\"quelem4-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/quelem4-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-421 slide-425 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-426 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 22:18:17\" data-filename=\"quelem5-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/quelem5-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-421 slide-426 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; 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Mesmo que nunca tenha encontrado pessoalmente o capit\u00e3o Botelho, saber que um agente do governo tentou abord\u00e1-la sexualmente a fez sentir-se sexualmente abusada. \u201cMe senti violada, insegura e com \u00f3dio em saber que esse tipo de pessoa se acha no direito de entrar na vida das pessoas para colocar algo ou tentar algo sem sua permiss\u00e3o\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Horas depois, Balta disparou um \u201cEu gosto de vc!!\u201d para a coordenadora editorial e militante feminista Eleonora Ducerisier, 37 anos.<\/p>\n<p>Eleonora, que mora em Araraquara, no interior de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m havia conhecido Balta nos grupos de WhatsApp dos protestos e sido assediada por ele logo nas primeiras trocas de mensagem. \u201cFoi acintoso. Ele me disse que era um \u2018leonino fogoso\u2019, mas a data de nascimento dele dizia que era capricorniano. Depois me mandou um v\u00eddeo tocando piano muito mal. Eu cortei esse vi\u00e9s da conversa, mas ele voltou a conversar e disse que estava apaixonado\u201d, relata.<\/p>\n<p>As mensagens de Balta chegaram ao seu celular no come\u00e7o da noite do dia 4 e continuaram durante a madrugada, quando Eleonora voltava para sua cidade. Pela manh\u00e3, tentou explicar que n\u00e3o achava o comportamento dele \u201cmaduro\u201d. Balta pareceu n\u00e3o entender:<\/p>\n<div id=\"metaslider-id-420\" style=\"max-width: 300px;\" class=\"ml-slider-3-108-0 metaslider metaslider-flex metaslider-420 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default\" role=\"region\" aria-label=\"Baltazar - Ass\u00e9dio\" data-height=\"300\" data-width=\"300\">\n    <div id=\"metaslider_container_420\">\n        <div id=\"metaslider_420\">\n            <ul class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-343 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:35:51\" data-filename=\"balta-assedio1-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-assedio1-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-420 slide-343 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-344 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:35:52\" data-filename=\"balta-assedio2-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-assedio2-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-420 slide-344 msDefaultImage\" \/><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-345 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2017-01-30 17:35:53\" data-filename=\"balta-assedio3-300x300.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/balta-assedio3-300x300.jpg\" height=\"300\" width=\"300\" alt=\"\" class=\"slider-420 slide-345 msDefaultImage\" \/><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div>\n<p>Dias depois, quando as reportagens da Ponte Jornalismo e de <em>El Pa\u00eds<\/em> expuseram a identidade do militar, Eleonora sentiu-se \u201ctra\u00edda e perplexa\u201d. \u201cO governo passou dos limites faz tempo, isso me parece claro\u201d, desabafa. \u201cComo mulher, me sinto agredida por um governo que sup\u00f5e que atrav\u00e9s de uma sexualiza\u00e7\u00e3o virtual eu poderia ser uma presa f\u00e1cil. Pra mim, \u00e9 a mesma l\u00f3gica do estupro, do <em>stalker<\/em>, do psicopata. Somos presas, n\u00e3o somos dignas, somos cidad\u00e3s de segunda classe.\u201d<\/p>\n<p>Naquela noite e no dia seguinte, Balta havia procurado diversos militantes para tentar convenc\u00ea-los de que n\u00e3o era um infiltrado. Disse que havia sido preso, sim, mas levado para outra delegacia e libertado ap\u00f3s pagar R$ 1.200 em <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/capitao-willian-o-infiltrado-do-tinder-disse-que-subornou-delegado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">suborno<\/a> para um delegado da Pol\u00edcia Civil. No dia 6 de setembro, quando a <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/infiltrado-do-tinder-que-espionava-manifestantes-e-oficial-do-exercito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reportagem da Ponte<\/a> o procurou via WhatsApp, o capit\u00e3o percebeu que sua m\u00e1scara havia ca\u00eddo. Apagou os perfis de Balta nas redes sociais e disse adeus a todos os contatos, inclusive duas conhecidas do Tinder com quem estava tentando combinar um <em>m\u00e9nage \u00e0 trois<\/em> (\u201cfor\u00e7ando uma barra, sabe?\u201d, segundo uma delas). Avisou que voltaria a Lavras (MG) para cuidar do \u201cpai doente\u201d e pediu: \u201cRezem por mim\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Resposta das autoridades: sil\u00eancio e contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o, a rea\u00e7\u00e3o das autoridades foi lenta e contradit\u00f3ria. No dia seguinte, a Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica do governo Geraldo Alckmin (PSDB) negou em nota \u201ca exist\u00eancia de uma opera\u00e7\u00e3o conjunta na ocasi\u00e3o citada pela reportagem\u201d e afirma que \u201cn\u00e3o conhece o homem apontado pela reportagem como um suposto oficial das For\u00e7as Armadas\u201d. J\u00e1 o comandante-geral do ex\u00e9rcito, general Eduardo da Costa Villas Boas, em entrevista \u00e0 R\u00e1dio Jovem Pan, <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/exercito-confirma-elo-com-gestao-de-alckmin-psdb-para-infiltracao-contra-estudantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">afirmou<\/a> que \u201chouve uma absoluta intera\u00e7\u00e3o com o governo do estado\u201d na pris\u00e3o dos jovens do CCSP, sem dar mais detalhes.<\/p>\n<iframe src=\"\/\/docs.google.com\/viewer?url=http%3A%2F%2Fapublica.org%2Fvigilancia%2Fwp-content%2Fuploads%2F2017%2F01%2Fresposta.pdf&hl=pt_BR&embedded=true\" class=\"gde-frame\" style=\"width:100%; height:500px; border: none;\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<p class=\"gde-text\"><a href=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/resposta.pdf\" class=\"gde-link\">Download (PDF, unknown file size)<\/a><\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Defesa levou mais de tr\u00eas meses para apresentar sua primeira explica\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Resposta-Ivan-Valente.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma resposta a um requerimento de informa\u00e7\u00e3o apresentado pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL)<\/a>. \u201cN\u00e3o houve repasse de informa\u00e7\u00f5es para a PMSP [Pol\u00edcia Militar do Estado de S\u00e3o Paulo] e as pris\u00f5es foram fruto de uma abordagem padr\u00e3o, na qual foram identificados objetos suspeitos\u201d, afirma o of\u00edcio assinado pelo general de divis\u00e3o Tom\u00e1s Miguel Min\u00e9 Ribeiro Paiva, chefe do gabinete do comandante do Ex\u00e9rcito, enviado em 19 de dezembro.<\/p>\n<p>Sobre a atua\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o, o of\u00edcio do Ex\u00e9rcito afirmou que \u201cn\u00e3o h\u00e1 que se falar em infiltra\u00e7\u00e3o, uma vez que o grupo que foi preso, naquela data, n\u00e3o era uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa, mas sim de livre ades\u00e3o\u201d, que \u201cmanifestava-se de maneira ostensiva no ambiente cibern\u00e9tico e nas ruas, podendo receber tantos e quantos fossem os interessados em dele participar\u201d. Para o Ex\u00e9rcito, o capit\u00e3o n\u00e3o violou direitos \u201cao dar a apar\u00eancia de aderir \u00e0 conduta do grupo, nem ao observar-se as suas a\u00e7\u00f5es em tudo aquilo que fez de maneira ostensiva\u201d.<\/p>\n<p>Criadora de um dos grupos, Mara afirma que n\u00e3o era aberto a todos \u2013 a orienta\u00e7\u00e3o era aceitar s\u00f3 quem fosse de esquerda. \u201cNossa inten\u00e7\u00e3o era nos proteger nas manifesta\u00e7\u00f5es\u201d, explica. \u201cT\u00ednhamos muito medo de pessoas infiltradas que pudessem nos trazer problemas e n\u00e3o quer\u00edamos pessoas de direita que pudessem dispersar o grupo\u201d. Segundo ela, Balta s\u00f3 conseguiu se infiltrar no grupo por ter criado um falso perfil de militante de esquerda.<\/p>\n<figure id=\"attachment_463\" aria-describedby=\"caption-attachment-463\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-463\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Clarissa.jpg\" width=\"850\" height=\"567\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-463\" class=\"wp-caption-text\">Clarissa Reche foi assediada por Balta enquanto aguardava not\u00edcias do namorado, um dos 21 detidos em 4 de setembro de 2016 (Foto: Daniel Arroyo\/Ag\u00eancia P\u00fablica)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O of\u00edcio do Ex\u00e9rcito assegura que o capit\u00e3o Botelho estava legalmente autorizado a desenvolver \u201catividades de intelig\u00eancia\u201d em S\u00e3o Paulo. A autoriza\u00e7\u00e3o estaria baseada em dois decretos federais: um, publicado em 8 de agosto, que determinava o emprego das