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Reportagem

WikiLeaks: Os momentos finais do Cablegate

Como uma série de erros levou à publicação sem edição de milhares de documentos diplomáticos dos EUA

Reportagem
2 de setembro de 2011
19:55
Este artigo tem mais de 15 anos

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O clima em Ellingham Hall, o casarão georgiano onde Julian Assange se encontra em prisão domiciliar no interior da Inglaterra, foi descrito como “triste” nos últimos dias. Por conta de uma cadeia de eventos inesperados, a organização decidiu publicar nesta quinta-feira os 251.287 documentos das embaixadas americanas provenientes de todo o mundo.

Foi um final apressado para o maior projeto já conduzido pela organização e um dos vazamentos de documentos mais significativos da história do jornalismo.

Ao contrário do que ocorreu nas divulgações anteriores dos documentos, quando estes eram checados e seguiam um cronograma de publicação controlado pela organização, metade desses telegramas contém o nome de todos os envolvidos nos comunicados das embaixadas, incluindo aqueles que o Wikileaks preferia proteger para evitar que sofressem eventuais represálias.

Os telegramas começaram a ser publicados no final do ano passado com a parceria de dezenas de veículos internacionais, que ajudavam a eliminar os nomes dos que poderiam ter sua segurança ameaçada pelos documentos vazados. Os parceiros se comprometiam a ler todos os documentos antes de submetê-los à publicação pelo site do WikiLeaks, o que ocorria simultaneamente à publicação dos órgãos de imprensa.

Eram os parceiros que avisavam à organização se haviam retirados nomes ou se o documento poderia ser publicado na íntegra.

O complicado sistema de publicação cooperativa, que depois de seis meses envolvia mais de 50 veículos de todo o mundo, foi uma novidade para o jornalismo internacional e para o próprio WikiLeaks. A organização garante que ninguém jamais sofreu violência por ter tudo seu nome exposto pelo site, embora tenha sido acusada de colocar vidas em risco por ter publicado documentos que traziam o nome de informantes do exército americano no Iraque.

Eu mesma fui treinada para lidar com o programa e explicar cuidadosamente para os jornais parceiros – do Brasil e de outros países da América Latina – a importância de cuidar para que os nomes de defensores de direitos humanos fossem retirados. As embaixadas americanas costumam ouvir políticos, empresários, embaixadores estrangeiros, jornalistas, além de ativistas de direitos humanos. O WikiLeaks sempre manteve uma política de omitir apenas os nomes dos últimos.

“Queremos proteger aquelas pessoas que vão até a embaixada americana para denunciar abusos e violações de direitos, em especial em países com ditaduras. São pessoas que não têm como se defender e que podem sofrer ameaças à sua integridade física ou de processos legais injustos por terem seus nomes expostos. Queremos proteger os que não podem se proteger sozinhos”, explicou Julian quando recebi os documentos brasileiros.

No Brasil

Foi a mesma orientação que eu passei para os jornais Folha de S Paulo e Globo, ainda em dezembro do ano passado. Tratava-se, claro, de uma orientação que teria mais importância em regimes opressivos e ditatoriais, onde a embaixada americana serve de fato como interlocutor para ativistas. No caso do Brasil, todos concordamos em retirar apenas um nome, de um membro de uma respeitada organização de direitos humanos. Todos os outros nomes – assim como os de muitos outros informantes de embaixadas de todo o mundo – foram publicados.

Foi assim que o público brasileiro pôde saber, por exemplo, que o ex-senador Heráclito Fortes era informante freqüente da embaixada em reportagem publicada pelo Globo, pela Folha e por mim em janeiro deste ano; que o assessor do ex-ministro Palocci, Sergio Bath, conversou diversas vezes com a embaixada durante a crise de 2006 e que o próprio ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, era tratado como uma fonte a ser “estritamente protegida”.

Todos esses nomes já estavam publicados desde o começo do ano. Em julho, todos os documentos referentes ao Brasil foram publicados pelo WikiLeaks.

Os lances finais

O WikiLeaks decidiu publicar todos os documentos agora  porque o jornal alemão Freitag publicou uma reportagem na semana passada anunciando ter acessado o conteúdo integral de todos os documentos a partir de um arquivo criptografado disponível na internet. Segundo a revista alemã Der Spiegel, o ex-associado de Julian Assange, Daniel Domscheit-Berg, teria ajudado a Freitag a encontrar esse arquivo para provar que o site do Wikileaks não era tão confiável e seguro quanto Assange dizia.

