Buscar
Reportagem

Redes bolsonaristas seguem na defesa de Jair, mas não furaram a bolha, aponta análise

Repercussão ficou restrita aos grupos de direita e esquerda, mas tese bolsonarista de perseguição segue forte

Reportagem
4 de setembro de 2025
10:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Apesar do debate sobre o julgamento de Jair Bolsonaro (PL) ter sido intenso no WhatsApp e no Telegram, ele “não furou a bolha”, aponta estudo feito pela Palver, empresa especializada em análise de trends nas redes sociais. A pedido da Agência Pública, a Palver avaliou que, no auge da discussão nos grupos, o julgamento foi abordado em cerca de 2 mil mensagens a cada 100 mil em um universo de 100 mil grupos no WhatsApp e 5 mil grupos no Telegram. A Palver analisou os termos a partir da busca por palavras-chave – como Bolsonaro, STF, Supremo, Golpe, Moraes e Gonet – entre os dias 29 de agosto e 3 de setembro.

Ainda que o número seja alto, pois os grupos públicos abordam assuntos diversos, o responsável pela área de inteligência e co-fundador da empresa, Luis Fakhouri, explica que “essas mensagens ficaram restritas ao debate dos grupos bolsonaristas, ao debate dos grupos de esquerda”, e não viralizaram entre o público geral. O pesquisador atribuiu isso ao tom “técnico” e “linguajar jurídico” que permeia o julgamento.

A Palver também analisou o posicionamento das mensagens e aponta que a versão bolsonarista tem predominado: o relatório aponta que 68% das menções são contrárias à condenação, enquanto 23% são favoráveis e 9% são indeterminadas.

“[O bolsonarismo] é um público mais presente no debate digital, e que tem mais interesse em manter a linha narrativa. A esquerda vai fazer comentários mais amplos, mas não vai ficar toda hora [falando] em defesa da democracia. A direita tem o apelo em defesa do líder”, justifica Fakhouri.

As mensagens sobre o julgamento atingiram seu pico por volta das 17h da terça-feira, 2 de setembro, dia em que foram ouvidas as defesas de quatro réus do chamado núcleo crucial, que envolve os principais responsáveis pela trama golpista. Na quarta-feira, dia 3, as defesas de Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Oliveira, Augusto Heleno e Walter Braga Netto se pronunciaram. Os advogados de Bolsonaro defenderam que não há provas que liguem o ex-presidente a uma tentativa de golpe, mas não negaram que ele tenha discutido medidas que poderiam sustentar uma ruptura democrática. O julgamento segue na semana que vem.

Homem de terno e gravata, com fones de ouvido, participa de transmissão online em meio às discussões sobre o julgamento de Bolsonaro no STF.
Grupos bolsonaristas se dividiram entre comentar julgamento no STF e repercutir falas de Tagliaferro no Senado, aponta análise

Fala de Tagliaferro no Senado dividiu a audiência

Durante a manhã de terça-feira, a participação de Eduardo Tagliaferro na Comissão de Segurança Pública do Senado Federal dividiu a atenção bolsonarista com o julgamento no STF, afirmou Fakhouri. Tagliaferro é ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e está no centro de um vazamento de mensagens internas de pessoas do círculo de Moraes que têm sido utilizadas por bolsonaristas para questionar a atuação do ministro.

O pesquisador aponta que, enquanto os conteúdos sobre o julgamento têm linguajar técnico e dificilmente rendem cortes que viralizam, o depoimento de Tagliaferro no Senado gera mais material. “É muito mais fácil de viralizar um questionamento do senador, uma fala, uma resposta do Tagliaferro, do que uma decisão técnica de um ministro lendo uma decisão ou uma parte do processo”, explicou.

Um dos conteúdos sobre o tema compartilhados no WhatsApp, por exemplo, era o link para um vídeo publicado no Tiktok pelo influenciador Deycon Silva, que tem mais de 12 mil seguidores na rede. Silva citou o depoimento de Tagliaferro para afirmar que “o julgamento tem que parar”. O conteúdo teve mais de 8,5 mil curtidas e 400 comentários.

A Pública mostrou que o blogueiro Allan dos Santos disse ter sido o responsável por conectar Tagliaferro aos senadores e que a organização estadunidense Civilization Works, criada pelo jornalista Michael Shellenberger, produziu um relatório que embasou o convite.

Captura de TikTok em rede social mostra homem falando diante de estante de livros, enquanto uma montagem acima reúne imagens de Bolsonaro e ministros do STF, em referência ao julgamento de Bolsonaro no STF.
Postagem de influenciador no TikTok foi compartilhada em grupo de WhatsApp.

Narrativa de perseguição X aplicação da justiça

O estudo da Palver também aponta que, apesar de Bolsonaro ser o mais citado, Lula e Moraes também aparecem com frequência nas mensagens. O “setor progressista” elogia Moraes, classifica a possível condenação do ex-presidente como “justa” e reforça “que a soberania nacional será defendida”.

Já os bolsonaristas insistem na narrativa de perseguição política, e dizem que “os juízes e Alexandre de Moraes estariam manipulando o julgamento de Bolsonaro por meio de provas supostamente forjadas”, explica o estudo. O julgamento também é citado para impulsionar a “convocação para manifestações em defesa do ex-presidente”, que acontecerão em 7 de setembro.

“A tentativa de envolver o público geral está concentrada, pelo menos até 7 de setembro, nesta pauta. Pode ser que, a depender também do tamanho das manifestações do domingo, a estratégia digital da semana que vem seja diferente”, avaliou Fakhouri.

Edição:
Reprodução
Reprodução/Tiktok

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso