Infiltrados

Botelho, o espião que ninguém amava

A estilista Mara*, 31 anos, caminhava por uma casa frágil, de paredes muito finas. Havia uma porta com uma abertura para cães, por onde entrou uma cobra. Primeiro o rabo, depois a cabeça. Era grande e amarela. A cobra olhou para Mara e falou:

“Estou te vigiando. Eu vou te pegar.”

E deslizou pelos cantos escuros da casa, fugindo da luz do sol. Vigiando e se escondendo, voltou à abertura para cães e desapareceu.

Mara colocou proteções nas janelas e foi abraçar seus dois filhos em um canto da casa.

“Eu voltei, vou te pegar”, disse a cobra, saindo das sombras.

Naquela manhã de 4 de setembro de 2016, Mara acordou se sentindo mal. Levantou-se da cama e foi até o banheiro. Vomitou. O sonho era um aviso, ela sabia. Frequentadora habitual de protestos desde 2013, decidiu que naquele dia ficaria em casa. Às 6h, mandou um recado num grupo de WhatsApp, contando o sonho e dizendo que não iria à manifestação convocada pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular para naquele domingo gritar “Fora Temer” na avenida Paulista, em São Paulo. Tinha algo de errado rondando a manifestação, alguma coisa sinuosa e afeita ao escuro, a ocultar segredos.

A prisão

Daniela* leu sobre os sonhos de Mara no grupo de WhatsApp do qual ambas faziam parte. Mas estava empolgada demais para se importar com devaneios sobre cobras falantes. Ela queria ir para a rua, participar. Criada num ambiente conservador, fazia seis meses que havia mudado de lado, o que lhe rendeu o apelido de “petralha” entre os amigos antigos.

Havia conhecido nas redes sociais pessoas que pensavam como ela e curtia a ideia de irem às ruas gritar “contra o golpe” e “por nenhum direito a menos”. A Secretaria da Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin (PSDB) chegou a declarar que a manifestação daquele domingo estava “proibida” por causa da passagem da Tocha Paralímpica na Paulista, marcada para as 13h30. Para não atrapalhar o evento, a Frente Povo Sem Medo aceitou mudar para 15h o horário do protesto, inicialmente marcado para as 14h.

Daniela conta que tinha pavor da repressão policial, mas a empolgação havia vencido o medo. Marcara de encontrar outros manifestantes na estação de metrô Consolação, na avenida Paulista. Gente que havia conhecido havia menos de uma semana comentavam nos eventos de Facebook que chamavam para o ato. Das páginas abertas, haviam migrado para chats reservados e grupos de WhatsApp.

O temor da violência policial foi o principal motivo para a criação dos grupos virtuais. “A gente quis se unir porque estava com medo de ir sozinho aos protestos”, relembra o tatuador André*, 23 anos.

Os grupos de WhatsApp reuniam dezenas de pessoas sem vínculo com partidos ou outras organizações formais. Havia estudantes do movimento secundarista, militantes “antifascismo” e gente que estava debutando nos protestos, como Daniela. Poucos se conheciam pessoalmente. As conversas eram práticas e ligeiras, a respeito de pontos de encontro, cartazes, rotas de fuga, primeiros socorros.

Para Daniela, apenas uma conversa online havia fugido ao roteiro. Na noite de 3 de setembro, um participante chamado Balta Nunes, com quem ela não havia trocado nem uma dúzia de palavras, chamou-a para um chat privado no Facebook. Começou a elogiar suas fotos e a passar cantadas baratas. Um papo besta. “Balta, você tá carente, velho? Vai tomar uma Heineken”, ela respondeu, encerrando a conversa. E ainda expôs a falta de noção com uma mensagem para o grupo. “Gente, o Balta tá carente”, avisou pelo WhatsApp. Ele não voltou a incomodar e Daniela deixou para lá.

No domingo, Daniela encontrou os demais manifestantes diante do metrô Consolação e dali seguiu para encontrar integrantes de diferentes grupos de WhatsApp no Centro Cultural São Paulo (CCSP), na rua Vergueiro, a três quilômetros dali, para irem ao protesto. O que poderia dar errado?

O primeiro sinal de perigo veio do céu. Caminhando em direção ao CCSP, os manifestantes repararam num helicóptero que parecia segui-los. Pouco antes das 15h, chegaram ao CCSP, onde encontraram outros membros dos grupos virtuais – Balta era um deles.

  • Willian Pina Botelho antes de assumir a identidade de Baltazar Nunes

Foi quando os policiais apareceram.

Pareciam vir de todos os lados, cerca de 30, uniformizados, de armas nas mãos, gritando “levanta” e “encosta”. Daniela viu um PM dar uma chave de braço no pescoço de uma das meninas e o outro socar as costelas de um garoto. Bolsas e mochilas foram abertas e revistadas. Ninguém explicava nada: “Ordens superiores”, diziam.

Ela tomou um susto ao ver o aparato preparado para prendê-los: cerca de dez viaturas policiais e até um ônibus, sem falar no helicóptero. Ficaram um bom tempo enfileirados na calçada, em pé. “Vocês não falavam que era uma ditadura? O sonho de vocês não era ser preso pela ditadura? Tá aí, agora vocês estão sendo presos pela ditadura”, disse um policial.

“Foi tudo muito bizarro mesmo. Eu caí de gaiata, nem entendi que estava sendo presa, porque os policiais não deram voz de prisão”, diz a fotógrafa Janaína Roque, 28 anos, que naquela tarde pretendia participar da segunda manifestação da sua vida. O pior momento para ela foi quando a PM levou as mulheres do grupo – e apenas as mulheres – para uma revista íntima dentro de um banheiro da estação Vergueiro do metrô. “As policiais femininas disseram para a gente tirar toda a roupa. Até a calcinha. E aí a gente tinha que mostrar que não tinha nada [dentro da vagina]”, diz. “Eu me senti humilhada. Essa é a palavra.”

Por volta das 18h, o grupo foi colocado em um ônibus e uma viatura. Eram 21 presos, sendo três adolescentes. O destino não era uma delegacia comum, mas o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), órgão da Polícia Civil que costuma lidar com crimes de alto calibre ligados a organizações criminosas, como roubo de cargas e fraudes financeiras. Cair ali não era um bom sinal.

A caminho do Deic, os manifestantes presos especulavam que aquela prisão – que tinha toda pinta de ser uma armadilha – só poderia ter sido montada por um agente infiltrado nos grupos de Facebook e WhatsApp. Mas foi apenas no estacionamento da delegacia que perceberam um detalhe sinuoso. “O Balta não está aqui”, alguém comentou. Não dava para entender por quê. Só podia haver uma explicação.

Numa das últimas mensagens que mandou ao grupo de WhatsApp antes que o Deic confiscasse seu celular, Daniela avisou: “O infiltrado é o Balta”.

Os assédios do capitão

Balta Nunes nunca existiu. Após a prisão dos 21 jovens, reportagens publicadas pela Ponte Jornalismo e por El País revelaram que era um personagem inventado pelo capitão de inteligência do Exército Willian Pina Botelho. Mentindo sobre seu nome e história de vida, o oficial passou dois anos monitorando os movimentos sociais em São Paulo e participando tanto de protestos de rua como de encontros e reuniões fechadas.

Natural de Lavras (MG), Botelho formou-se em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), e concluiu o mestrado em Operações Militares na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. As primeiras referências à sua atuação como Balta datam de 2014.

Em dezembro daquele ano, o capitão criou o perfil falso de Balta Nunes no Facebook. Numa conversa com um socorrista do Grupo de Apoio ao Protesto Popular (Gapp), Balta contou que começou a frequentar os movimentos sociais logo após chegar a São Paulo, na “época da Copa” – em junho e julho de 2014. Na internet e em manifestações de rua, apresentava-se como um iniciante com vontade de aprender. Era um trabalho que ia além da mera observação: ele queria ser “aceito” e visto como alguém que tinha “uma vida de militância”.

“Da primeira vez em que nos vimos, Balta disse que me conhecia do Facebook e começamos a conversar. Ele me pareceu uma pessoa de esquerda com posições moderadas, que estava começando na militância”, conta um ativista do Terra Livre, movimento de luta por terra e moradia, que pediu para não ser identificado. Em setembro de 2015, Balta participou da compra de 15 banquinhos de plástico para o grupo, em troca da promessa de um dia visitar uma ocupação – o que não aconteceu.

No mesmo ano, o capitão participou também de reuniões da Frente Povo Sem Medo e de um encontro chamado Comunicadores Sem Medo, em 4 e 5 de junho numa das casas do coletivo Fora do Eixo, segundo denúncia da Mídia Ninja.

Enquanto viveu como Balta, o capitão Botelho morou no apartamento 906 da avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3249, registrado em nome do general de brigada Manoel Morata Almeida, primeiro-comandante da Base e Administração e Apoio do Ibirapuera e ex-capitão do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), ele próprio um participante, segundo El País, de ações de infiltramento contra estudantes nos anos finais da ditadura militar.

Funcionários do prédio ouvidos pela reportagem confirmaram que conheciam Botelho pelo nome verdadeiro e sabiam que era do Exército. Fora do edifício, o capitão costumava dizer que trabalhava em cargos genéricos: gestor, consultor, gerente de projetos. A pelo menos uma pessoa, disse que trabalhava numa consultoria de segurança que atuaria na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos.

O tatuador André havia cruzado com Botelho/Balta em protestos de rua e se lembra da sua falta de habilidade para puxar papo. “Eu achava ele meio bobão, tentando puxar assunto de uma forma meio forçada”, afirma. “Ele foi num protesto com um uniforme Adidas completo, sabe? Destoava. Enquanto todos ali estavam meio punk”, recorda o empresário Erico Perrela, 25 anos, que também foi preso em setembro.

Um dos principais métodos de monitoramento usado pelo capitão era a aproximação com as mulheres, por meio de ações que frequentemente descambavam para o assédio sexual. Uma de suas frentes de batalha era o aplicativo de paquera Tinder, em que se exibia numa foto de sunga, os cabelos desgrenhados que deixou crescer sobre o antigo corte militar, rente, e usava frases com um alegre sabor progressista: uma, sem atribuição de autoria, de Rosa Luxemburgo (“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”), e outra, em inglês, falsamente atribuída a Karl Marx (“Democracia é o caminho para o socialismo”). As citações ajudavam a atrair o interesse de mulheres que se identificavam com ideias de esquerda. “Apoio totalmente suas ideias!” foram as primeiras palavras ditas por uma programadora cultural para Balta no Tinder, um mês antes da prisão dos jovens no CCSP. Muitas vezes, contudo, a abordagem não dava resultado. “Cruzei com esse cara no Tinder e realmente tinha me soado esquisito, meio forçado. Ele foi logo perguntando de uma conhecida em comum, que é bem militante. Achei bizarro e desconversei, nunca mais falei com ele”, conta uma servidora municipal.

Nas conversas online, o capitão saía fazendo declarações de afeto e insinuações sexuais para mulheres que havia acabado de conhecer. Muitas das suas tentativas fracassavam. “Você é uma feminista que acho bonita”, “estou esperando você aqui, enrolado no cobertor” e “quando você olha para mim, você se sente atraída?” foram algumas das frases que lançou, via redes sociais, para cinco mulheres em 2015, conforme print das mensagens publicadas pela Mídia Ninja.

“As meninas ele cantava mesmo, chamava no privado”, lembra Mara sobre o comportamento de Balta nos grupos online. Se com os homens o capitão ainda ensaiava algumas conversas tímidas sobre política, nos papos com as mulheres logo partia para tentativas de sedução, fazendo elogios. Se a interlocutora trabalhava com artes, Balta dizia que adorava artistas, pois “são livres de tabu”; se fazia pole dance, derretia-se soltando um “não imagino como é ter uma namorada que faz pole dance, você me emociona”. Tentava se mostrar uma pessoa aberta, dizendo, por exemplo, que a convivência com “o público LGBT” o havia deixado “mais tolerante”. Mesmo sem qualquer intimidade, vinha logo com “eu gosto de você” ou “saudades de você”. Dizia “estou carente” e, se a interlocutora não reclamasse de cara, completava com “você também está carente de carinho”.

