Buscar
Reportagem

Fim da moratória da soja ameaça indígenas, enquanto ministério foca em demarcações e COP30

MPI se esforça por demarcações e para ter 3 mil indígenas na COP30, mas soja do agro avança e preocupa povos originários

Reportagem
20 de outubro de 2025
04:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Bruno Kelly/Amazônia Real/Creative Commons

Não bastasse o imbróglio do marco temporal que se arrasta desde 2024, travando a demarcação de terras indígenas, mesmo sendo considerado “inconstitucional” pelo STF, indígenas e outros povos da Amazônia terão de lidar com um novo problema vindo do poder público. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) determinou o fim da moratória da soja a partir de 1º de janeiro de 2026. A moratória era um acordo firmado com as próprias empresas que previa, desde 2008, o compromisso de não aquisição de soja proveniente de áreas desmatadas na Amazônia, o que pode impactar a vida de comunidades indígenas.

Se por um lado o Ministério do Meio Ambiente já se declarou contrário à decisão do Cade, anunciada em 30 de setembro, outras pastas que atendem populações possivelmente impactadas ainda não definiram uma posição sobre o assunto. A Agência Pública apurou que este é o caso, por exemplo, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), responsáveis por auxiliar aqueles tidos como principais “guardiões da biodiversidade”.

Por que isso importa?

  • Fim de acordos que envolvem compromissos contra o desmatamento são alertas para uma flexibilização do controle que desacelerou a supressão vegetal em biomas como a Amazônia nos últimos anos.

O secretário nacional de Direitos Territoriais Indígenas do MPI, Marcos Kaingang, admitiu que o fim da moratória da soja na Amazônia ameaça territórios e povos originários, mas disse que a pasta ainda estaria iniciando uma avaliação dos impactos da decisão do Cade. “Ainda é muito recente e [a decisão] foi anunciada enquanto estamos focados nas pautas e nas entregas para a COP30. […] Mas já sabemos que a moratória combateu o avanço da soja na floresta e nos territórios, então não parece ser uma decisão que ajude na proteção e conservação [da Amazônia]”, afirmou.

Para Mariana Gameiro, consultora-sênior da ONG Mighty Earth, que monitora globalmente as cadeias produtivas de commodities como a soja, o fim da moratória representa uma séria ameaça aos territórios indígenas. “Vejo essa decisão como algo que ‘solta as rédeas’, que libera caminho para o desmatamento acontecer numa velocidade ainda maior, o que ameaça as áreas que essas populações protegem”, avaliou.

“É uma catástrofe, uma decisão inaceitável não apenas para o mercado brasileiro, como também na esfera internacional. Ainda que pesem várias críticas sobre essa ‘ferramenta’, ela é um instrumento eficaz em conter o avanço do desmatamento ligado à soja”, afirmou Gameiro

Perguntada pela Pública sobre o fim da moratória da soja, a ministra do MPI, Sônia Guajajara (PSOL), disse que a pasta não teve “tempo de se aprofundar nesse tema”. “Nossa posição enquanto ministério é ser porta-voz para os povos indígenas, especialmente em casos que trazem grandes prejuízos para territórios e povos, como esse”, afirmou a ministra, durante encontro com jornalistas em 7 de outubro.

A cúpula do MPI acredita que o debate sobre o fim da moratória deve ressurgir ao longo da COP30, graças ao risco da medida incentivar o desmatamento ligado ao agronegócio.

Acordo que previa a não aquisição de soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia chega ao fim em 1º de janeiro

Digitais do agronegócio no fim da moratória

A moratória da soja foi criada em 2006 com envolvimento das maiores empresas e associações do setor, definindo um acordo de não-aquisição de grãos de soja vindos de fazendas com desmatamentos realizados após 22 de julho de 2008 na Amazônia. Para o Grupo de Trabalho da Soja, representante oficial dos signatários do acordo, a medida “não impediu o desenvolvimento da sojicultura, mas priorizou o uso de terras abertas anteriormente à moratória, portanto mitigando seu avanço sobre novos desmatamentos”.

O fim da moratória nasceu a partir da bancada ruralista do Congresso. A investigação do Cade teve início com o recebimento de uma representação da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, numa manobra envolvendo o deputado bolsonarista Evair de Melo (PP-BA), um dos expoentes da bancada ruralista e coordenador da Frente Parlamentar Invasão Zero no Espírito Santo, como já mostrado pela Pública.

Desde a primeira decisão do Cade em agosto, suspendendo temporariamente a moratória da soja, organizações da sociedade civil e pastas do governo Lula, como o Ministério do Meio Ambiente, se posicionaram contra a medida, defendendo sua eficácia em impedir o desmatamento ligado à cadeia da soja na Amazônia. Por outro lado, associações ruralistas e a Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso celebraram o fim do dispositivo.

Ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara em encontro com jornalistas em 7 de outubro

Demarcação como meta climática

Entre as expectativas do MPI para a COP30 está o esforço para que a demarcação de Terras Indígenas (TIs) seja incluída na NDC brasileira – sigla para em inglês para o documento de Contribuição Nacionalmente Determinada, firmado no Acordo de Paris, com as metas para redução de emissões de CO₂ e combate às mudanças climáticas de cada país.

A expectativa é que o encontro internacional conte com a participação de mais de 3 mil indígenas. Durante o evento, a pasta deseja anunciar a atualização da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), instituída durante o governo Dilma Rousseff (PT), mas ainda em implementação.

“Estamos conversando com a Casa Civil e com o Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores], para que possamos estabelecer nossa meta, uma quantidade de hectares a serem protegidos, querendo nos comprometer com a demarcação de 72% dos territórios já reconhecidos até 2035”, afirmou a ministra Guajajara.

Edição:
Marko Milivojevic photography/Creative Commons
Ministério dos Povos Indígenas

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer

1ª Coletiva do Ministro Kassio Nunes Marques no TSE - 04.10.2026

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

|

Para juristas, desequilíbrio da Corte fica evidente na agilidade de análise de alguns pedidos, não no teor da decisão