{"id":127,"date":"2017-01-31T09:06:02","date_gmt":"2017-01-31T11:06:02","guid":{"rendered":"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/?page_id=127"},"modified":"2022-06-14T23:20:06","modified_gmt":"2022-06-15T02:20:06","slug":"o-grande-irmao-do-cerrado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/infiltrados\/o-grande-irmao-do-cerrado\/","title":{"rendered":"O Grande Irm\u00e3o do cerrado"},"content":{"rendered":"<p>Um desavisado que ouvisse a hist\u00f3ria de Mia* na certa pensaria estar diante de um daqueles loucos relatos paranoicos que enchem a internet, de gente que afirma carregar chips implantados pela CIA em seus corpos ou sofrer persegui\u00e7\u00e3o de conspira\u00e7\u00f5es envolvendo ma\u00e7ons reptilianos.<\/p>\n<p>Mia, 27 anos, militante feminista e estudante de ci\u00eancias sociais da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), conta que, mesmo sem nunca ter cometido um crime, foi seguida e fotografada pela pol\u00edcia nas ruas e que policiais disfar\u00e7ados se infiltraram entre seus amigos no Facebook para registrar as bobagens que postava e retrat\u00e1-la como uma meliante que \u201cincita \u00e0 viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 paranoia. O conte\u00fado de um relat\u00f3rio secreto do setor da intelig\u00eancia da Pol\u00edcia Militar de Goi\u00e1s, ao qual a reportagem teve acesso, mostra que o relato de Mia \u00e9 real at\u00e9 em seus detalhes mais absurdos. Datado de 1\u00ba de setembro de 2016, o documento mostra que a PM mapeou o Facebook em busca de \u201cposs\u00edveis manifesta\u00e7\u00f5es \u2018Fora Temer\u2019 e\/ou \u2018Contra o Golpe\u2019 ap\u00f3s o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff\u201d programadas para tomar as ruas de Goi\u00e2nia e An\u00e1polis naquela semana.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/vigiados.pdf\">Em seu relat\u00f3rio,<\/a> os policiais buscavam prever os locais por onde os protestos passariam e listavam \u201cv\u00e1rias personalidades que povoam as manifesta\u00e7\u00f5es que acontecem em Goi\u00e2nia e j\u00e1 estiveram presentes em outras manifesta\u00e7\u00f5es que tiveram intercorr\u00eancias e confrontos violentos com a PM\u201d. Al\u00e9m de reunir fotos e links a respeito de cada uma das \u201cpersonalidades\u201d identificadas, o relat\u00f3rio mencionava outras atividades das quais haviam participado: ocupa\u00e7\u00f5es de escolas, greves de professores, reuni\u00f5es do movimento feminista. A lista inclu\u00eda at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o de Mia no movimento \u201cFora Marconi\u201d, lan\u00e7ado por estudantes em 2012, quando a Pol\u00edcia Federal levantou ind\u00edcios de liga\u00e7\u00f5es do governador Marconi Perilo (PSDB) com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-457\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/monitoramento_manifestacoes_nomes.jpg\" width=\"500\" height=\"216\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre os organizadores dos eventos no Facebook, o relat\u00f3rio mencionava informa\u00e7\u00f5es pessoais como endere\u00e7o, n\u00fameros de documentos, telefone e filia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-456\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/monitoramento_manifestacoes_dados_pessoais.jpg\" width=\"500\" height=\"361\" \/><\/p>\n<p>No caso de Mia, o monitoramento ia al\u00e9m. Mostrava uma postagem de 31 de agosto, data do impeachment de Dilma Rousseff (PT), em que a estudante desabafava: \u201cMerecemos uma cerveja gelada e uma boa conversa pra expurgar nossa indigna\u00e7\u00e3o e organizar os pr\u00f3ximos atos na base do molotov e muita desordem\u201d. Na interpreta\u00e7\u00e3o da PM goiana, o post \u201cincita \u00e0 viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-498\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/brincadeira_molotov.png\" alt=\"\" width=\"668\" height=\"272\" \/><\/p>\n<p>Ao ver o relat\u00f3rio da PM, Mia ficou assustada. \u201cEu me sinto com medo. Sinto as r\u00e9deas do Estado, a opress\u00e3o&#8230; Tenho medo do que eles s\u00e3o capazes de fazer\u201d, afirmou. Ao mesmo tempo, achou \u201crid\u00edcula\u201d a interpreta\u00e7\u00e3o do policial. \u201cMeu coment\u00e1rio foi apenas um desabafo em rela\u00e7\u00e3o ao acontecimento da \u00e9poca. Ningu\u00e9m ia tomar cerveja e jogar molotov porque eu convidei. E quase tudo que eu escrevo \u00e9 em tom de brincadeira.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Infiltrado<\/strong><\/h3>\n<p>Um detalhe, por\u00e9m, chama aten\u00e7\u00e3o. O print do post no relat\u00f3rio deixa claro que o coment\u00e1rio de Mia tinha privacidade restrita e s\u00f3 podia ser lido por seus amigos de Facebook. \u201cN\u00e3o resta d\u00favida de que existem policiais travestidos de apoiadores do movimento monitorando nossas contas\u201d, acredita Mia.<\/p>\n<p>No ano passado, ao participar de atos em apoio ao movimento dos estudantes secundaristas goianos, Mia e outros manifestantes flagraram homens tirando fotos suas. Os homens acompanhavam os ativistas durante os atos e depois os seguiam durante parte do caminho de volta para casa. Mia diz ter certeza de que eram policiais do servi\u00e7o reservado, os P2. \u201cEram homens mais velhos, trajando roupa esporte. Foi assim que \u2018ficharam\u2019 a gente\u201d, afirma Mia. Na mesma \u00e9poca, ela soube por outros ativistas que policiais estavam se infiltrando nas suas redes sociais. Pouco depois, a madrinha de Mia recebeu um telefonema no qual uma voz dizia que a estudante seria morta se n\u00e3o parasse de ir a manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois desses eventos, Mia disse ter sentido uma \u201cparanoia\u201d ao suspeitar que estava sendo espionada pelo governo. Sentiu algo ainda pior ao saber que se tratava de uma fantasia, mas de vigil\u00e2ncia real. Passou a ter medo de sair \u00e0 rua e acabou caindo numa \u201cdepress\u00e3o profunda\u201d. Hoje, evita participar de protestos. \u201cTenho medo que algo me aconte\u00e7a pelo simples motivo de integrar um movimento social contra as vontades do Estado. N\u00e3o confio na PM.\u201d<\/p>\n<h3><strong>O \u201cremedinho\u201d do governador<\/strong><\/h3>\n<p>Em 17 de novembro de 2015, o governador Marconi Perilo foi intensamente aplaudido pela plateia de empres\u00e1rios e pol\u00edticos que encheu um evento promovido em Salvador (BA) pela Lide, associa\u00e7\u00e3o empresarial criada pelo atual prefeito de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria (PSDB). Marconi <a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/politica\/noticias\/1727346-goias-vai-terceirizar-a-educacao-apos-experiencia-na-saude\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">defendeu<\/a> como solu\u00e7\u00e3o para o ensino a terceiriza\u00e7\u00e3o das escolas p\u00fablicas, fosse por meio da transfer\u00eancia dos col\u00e9gios para a Pol\u00edcia Militar ou para entidades privadas sem fins lucrativos chamadas de Organiza\u00e7\u00f5es Sociais, as OSs. Defendeu que a terceiriza\u00e7\u00e3o ajudaria a combater \u201csindicatos agressivos\u201d e contou que naquele mesmo ano j\u00e1 havia usado a medida para controlar uma greve de professores: \u201cFui num evento e tinha um grupo de professores radicais da extrema esquerda me xingando. Eu disse: \u2018Tenho um remedinho pra voc\u00eas: Col\u00e9gio Militar e Organiza\u00e7\u00e3o Social. Identifiquei as oito escolas desses professores. Preparei um projeto de lei e em seguida militarizei essas oito escolas. O Brasil est\u00e1 precisando de nego que tenha coragem de enfrentar\u201d. Foi muito aplaudido.<\/p>\n<p>Em 29 de dezembro, o governo publicou seu primeiro edital convocando OSs interessadas em assumir a administra\u00e7\u00e3o de 23 escolas estaduais, como parte de um projeto piloto. Nessa altura, por\u00e9m, a terceiriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 enfrentava uma intensa onda de protestos. Os estudantes goianos foram os primeiros a seguir o exemplo das <a href=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/infiltrados\/guerra-a-primavera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ocupa\u00e7\u00f5es feitas pelos secundaristas de S\u00e3o Paulo<\/a>, movimento que ficou conhecido como Primavera Secundarista. Entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2016, 27 escolas goianas foram ocupadas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_467\" aria-describedby=\"caption-attachment-467\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-467\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/secundaristas-goias.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"532\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-467\" class=\"wp-caption-text\">Ocupa\u00e7\u00e3o no Col\u00e9gio Estadual Lyceu de Goi\u00e2nia, na capital do estado, em janeiro de 2015 (Foto: Valter Campanato\/Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do governo foi buscar a desocupa\u00e7\u00e3o dos col\u00e9gios e as a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia e infiltra\u00e7\u00e3o, segundo os relatos dos estudantes. A primeira desocupa\u00e7\u00e3o feita pela PM teve como alvo o Col\u00e9gio Estadual Ismael Silva de Jesus, na capital goiana, em 25 de janeiro de 2016, e contou com o apoio entusiasmado de um grupo de pais e professores \u2013 pelo menos era o que parecia. \u201cNa porta da escola, vi um homem dar um soco no rosto de um dos alunos. Achei que era um membro da comunidade. Mais tarde, descobri que era um policial infiltrado\u201d, conta o professor de hist\u00f3ria Rafael Saddi, da Universidade Federal de Goi\u00e1s, que foi ao local assim que recebeu den\u00fancias de que alunos estavam sendo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/secundaristasnalutago\/videos\/1718657815087752\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">espancados<\/a> na desocupa\u00e7\u00e3o. \u201cNa porta da escola, encontrei nove alunos que carregavam marcas f\u00edsicas de agress\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O professor Saddi e outros apoiadores dos secundaristas descobriram da pior maneira que havia PMs infiltrados no local. Depois de ter colocado em seu carro tr\u00eas alunos feridos e partir em dire\u00e7\u00e3o ao Instituto M\u00e9dico Legal (IML) para denunciar as agress\u00f5es, Saddi se viu cercado de todos os lados por tr\u00eas autom\u00f3veis. Dos carros, sa\u00edram homens armados que apontaram armas para sua cabe\u00e7a e disseram \u201cagora voc\u00ea dan\u00e7ou, professor\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, os homens n\u00e3o usavam farda nem qualquer identifica\u00e7\u00e3o, mas disseram que eram policiais militares e que Saddi estava sendo preso por associa\u00e7\u00e3o criminosa, dano qualificado e corrup\u00e7\u00e3o de menores. \u201cA escola est\u00e1 toda quebrada e roubada e voc\u00ea agora vai pagar por isso\u201d, teriam dito os policiais \u00e0 paisana. Entre eles, Saddi reconheceu o homem que, minutos antes, havia socado um estudante.<\/p>\n<p>O professor foi levado ao 22\u00ba DP, mas o delegado n\u00e3o cumpriu as amea\u00e7as e <a href=\"http:\/\/www.opopular.com.br\/editorias\/cidade\/professores-detidos-ap%97s-ocupa%8D%8Bo-1.1027815\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">liberou<\/a> todos os alunos e apoiadores depois de t\u00ea-los ouvido.<\/p>\n<p>\u201cNaquele momento, ficou claro para mim que havia uma articula\u00e7\u00e3o entre a Pol\u00edcia Militar e a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Saddi.