“Esse tempo, felizmente, já passou”

Os jovens presos no dia 4 ficaram detidos no Deic até a tarde seguinte. O delegado decidiu indiciar os 18 adultos por associação criminosa e corrupção de menores. Cada um dos dois crimes podia render até quatro anos de reclusão. Para a imprensa, o chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Dimitrios Fyskatoris, pintou-os como membros de um grupo organizado e violento, que teria espalhado “várias células” pela cidade com o objetivo de promover “atos de hostilidade e desordem”.

Na tarde do dia 5, porém, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo determinou o relaxamento da prisão durante a audiência de custódia (destinada a definir se suspeitos presos podem responder aos processos em liberdade) no Fórum Central Criminal da Barra Funda. O juiz afirmou que não havia ilegalidade na posse de qualquer dos objetos apreendidos com eles, como vinagre e material de primeiros socorros, e que não havia indícios de que os jovens tivessem intenção de praticar algum delito. Comparou a ação do governo paulista à ditadura militar: “O Brasil como Estado Democrático de Direito não pode legitimar a atuação policial de praticar verdadeira ‘prisão para averiguação’ sob o pretexto de que estudantes reunidos poderiam, eventualmente, praticar atos de violência e vandalismo em manifestação ideológica. Esse tempo, felizmente, já passou”.

Violadas

Você e Balta Nunes agora são amigos no Facebook.

A mensagem apareceu na tela do celular da hostess Clarissa Reche, 29 anos, na mesma noite da prisão. Fazia seis horas que ela estava postada diante do Deic aguardando por notícias do namorado, Erico Perrela, um dos 21 detidos. A jovem não havia ido ao protesto nem fazia parte dos grupos de WhatsApp onde, àquela altura, o nome de Balta já aparecia como “infiltrado”.

Por isso, Clarissa não estranhou quando o desconhecido a adicionou no Facebook, por volta da meia-noite, contando que havia sido preso ao lado dos outros manifestantes e levado para uma delegacia diferente. Passados 15 minutos, Balta começou a assediá-la. “Ele disse que tinha visto minhas fotos no Face e me achado bonita. Perguntou se eu ia nas manifestações, porque nas manifestações não tinha meninas bonitas como eu. Até perguntou se eu queria sair com ele no dia seguinte”, conta Clarissa. Ela apenas o ignorou.

Dias depois, quando descobriu que era um capitão do Exército pago para fazer aquilo, Clarissa disse ter sentido “nojo”. “Como mulher, eu me sinto abusada. Como assim é permitido que o Estado use como tática xavecar meninas? Com quantas meninas ele saiu pra conseguir informação? É um machismo institucionalizado, um atentado contra todas as mulheres”, ataca. “A gente cresce achando que pode confiar no Estado, na polícia, e vê que não. É um clima de descrença total. A gente perde o chão.”

No mesmo horário em que elogiava a beleza de Clarissa, o capitão lançava um “Saudades de vc” para o WhatsApp da estudante Quelem Alves Caetano, 26 anos, com quem havia trocado apenas algumas palavras, dias antes, pelo Facebook. Ela estranhou o tom da abordagem. “Tem como sentir saudades de uma pessoa que você não conhece?”, perguntou.

Quelem aceitou marcar um encontro, que só não aconteceu porque foi avisada do boato que corria sobre o pretendente:

“Fiquei com muito medo”, conta. Mesmo que nunca tenha encontrado pessoalmente o capitão Botelho, saber que um agente do governo tentou abordá-la sexualmente a fez sentir-se sexualmente abusada. “Me senti violada, insegura e com ódio em saber que esse tipo de pessoa se acha no direito de entrar na vida das pessoas para colocar algo ou tentar algo sem sua permissão”, desabafa.

Horas depois, Balta disparou um “Eu gosto de vc!!” para a coordenadora editorial e militante feminista Eleonora Ducerisier, 37 anos.

Eleonora, que mora em Araraquara, no interior de São Paulo, também havia conhecido Balta nos grupos de WhatsApp dos protestos e sido assediada por ele logo nas primeiras trocas de mensagem. “Foi acintoso. Ele me disse que era um ‘leonino fogoso’, mas a data de nascimento dele dizia que era capricorniano. Depois me mandou um vídeo tocando piano muito mal. Eu cortei esse viés da conversa, mas ele voltou a conversar e disse que estava apaixonado”, relata.

As mensagens de Balta chegaram ao seu celular no começo da noite do dia 4 e continuaram durante a madrugada, quando Eleonora voltava para sua cidade. Pela manhã, tentou explicar que não achava o comportamento dele “maduro”. Balta pareceu não entender:

Dias depois, quando as reportagens da Ponte Jornalismo e de El País expuseram a identidade do militar, Eleonora sentiu-se “traída e perplexa”. “O governo passou dos limites faz tempo, isso me parece claro”, desabafa. “Como mulher, me sinto agredida por um governo que supõe que através de uma sexualização virtual eu poderia ser uma presa fácil. Pra mim, é a mesma lógica do estupro, do stalker, do psicopata. Somos presas, não somos dignas, somos cidadãs de segunda classe.”

Naquela noite e no dia seguinte, Balta havia procurado diversos militantes para tentar convencê-los de que não era um infiltrado. Disse que havia sido preso, sim, mas levado para outra delegacia e libertado após pagar R$ 1.200 em suborno para um delegado da Polícia Civil. No dia 6 de setembro, quando a reportagem da Ponte o procurou via WhatsApp, o capitão percebeu que sua máscara havia caído. Apagou os perfis de Balta nas redes sociais e disse adeus a todos os contatos, inclusive duas conhecidas do Tinder com quem estava tentando combinar um ménage à trois (“forçando uma barra, sabe?”, segundo uma delas). Avisou que voltaria a Lavras (MG) para cuidar do “pai doente” e pediu: “Rezem por mim”.

Resposta das autoridades: silêncio e contradições

Após a exposição do capitão, a reação das autoridades foi lenta e contraditória. No dia seguinte, a Secretaria da Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin (PSDB) negou em nota “a existência de uma operação conjunta na ocasião citada pela reportagem” e afirma que “não conhece o homem apontado pela reportagem como um suposto oficial das Forças Armadas”. Já o comandante-geral do exército, general Eduardo da Costa Villas Boas, em entrevista à Rádio Jovem Pan, afirmou que “houve uma absoluta interação com o governo do estado” na prisão dos jovens do CCSP, sem dar mais detalhes.

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O Ministério da Defesa levou mais de três meses para apresentar sua primeira explicação: uma resposta a um requerimento de informação apresentado pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL). “Não houve repasse de informações para a PMSP [Polícia Militar do Estado de São Paulo] e as prisões foram fruto de uma abordagem padrão, na qual foram identificados objetos suspeitos”, afirma o ofício assinado pelo general de divisão Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, chefe do gabinete do comandante do Exército, enviado em 19 de dezembro.

Sobre a atuação do capitão, o ofício do Exército afirmou que “não há que se falar em infiltração, uma vez que o grupo que foi preso, naquela data, não era uma organização criminosa, mas sim de livre adesão”, que “manifestava-se de maneira ostensiva no ambiente cibernético e nas ruas, podendo receber tantos e quantos fossem os interessados em dele participar”. Para o Exército, o capitão não violou direitos “ao dar a aparência de aderir à conduta do grupo, nem ao observar-se as suas ações em tudo aquilo que fez de maneira ostensiva”.

Criadora de um dos grupos, Mara afirma que não era aberto a todos – a orientação era aceitar só quem fosse de esquerda. “Nossa intenção era nos proteger nas manifestações”, explica. “Tínhamos muito medo de pessoas infiltradas que pudessem nos trazer problemas e não queríamos pessoas de direita que pudessem dispersar o grupo”. Segundo ela, Balta só conseguiu se infiltrar no grupo por ter criado um falso perfil de militante de esquerda.

Clarissa Reche foi assediada por Balta enquanto aguardava notícias do namorado, um dos 21 detidos em 4 de setembro de 2016 (Foto: Daniel Arroyo/Agência Pública)

 

O ofício do Exército assegura que o capitão Botelho estava legalmente autorizado a desenvolver “atividades de inteligência” em São Paulo. A autorização estaria baseada em dois decretos federais: um, publicado em 8 de agosto, que determinava o emprego das Forças Armadas para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, e outro, de 31 de agosto, que estendia a mesma determinação para a cidade de São Paulo. Adotada também pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014 para permitir a ocupação militar do Complexo da Maré no Rio durante a Copa do Mundo, a GLO legitima o uso das Forças Armadas em situações de “perturbação da ordem e ameaça à segurança das pessoas e ao patrimônio”.

O documento de resposta do Exército afirma que o capitão não praticou infiltração, mas confirma que há acompanhamento de movimentos sociais: “O acompanhamento, quando executado, é realizado no contexto em que são inseridos, a fim de identificar vetores que possam, aproveitando-se de sua legitimidade, promover ações ilícitas”.

Sobre as denúncias de assédios sexuais cometidas pelo capitão em sua identidade como Balta, o Centro de Comunicação Social do Exército deu uma resposta de uma linha: “O Exército não comenta atividade de foro íntimo de seus integrantes”.

Nenhuma punição à vista

A defesa do capitão Botelho convenceu pelo menos a Procuradoria de Justiça Militar em São Paulo, do Ministério Público da União, que, em 25 de novembro, arquivou um procedimento investigatório militar aberto para apurar as condutas do capitão. Na sua decisão, o promotor Luís Antonio Grigoletto considerou que “não emergem dos autos quaisquer indícios da prática de ato ilícito”.

Em seu depoimento, o capitão afirma que “fora designado para o exercício da função de observador de inteligência” para “o acompanhamento da manifestação contrária ao Governo no dia 4 de setembro, por ocasião da passagem da Tocha Paralímpica na região da Avenida Paulista”. Segundo o tenente-coronel Edgard Brito de Macedo, comandante da 3ª Companhia de Inteligência, superior de Botelho, a missão do capitão era “acompanhar as atividades de possíveis agentes identificados como perturbadores da ordem pública”.

Ele teria se dirigido ao CCSP “onde se reuniriam integrantes de um grupo coordenado por intermédio de aplicativo e que havia, em manifestação anterior, sido identificado como integrado por adeptos das táticas Black Bloc”. Ali, “houve a abordagem dos policiais militares” e o capitão foi liberado pela PM depois de ter “se identificado como Oficial do Exército”. A decisão não menciona as ações de Botelho anteriores àquele dia.

Agora, a única possibilidade de uma eventual punição para as ações de Botelho está em duas investigações do Ministério Público Federal. Uma é um procedimento investigatório criminal instaurado Procuradoria da República em São Paulo, a pedido da Câmara de Controle Externo da Atividade Policial e Sistema Prisional. A outra investigação, conduzida pelo Núcleo de Combate à Corrupção de São Paulo, investiga se o capitão praticou algum ato de improbidade na prisão dos jovens.

Quelem Alves Caetano quase marcou um encontro com Balta – não o fez porque amigos a avisaram do boato de que era infiltrado (Foto: Daniel Arroyo/Agência Pública)

 

É uma possibilidade remota de punir um abuso que parece claro, conforme palavras do relator para a Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos, o uruguaio Edison Lanza: “Toda intromissão sobre a privacidade deve ser autorizada por juízes, durante um prazo determinado e com um objetivo determinado”, disse à reportagem.

Para o relator da OEA, o uso de mecanismos de vigilância pelo Estado é legítimo quando se trata de defender os cidadãos de ameaças reais, como o crime organizado ou o terrorismo. Mas é preciso adotar garantias legais que impeçam a violação de direitos praticada em nome da segurança. “O direito à privacidade tem um vínculo estreito com as liberdades fundamentais. Se você não tem um espaço privado para trocar informações, para reunir-se, para investigar, etc., dificilmente terá liberdade de expressão”, explica.

A feiura do mundo

Nos meses seguintes, a máquina penal continuou a se mover, ignorando a figura de Willian Pina Botelho, como se fosse tão irreal quanto seu alter ego Balta Nunes. O delegado Fabiano Fonseca Carneiro concluiu seu inquérito num relatório que não fazia nenhuma menção ao militar, mas pedia limites ao direito de manifestação no Brasil, afirmando que os “cidadãos de bem” corriam o risco de serem impostos a uma “antiditadura”. Em 15 de dezembro, o relatório foi acolhido pelo promotor Fernando Albuquerque Soares de Souza. A denúncia enviada pelo promotor à Justiça também se omite a respeito da participação de Botelho e mantém a acusação de que os presos no CCSP “associaram-se para a prática de danos e danos qualificados consistentes na destruição, inutilização e deterioração do patrimônio público e privado e lesões corporais em policiais militares”, apresentando como provas frascos de vinagre e materiais de primeiros socorros apreendidos com os jovens. A denúncia está sendo analisada pela juíza Cecilia Pinheiro da Fonseca, da 3ª Vara Criminal Criminal da Capital e, se for aceita, dará início a um processo judicial contra os jovens.

Para as pessoas presas no CCSP, o mundo se tornou um lugar menor e mais inóspito após 4 de setembro. “Depois que fui preso, me afastei dos protestos. Poderia ter prejudicado muito a minha vida. Eu poderia ter pegado anos de cadeia”, diz o tatuador André.

Mesmo para Mara, que escapou da prisão no CCSP graças à cobra que se revelou em um sonho, a mera ameaça bastou para deixá-la “traumatizada e totalmente paranoica”. “Me bateu um desespero gigante por imaginar que, se eu tivesse ido à manifestação e sido presa, eu poderia ter perdido o emprego e a guarda dos meus filhos, tudo de uma vez”, afirma. Hoje, tem receio de compartilhar qualquer opinião política nas redes sociais e desconfia de qualquer pessoa que se aproxime para falar com ela.

Daniela sente que os acontecimentos de 4 de setembro tiveram um efeito devastador, seja pelo medo que passou a acompanhá-la quando fala ao telefone ou usa as redes sociais, seja nos remédios para dormir que voltou a usar após anos de sono tranquilo. “Arrancaram um pedaço de mim. Não sei o tamanho que isso vai ter na minha vida daqui para frente. Só sei que tiraram a minha inocência. Eu senti a feiura do mundo em minha carne. Não consigo mais acreditar que o mundo é cor-de-rosa.”

(*) Nome fictício, usado para pessoas que pediram para não serem identificadas. Alguns também pediram para não ter a idade divulgada.

Atualização: O artigo afirmava que a GLO foi sancionada em 2014. Na verdade, em 2014 a ex-presidente Dilma Rousseff assinou um decreto de GLO autorizando a ocupação militar do complexo da Maré durante a Copa do Mundo.

  • Marcio Ramos

    Muito boa a matéria.

    Milico covarde desqualificado este Botelho, um tremendo pau mandado. Servi as Forças Armadas e me deparei com muita ignorância, racismo, preconceito e a corrupção. Milico faz nada, recebem fim do mês o soldo e poucos ali tem vocação para o serviço militar. Os gays sofrem, tanto é assim que o Capitão S. Lopes foi pego na Augusta em “sauna for men” e despachado sei lá pra onde. Bons exemplos eu não vi.

    • Roberta Cristina Passos Gonçal

      Em qualquer profissão é assim… sempre tem vermes como o “Balta”. Felizmente sempre na mesma proporção em que as aberrações surgem na natureza.

  • Marcio Filho

    Parabéns pela reportagem. Esse episódio não pode ser esquecido. A palhaçada foi total. E quanta incompetência desse botininha! Que mestrado é esse que ele tem? Quanto dinheiro público jogado no lixo. E o promotor ainda apresenta a denúncia? É o fim da picada…

  • Jose Luiz

    Se não fosse militar, qual seria a relevância desse cara? O que ele fez de errado ou diferente de qualquer homem querendo participar e se envolver com uma mulher? Ah mas ele estava trabalhando. Ué mais um motivo para ser o mais “normal” possível. Quem foi assediada, vai dizer que não passa por situações muito piores e nem por isso vira história para contar às pessoas. Na verdade se não quer ter nenhum tipo de problema melhor não sair de casa e jogar fora o celular e o computador. Pelos relatos tá mais pra mimimi do que caso de polícia. Se tivesse ocorrido algum ato violento, ai sim seria caso de polícia.

    • IP

      “o uso de mecanismos de vigilância pelo Estado é legítimo quando se trata de defender os cidadãos de ameaças reais, como o crime organizado ou o terrorismo”

      A questão não foi o que ele fez. E sim a intenção do que fez.

      Estado que usa táticas de vigilância para sabotar dissidência é Estado totalitário. Mas isso não é nenhuma novidade, só ver as manifestações ontem onde professores sem receber salário foram currados pela polícia.

      • Thaís Sêco

        Estado que usa táticas de vigilância para sabotar dissidência é Estado totalitário.

        Isso!

    • Roberta Cristina Passos Gonçal

      Espero que esse comentário seja apenas o fruto da ignorância, porque esse tipo de discurso,
      vindo de uma pessoa que ignora as proporções do dano causado à democracia e ao estado de direito por práticas nefastas, como as desse caso, eu até poderia considerar como perdoável…

  • Thaís Sêco

    Existe uma diferença entre a repressão ostensiva e brutal à liberdade de manifestação e a repressão ardilosa perpetrada por meio de “infiltrações” deste tipo. Basta ver qual foi o efeito: pessoas dispostas inclusive a enfrentar a truculência da polícia, se sentem inseguras e vulneráveis e desistem de se reunir para programar novos protestos. Em ambos os casos há repressão, mas no primeiro o governo tem que arcar com os custos de sua imagem perante a sociedade como violento. A cada notícia de novas repressões vamos nos dando conta de que não somos realmente uma democracia. Já na técnica da serpente que rasteja, não se constroi perante a sociedade a imagem do governo repressor de posturas anti-democráticas. O que se constrói é uma aparência de estabilidade. A aparência de que as pessoas que discordam poderiam manifestar sua discordância, mas não estão suficientemente motivadas para isso. Porque, afinal, a opinião pública não está vendo a serpente que ameaça quem quer se manifestar. Para isso, não se pode aguardar uma manifestação para reprimi-la, dando a todos a consciência da violação à liberdade de manifestação – e à integridade física dos manifestantes. É preciso reprimir a manifestação antes que ela aconteça – a inovação é a violação à integridade psicológica dos manifestantes. É só ver o efeito da “operação” de infiltração: as pessoas estão se sentindo inseguras para se associarem com fins de organizarem novas manifestações. Provavelmente, nada disso foi realmente planejado por quem formulou a “operação”. Mas sem dúvida houve a intenção de gerar qualquer mal estar, e o mal estar gerado foi este. Isso tem efeito de dispersar, já não as manifestações, mas as próprias associações em que elas são planejadas. E dispersadas essas associações, algum cidadão igualmente inconformado com o governo acaba por não ter a quem se juntar ou, querendo se juntar, acaba por não ser aceito, pelo temor de que seja um infiltrado, enfraquecendo-se também a força que a pauta divergente poderia ter ao se colocar.

    Regredimos um pouco mais como democracia com este episódio.