For\u00e7as Armadas para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos Jogos Ol\u00edmpicos e Paral\u00edmpicos Rio 2016, e outro, de 31 de agosto, que estendia a mesma determina\u00e7\u00e3o para a cidade de S\u00e3o Paulo. Adotada tamb\u00e9m pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014 para permitir a ocupa\u00e7\u00e3o militar do Complexo da Mar\u00e9 no Rio durante a Copa do Mundo, a GLO legitima o uso das For\u00e7as Armadas em situa\u00e7\u00f5es de \u201cperturba\u00e7\u00e3o da ordem e amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a das pessoas e ao patrim\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>O documento de resposta do Ex\u00e9rcito afirma que o capit\u00e3o n\u00e3o praticou infiltra\u00e7\u00e3o, mas confirma que h\u00e1 acompanhamento de movimentos sociais: \u201cO acompanhamento, quando executado, \u00e9 realizado no contexto em que s\u00e3o inseridos, a fim de identificar vetores que possam, aproveitando-se de sua legitimidade, promover a\u00e7\u00f5es il\u00edcitas\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as den\u00fancias de ass\u00e9dios sexuais cometidas pelo capit\u00e3o em sua identidade como Balta, o Centro de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Ex\u00e9rcito deu uma resposta de uma linha: \u201cO Ex\u00e9rcito n\u00e3o comenta atividade de foro \u00edntimo de seus integrantes\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Nenhuma puni\u00e7\u00e3o \u00e0 vista<\/strong><\/h3>\n<p>A defesa do capit\u00e3o Botelho convenceu pelo menos a Procuradoria de Justi\u00e7a Militar em S\u00e3o Paulo, do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o, que, em 25 de novembro, arquivou um procedimento investigat\u00f3rio militar aberto para apurar as condutas do capit\u00e3o. <a href=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/MP-Militar.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na sua decis\u00e3o<\/a>, o promotor Lu\u00eds Antonio Grigoletto considerou que \u201cn\u00e3o emergem dos autos quaisquer ind\u00edcios da pr\u00e1tica de ato il\u00edcito\u201d.<\/p>\n<p>Em seu depoimento, o capit\u00e3o afirma que \u201cfora designado para o exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o de observador de intelig\u00eancia\u201d para \u201co acompanhamento da manifesta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao Governo no dia 4 de setembro, por ocasi\u00e3o da passagem da Tocha Paral\u00edmpica na regi\u00e3o da Avenida Paulista\u201d. Segundo o tenente-coronel Edgard Brito de Macedo, comandante da 3\u00aa Companhia de Intelig\u00eancia, superior de Botelho, a miss\u00e3o do capit\u00e3o era \u201cacompanhar as atividades de poss\u00edveis agentes identificados como perturbadores da ordem p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Ele teria se dirigido ao CCSP \u201conde se reuniriam integrantes de um grupo coordenado por interm\u00e9dio de aplicativo e que havia, em manifesta\u00e7\u00e3o anterior, sido identificado como integrado por adeptos das t\u00e1ticas Black Bloc\u201d. Ali, \u201chouve a abordagem dos policiais militares\u201d e o capit\u00e3o foi liberado pela PM depois de ter \u201cse identificado como Oficial do Ex\u00e9rcito\u201d. A decis\u00e3o n\u00e3o menciona as a\u00e7\u00f5es de Botelho anteriores \u00e0quele dia.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Agora, a \u00fanica possibilidade de uma eventual puni\u00e7\u00e3o para as a\u00e7\u00f5es de Botelho est\u00e1 em duas investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. Uma \u00e9 um procedimento investigat\u00f3rio criminal instaurado Procuradoria da Rep\u00fablica em S\u00e3o Paulo, a pedido da C\u00e2mara de Controle Externo da Atividade Policial e Sistema Prisional. A outra investiga\u00e7\u00e3o, conduzida pelo N\u00facleo de Combate \u00e0 Corrup\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, investiga se o capit\u00e3o praticou algum ato de improbidade na pris\u00e3o dos jovens.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_470\" aria-describedby=\"caption-attachment-470\" style=\"width: 850px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-470\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Quelem-1.jpg\" width=\"850\" height=\"567\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-470\" class=\"wp-caption-text\">Quelem Alves Caetano quase marcou um encontro com Balta \u2013 n\u00e3o o fez porque amigos a avisaram do boato de que era infiltrado (Foto: Daniel Arroyo\/Ag\u00eancia P\u00fablica)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma possibilidade remota de punir um abuso que parece claro, conforme palavras do relator para a Liberdade de Express\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, o uruguaio Edison Lanza: \u201cToda intromiss\u00e3o sobre a privacidade deve ser autorizada por ju\u00edzes, durante um prazo determinado e com um objetivo determinado\u201d, disse \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p>Para o relator da OEA, o uso de mecanismos de vigil\u00e2ncia pelo Estado \u00e9 leg\u00edtimo quando se trata de defender os cidad\u00e3os de amea\u00e7as reais, como o crime organizado ou o terrorismo. Mas \u00e9 preciso adotar garantias legais que impe\u00e7am a viola\u00e7\u00e3o de direitos praticada em nome da seguran\u00e7a. \u201cO direito \u00e0 privacidade tem um v\u00ednculo estreito com as liberdades fundamentais. Se voc\u00ea n\u00e3o tem um espa\u00e7o privado para trocar informa\u00e7\u00f5es, para reunir-se, para investigar, etc., dificilmente ter\u00e1 liberdade de express\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<h3><strong>A feiura do mundo<\/strong><\/h3>\n<p>Nos meses seguintes, a m\u00e1quina penal continuou a se mover, ignorando a figura de Willian Pina Botelho, como se fosse t\u00e3o irreal quanto seu alter ego Balta Nunes. O delegado Fabiano Fonseca Carneiro concluiu seu inqu\u00e9rito num relat\u00f3rio que n\u00e3o fazia nenhuma men\u00e7\u00e3o ao militar, mas pedia limites ao direito de manifesta\u00e7\u00e3o no Brasil, afirmando que os \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d corriam o risco de serem impostos a uma \u201cantiditadura\u201d. Em 15 de dezembro, o relat\u00f3rio foi acolhido pelo promotor Fernando Albuquerque Soares de Souza. A den\u00fancia enviada pelo promotor \u00e0 Justi\u00e7a tamb\u00e9m se omite a respeito da participa\u00e7\u00e3o de Botelho e mant\u00e9m a acusa\u00e7\u00e3o de que os presos no CCSP \u201cassociaram-se para a pr\u00e1tica de danos e danos qualificados consistentes na destrui\u00e7\u00e3o, inutiliza\u00e7\u00e3o e deteriora\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico e privado e les\u00f5es corporais em policiais militares\u201d, apresentando como provas frascos de vinagre e materiais de primeiros socorros apreendidos com os jovens. A den\u00fancia est\u00e1 sendo analisada pela ju\u00edza Cecilia Pinheiro da Fonseca, da 3\u00aa Vara Criminal Criminal da Capital e, se for aceita, dar\u00e1 in\u00edcio a um processo judicial contra os jovens.<\/p>\n<p>Para as pessoas presas no CCSP, o mundo se tornou um lugar menor e mais in\u00f3spito ap\u00f3s 4 de setembro. \u201cDepois que fui preso, me afastei dos protestos. Poderia ter prejudicado muito a minha vida. Eu poderia ter pegado anos de cadeia\u201d, diz o tatuador Andr\u00e9.<\/p>\n<p>Mesmo para Mara, que escapou da pris\u00e3o no CCSP gra\u00e7as \u00e0 cobra que se revelou em um sonho, a mera amea\u00e7a bastou para deix\u00e1-la \u201ctraumatizada e totalmente paranoica\u201d. \u201cMe bateu um desespero gigante por imaginar que, se eu tivesse ido \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o e sido presa, eu poderia ter perdido o emprego e a guarda dos meus filhos, tudo de uma vez\u201d, afirma. Hoje, tem receio de compartilhar qualquer opini\u00e3o pol\u00edtica nas redes sociais e desconfia de qualquer pessoa que se aproxime para falar com ela.<\/p>\n<p>Daniela sente que os acontecimentos de 4 de setembro tiveram um efeito devastador, seja pelo medo que passou a acompanh\u00e1-la quando fala ao telefone ou usa as redes sociais, seja nos rem\u00e9dios para dormir que voltou a usar ap\u00f3s anos de sono tranquilo. \u201cArrancaram um peda\u00e7o de mim. N\u00e3o sei o tamanho que isso vai ter na minha vida daqui para frente. S\u00f3 sei que tiraram a minha inoc\u00eancia. Eu senti a feiura do mundo em minha carne. N\u00e3o consigo mais acreditar que o mundo \u00e9 cor-de-rosa.\u201d<\/p>\n<p><strong><em>(*) Nome fict\u00edcio, usado para pessoas que pediram para n\u00e3o serem identificadas. Alguns tamb\u00e9m pediram para n\u00e3o ter a idade divulgada.<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Atualiza\u00e7\u00e3o: O\u00a0artigo afirmava que a GLO foi sancionada em 2014. Na verdade, em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff assinou um decreto de GLO autorizando a ocupa\u00e7\u00e3o militar do complexo da Mar\u00e9 durante a Copa do Mundo.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A estilista Mara*, 31 anos, caminhava por uma casa fr\u00e1gil, de paredes muito finas. Havia uma porta com uma abertura para c\u00e3es, por onde entrou uma cobra. Primeiro o rabo, depois a cabe\u00e7a. Era grande e amarela. A cobra olhou para Mara e falou: \u201cEstou te vigiando. 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