<\/p>\n<h3><strong>Diretores, olheiros e espi\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>O alcance dessa articula\u00e7\u00e3o foi revelado ap\u00f3s o vazamento de mensagens <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/grande-irmao-goias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de um grupo de WhatsApp<\/a> que reunia as c\u00fapulas da Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e Esporte (Seduce) e da Pol\u00edcia Militar, al\u00e9m de delegados da Pol\u00edcia Civil e do setor de intelig\u00eancia da Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica e Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria.<\/p>\n<p>Batizado de \u201cSOS Escolas\u201d \u2013 numa piada interna com a luta do governo pela implanta\u00e7\u00e3o das OSs na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013, contava com aproximadamente 20 membros, entre eles a secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o, Raquel Teixeira, o comandante-geral da PM goiana, coronel Divino Alves de Oliveira, e o tenente-coronel Ricardo Rocha Batista.<\/p>\n<p>O tenente-coronel foi preso em 2011 pela Pol\u00edcia Federal sob acusa\u00e7\u00e3o de integrar um grupo de exterm\u00ednio que matava moradores de rua em troca de propinas pagas por comerciantes. Mesmo denunciado pelos Minist\u00e9rios P\u00fablicos Estadual e Federal, Rocha foi escolhido, no ano passado, para assumir o Comando do Policiamento da Capital, em Goi\u00e2nia.<\/p>\n<p>No grupo de WhatsApp, era uma das vozes mais entusiasmadas do combate \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es escolares \u2013 e um dos policiais mais elogiados pela secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Revelado inicialmente pela <a href=\"http:\/\/ponte.cartacapital.com.br\/grande-irmao-goias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ponte Jornalismo<\/a>, o conte\u00fado do WhatsApp mostra que o governo goiano transformou os diretores de escolas em espi\u00f5es encarregados de observar cada passo dos estudantes e inform\u00e1-los \u00e0 pol\u00edcia. O grupo foi deletado ainda em outubro do ano passado.<\/p>\n<p>Em caso de protesto de rua, os alunos eram fotografados e suas fotos, postadas no grupo. As conversas tamb\u00e9m d\u00e3o conta de que diretores eram orientados a ter \u201cuma conversa\u201d com aqueles que participassem de manifesta\u00e7\u00f5es. Descrevem tamb\u00e9m que a Seduce infiltrou \u201colheiros\u201d em reuni\u00f5es de sindicato e movimentos sociais para informar tudo o que era falado ali.<\/p>\n<p>Uma mensagem da secret\u00e1ria Raquel Teixeira, de 20 de outubro de 2016, revela a receita adotada pelo governo para evitar novas ocupa\u00e7\u00f5es de escolas: policiais na porta dos col\u00e9gios e press\u00e3o da Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o para cooptar os diretores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-454\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/estrategia.jpg\" width=\"400\" height=\"224\" \/><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 17 de setembro, os membros do grupo de WhatsApp combinaram uma opera\u00e7\u00e3o em larga escala para conter os alunos que, naquele momento, tentavam ocupar o antigo pr\u00e9dio do Col\u00e9gio Jos\u00e9 Carlos de Almeida, hoje sede do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou com uma mensagem na qual o major Pedro Henrique Batista, comandante do Grupo de Radiopatrulha A\u00e9rea (Graer) avisava sobre a ocupa\u00e7\u00e3o e informava que a professora Clea Regina, vice-diretora do Col\u00e9gio da Pol\u00edcia Militar Vasco dos Reis, estava a postos \u201cobservando essa invas\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-447\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao1.jpg\" width=\"400\" height=\"97\" \/><\/p>\n<p>Em seguida, o delegado Germano C\u00e9sar de Castro Melo defende que os estudantes \u201csejam retirados o mais r\u00e1pido poss\u00edvel\u201d, de prefer\u00eancia antes da chegada da \u201cm\u00eddia\u201d. E o major Batista fornece uma poss\u00edvel justificativa legal para o despejo:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-448\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao2.jpg\" width=\"400\" height=\"103\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-449\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao3.jpg\" width=\"400\" height=\"113\" \/><\/p>\n<p>Dali a pouco, \u00e9 a vez do subsecret\u00e1rio metropolitano de Educa\u00e7\u00e3o, Marcelo Ferreira de Oliveira, de dentro da delegacia, comemorar a pris\u00e3o de 55 pessoas durante a tentativa de ocupa\u00e7\u00e3o. Em resposta, a secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o passa orienta\u00e7\u00f5es a Marcelo sobre como fazer a queixa-crime a respeito da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-451\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao5.jpg\" width=\"400\" height=\"180\" \/><\/p>\n<p>Outro coment\u00e1rio do delegado revela que a articula\u00e7\u00e3o entre educadores e policiais militares contra os secundaristas tamb\u00e9m inclu\u00eda a c\u00fapula da Pol\u00edcia Civil:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-452\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao6.jpg\" width=\"400\" height=\"164\" \/><\/p>\n<p>Deten\u00e7\u00f5es feitas e ocupa\u00e7\u00e3o evitada, o tenente-coronel Ricardo Rocha se compromete a livrar o estado das escolas ocupadas, sob aplausos \u2013 em forma de <em>emoticons<\/em>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-453\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/repressao7.jpg\" width=\"400\" height=\"189\" \/><\/p>\n<h3><strong>Nota dez em submiss\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a desocupa\u00e7\u00e3o das escolas, Aic Michel Silva Ara\u00fajo, 17 anos, aluno do Col\u00e9gio Estadual Cec\u00edlia Meireles, em Goi\u00e2nia, conta que ele e outros colegas passaram a sofrer <em>bullying<\/em> de estudantes contr\u00e1rios ao movimento, estimulados pela dire\u00e7\u00e3o da escola. \u201cHoje n\u00e3o fa\u00e7o mais nada no col\u00e9gio porque perdi a voz ali dentro. Fazem muita chacota comigo por eu ser do movimento\u201d, conta. \u201cE a dire\u00e7\u00e3o se recusa a aceitar qualquer projeto que a gente sugere, um sarau, uma feira cultural, uma palestra, e s\u00f3 abra\u00e7a as ideias dos alunos que se dizem parte de um \u2018movimento antissecundarista\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Do lado de fora, em vez da chacota, os alunos enfrentam o medo. Aic explica que v\u00e1rios de seus amigos foram abordados e agredidos por policiais militares nas ruas nas semanas seguintes \u00e0 desocupa\u00e7\u00e3o das escolas, ocorrida em fevereiro. \u201cSabemos que a pol\u00edcia marcou os nossos rostos e est\u00e1 fazendo retalia\u00e7\u00f5es individuais com cada um\u201d, diz.<\/p>\n<h3><strong>Do lado da lei <\/strong><\/h3>\n<p>A Pol\u00edcia Militar goiana n\u00e3o quis responder \u00e0s perguntas da reportagem. Teresa Cristina Ribeiro Costa, chefe de comunica\u00e7\u00e3o setorial da Seduce, reconhece que existiu o grupo de WhatsApp. Segundo ela, a articula\u00e7\u00e3o entre educadores e policiais \u00e9 necess\u00e1ria para combater \u201cgrupos pol\u00edticos e ativistas profissionais que n\u00e3o s\u00e3o pais, professores ou alunos da rede estadual\u201d que \u201cse envolvem no movimento provocando depreda\u00e7\u00f5es e desviando o foco e impedindo o debate democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA pol\u00edcia tem um papel constitucional de preven\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a da sociedade e do patrim\u00f4nio p\u00fablico. Todo o processo de implanta\u00e7\u00e3o da Gest\u00e3o Compartilhada com Organiza\u00e7\u00f5es Sociais (OSs) na Educa\u00e7\u00e3o em Goi\u00e1s se d\u00e1 em clima de absoluta paz. N\u00e3o houve confrontos entre policiais e manifestantes, e a pol\u00edcia vem atuando estritamente no acompanhamento da mobiliza\u00e7\u00e3o, colaborando na media\u00e7\u00e3o do debate e na garantia da ordem p\u00fablica\u201d, afirma Teresa.<\/p>\n<p>Ela garante que todas as comunica\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es do grupo de WhatsApp foram \u201cleg\u00edtimas\u201d e ocorreram \u201cdentro da mais estrita legalidade\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_468\" aria-describedby=\"caption-attachment-468\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-468\" src=\"http:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/escola-ocupada-goiania.jpg\" width=\"800\" height=\"532\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-468\" class=\"wp-caption-text\">Em An\u00e1polis, alunos ocuparam o Col\u00e9gio Estadual Antesina Santana c0ntra a entrega da educa\u00e7\u00e3o para as Organiza\u00e7\u00f5es Sociais (OSs) (Foto: Valter Campanato\/Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O plano de privatiza\u00e7\u00e3o das escolas, no entanto, n\u00e3o saiu do papel. A Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou tr\u00eas vers\u00f5es do edital de chamamento para as OSs, mas todos foram contestados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP) de Goi\u00e1s. Entre as irregularidades apontadas pela promotora Carla Brant, estava o fato de algumas das organiza\u00e7\u00f5es classificadas terem apenas seis meses de exist\u00eancia ou serem dirigidas por pessoas \u201cque, em muitos casos, figuram como r\u00e9us em a\u00e7\u00f5es penais por corrup\u00e7\u00e3o, peculato, desvio de verbas p\u00fablicas e associa\u00e7\u00e3o\u201d. No come\u00e7o de 2017 a ju\u00edza Eliana Xavier Jaime <a href=\"http:\/\/www.mpgo.mp.br\/portal\/noticia\/juiza-acolhe-pedido-do-mp-e-suspende-edital-de-chamamento-de-oss-para-assumir-gestao-de-escolas#.WHeQv_krKUk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acolheu<\/a> pedido liminar feito pelo MP e suspendeu o terceiro edital.<\/p>\n<p>A estudante Raquel Alves, 17 anos, uma das presas na deten\u00e7\u00e3o em massa em 17 de setembro, afirma que a repress\u00e3o pode servir para atemorizar, mas ela prefere us\u00e1-la \u201ccomo alavanca\u201d: \u201cDesde o in\u00edcio eu era ciente de que o que est\u00e1vamos fazendo era perigoso, que ia mexer com gente grande. Mas, se eles est\u00e3o reagindo dessa forma, \u00e9 porque est\u00e1 funcionando\u201d, afirma. E v\u00ea motivos para comemorar: \u201cFui expulsa da escola e perdi o ano letivo, mas foram tr\u00eas editais barrados! Penso que a luta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 necess\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p><strong><em>* O nome foi trocado a pedido da entrevistada. <\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um desavisado que ouvisse a hist\u00f3ria de Mia* na certa pensaria estar diante de um daqueles loucos relatos paranoicos que enchem a internet, de gente que afirma carregar chips implantados pela CIA em seus corpos ou sofrer persegui\u00e7\u00e3o de conspira\u00e7\u00f5es envolvendo ma\u00e7ons reptilianos. Mia, 27 anos, militante feminista e estudante de ci\u00eancias sociais da Universidade &hellip; <a href=\"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/infiltrados\/o-grande-irmao-do-cerrado\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O Grande Irm\u00e3o do cerrado&#8221; <\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":272,"parent":6,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"page_with-infiltration.php","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"coauthors":[30],"class_list":["post-127","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":885,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/127\/revisions\/885"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/apublica.org\/vigilancia\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}