Desde que saiu da organização, em meados do ano passado, Daniel tem sido o maior crítico e maior inimigo de Assange. Ele chegou a publicar um livro com acusações pessoais contra o ex-sócio, e fundou outra organização para concorrer com o WikiLeaks – o OpenLeaks.

O fato é que o arquivo se tornou público graças a uma cadeia de erros de diversos atores; uma espécie de “falha colaborativa”.

Assange criou uma senha para o arquivo dos documentos que ele colocou em um servidor, explica a Der Spiegel. A senha se completava com uma palavra que foi entregue aos cinco veículos que fizeram a parceria inicial com o WikiLeaks: New York Times, El Pais, Guardian, Le Monde e a própria Spiegel.

Em algum momento, ainda no início do projeto Cablegate, esse arquivo foi colocado na rede torrent para proteger os dados e fazer com que fosse impossível retirá-los da internet. Não está claro quem colocou o arquivo na internet, mas ele estava escondido dentro de um subdiretório oculto e criptografado – apenas quem tivesse a senha poderia acessá-lo.

Em janeiro deste ano, no entanto, os jornalistas David Leigh e Luke Harding publicaram a senha utilizada por eles no livro “WikiLeaks: dentro da guerra de Julian Assange. Ainda assim, o segredo se manteve durante mais de seis meses, até a publicação do jornal alemão.

O WikiLeaks reagiu chamando o Guardian de “negligente” e publicou um comentário irônico sobre o livro pelo twitter: “A única coisa que o jornal tinha que soletrar corretamente no livro era justamente a senha”. O Guardian, como os outros parceiros internacionais, havia assinado um termo de confidencialidade que proibia a revelação de detalhes de segurança da operação. Como a senha.

Em editorial, o Guardian alegou que o livro continha  a senha, mas nenhuma indicação sobre onde encontrar o arquivo: “Era um pedaço de informação sem qualquer sentido a não ser para quem criou o arquivo”, alegou.

Desde a semana passada, porém, começaram a circular informações na internet sobre como ligar as duas coisas.

Grupos de transparência hacker que já acusavam o WikiLeaks de “conservadorismo” por retirar os nomes dos ativistas em risco decidiram postar todos os documentos. “Em breve vamos disponibilizar todos os telegramas, na íntegra – não podemos defender a liberdade de informação apenas quando achamos conveniente”, escreveu a comunidade hacker Anapnea na noite da quarta-feira.

Os documentos começaram a circular na Internet e, na noite da quinta-feira passada, o Wikileaks decidiu publicar todo o conteúdo dos telegramas no seu site – 15.652 documentos secretos, 101.748 confidenciais e 133.887 não classificados – provenientes de 247 embaixadas americanas em todo o mundo. Um material e tanto para jornalistas investigativos, pesquisadores, historiadores e ativistas.

Na sexta-feira, em um comunicado conjunto, os primeiros parceiros do WikiLeaks – o Guardian, o El Pais, o Der Spiegel e o Le Monde – “deploraram” a publicação dos documentos pelo site, afirmando que “pode colocar vidas em risco”. “Não podemos defender a publicação desnecessária do conjunto inteiro de documentos – estamos todos unidos, na verdade, ao condená-la”, diz o comunicado. “Nossos acordos anteriores com o WikiLeaks eram baseados na premissa de que só publicaríamos telegramas que tenham sido sujeitos a um minucioso processo conjunto de edição e revisão. Continuaremos a defender a nossa postura anterior”.

Votação

Antes de divulgar os documentos na integra, o Wikileaks lançou pelo twitter uma enquete sobre se deveriam ou não ocultar nomes. A votação pelo sim, segundo a organização, foi superior à negativa na proporção de 100 para 1.

Esse pode ser um indício de que uma postura mais radical pode ser adotada daqui pra frente pela organização – uma espécie de retorno à sua origem. Ou apenas o reconhecimento de que o desfecho melancólico de uma das mais inovadoras iniciativas de aliar tecnologia ao jornalismo se deve, simplesmente, a falhas e paixões humanas.

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