Buscar
Reportagem

“Não voltem a nos silenciar”, diz coletivo que denuncia assédios do professor Boaventura

Em carta aberta, vítimas cobram acesso à investigação feita pela Universidade de Coimbra

Reportagem
4 de março de 2024
18:30
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Professor Boaventura de Sousa Santos
Milton Martínez / Secretaría de Cultura de la Ciudad de México

Quase um ano depois dos primeiros relatos de assédio sexual e moral contra o professor português Boaventura de Sousa Santos virem à tona, o Coletivo Internacional de Mulheres, que reune vítimas, divulgou carta aberta cobrando acesso ao relatório de investigação das denúncias. O documento está sendo produzido por uma comissão independente do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, onde o sociólogo ensinava. Ele foi afastado das funções quando as acusações vieram à público.

“Não recebemos até ao momento qualquer resposta em relação à avaliação das nossas denúncias, nem qualquer compromisso de virmos a receber o relatório elaborado pela comissão independente”, diz um trecho da carta, divulgada nesta segunda-feira (4). 

Por que isso importa?

  • As denúncias de assédio sexual e moral contra Boaventura de Sousa Santos ganharam repercussão internacional no ano passado. Desde abril de 2023, quando revelamos em primeira mão a denúncia da deputada brasileira Bella Gonçalves, a Pública acompanha o caso.

O coletivo é formado por pesquisadoras e ex-alunas, brasileiras e portuguesas, que teriam sofrido abusos enquanto trabalhavam com o professor e sociólogo. A identidade da maioria dessas mulheres é mantida em sigilo. A deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL-MG) faz parte do grupo. Em abril do ano passado, ela denunciou, com exclusividade à Agência Pública, que sofreu assédio sexual de Boaventura enquanto era sua orientada de doutorado na Universidade de Coimbra. “A carta manifesta nossa indignação coletiva e sentimento de desamparo e impunidade. Não existe reparação real sem uma disposição institucional que confirme a mudança de condutas e a repetição de situações lamentáveis”, disse a deputada à Pública. 

De acordo com a carta, o prazo final de divulgação do relatório sobre as denúncias contra o professor venceu no último dia 1o de março. A Universidade de Coimbra, entretanto, informou que o relatório será apresentado no próximo dia 13. O Coletivo pede acesso antecipado ao relatório, uma vez que, em abril do ano passado, endereçou uma carta à Universidade de Coimbra acusando Boaventura de assédio sexual, moral e extrativismo intelectual. Em 30 de setembro, o Coletivo de Mulheres enviou um amplo dossiê para o CES “com detalhes narrativos e elementos probatórios”.

“Enquanto denunciantes, teremos oportunidade de conhecer a validação ou não validação das nossas narrativas sobre a violência que sofremos semanas depois do relatório estar concluído e ao mesmo tempo que a comunicação social e o público em geral”, dizem na carta divulgada agora. 

O Coletivo critica também o formato de divulgação anunciado pela universidade, que teria recusado o pedido de apresentação online. “O CES recusou o pedido do coletivo para divulgar online a apresentação do relatório, sabendo que a maioria das vítimas reside fora de Portugal e não tem condições materiais e emocionais para se deslocar às instalações da instituição”. De acordo com o CES, a apresentação do relatório será feita em uma de suas salas com capacidade para 80 pessoas. 

“Apelamos a que respeitem a nossa dignidade, não nos desumanizem, não voltem a silenciar-nos ou a fingir que não estamos aqui”, pede o coletivo. A Pública entrou em contato com a Universidade de Coimbra, mas não recebeu resposta até esta publicação. 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas

Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar

Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe