Buscar
Coluna

Por eleições, bets e fintechs, Câmara briga com Lula e com o país

Aperto no governo com fins eleitorais e lobby por setores cinzentos da economia prevaleceram na votação da MP

Coluna
10 de outubro de 2025
17:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui. 

Cheguei otimista das férias, tiradas às vésperas das manifestações contra a anistia aos golpistas e ao PL da blindagem, que voltaram a reunir multidões saudavelmente patriotas em cidades e capitais brasileiras. Em algumas delas, embaladas por música brasileira de primeira. Viva a primavera.

Digo que a mobilização tem saúde porque ali se defendeu sem ódio mas com firmeza o interesse de todos os brasileiros que querem viver em uma democracia – do repúdio ao golpe de Estado à negativa de conceder permissão para que os parlamentares desfrutem da impunidade de seus crimes.

Uma ofensiva contra a “mentalidade tacanha” do Congresso, como qualificou Gleisi Hoffmann ao explicar a derrota do governo na votação desta quarta-feira na Câmara, que derrubou o IOF e também o aumento de impostos de setores mais do que suspeitos: bets e fintechs – muitas delas integrantes do crime organizado.

Em contraste com as bandeiras dos Estados Unidos, empunhadas pelos que gostariam de livrar Jair Bolsonaro e os generais golpistas da cadeia, retomamos, naquele domingo, o verde-amarelo sequestrado por falsos patriotas. 

Para completar, os que conspiravam contra o país tomaram um golaço da nossa diplomacia. Saíram murchos, depois que o presidente dos Estados Unidos ligou para o presidente do Brasil na última segunda-feira. 

Afinal, a lealdade ideológica tem limite quando se trata de negócios entre os maiores países das Américas – e o preço do café também. 

Lula, que já vinha recuperando a popularidade por desempenhar com dignidade o papel de chefe de Estado no embate com Donald Trump, viu suas chances de reeleição aumentarem. De acordo com a pesquisa Genial/Qaest divulgada ontem (9), ele bate todos os possíveis oponentes em 2026, inclusive Tarcísio de Freitas, consolidando uma vantagem de 12 pontos sobre o governador de São Paulo.

Tarcísio, que de bobo e democrata não tem nada, largou os paulistas envenenados com metanol (ah! que tomem Coca Cola) e se mandou para conspirar

com o centrão, ainda curtindo a ressaca da aprovação unânime, pressionada pelas manifestações, da isenção ampliada do Imposto de Renda – um alento para milhões de trabalhadores e um pequeno passo em direção à almejada justiça tributária. 

O recado do “candidato a candidato” do bolsonarismo em 2026 (Bolsonaro ainda não largou o osso) a águias e tacanhos foi claro: vamos deixar o governo sem dinheiro para o país desabar junto com a popularidade de Lula. De quebra, afagamos nossos aliados com um pé na exploração da pobreza e outro na criminalidade. A saber, bets e fintechs, essas últimas repetidamente detectadas em tenebrosas transações com o crime organizado.

Afinal, ao contrário dos tomadores de drinques, o PCC tem presunção de inocência, como explicitou o governador ao declarar com todas as letras que a facção nada tinha a ver com o metanol na bebida antes mesmo da conclusão das investigações.

Prepare seu coração democrata porque agora rasteiras e caneladas vão se suceder, não apenas em direção ao governo, mas o que é pior, contra o interesse público. Pode sobrar só para a Polícia Federal combater corrupção e crime organizado e para o STF restabelecer a governabilidade e os princípios constitucionais.  

Pautas mais progressistas como o fim da escala 6×1 e o passe livre nos transportes tendem a emperrar no Congresso, que tem a grana como bandeira. 

Mas o Brasil segue, com um tropeço aqui e ali, para o mais esperado compromisso internacional do país neste ano, a COP30, de Belém. Apesar das previsíveis propagandas da Petrobras para jogar verde no petróleo e do passa-pano para o agronegócio desmatador, Lula chega forte à conferência presidida pelo Brasil. 

E aqui, vale lembrar: o mais bonito da conferência do clima e também o mais complicado, como sempre diz a colega Giovana Girardi, é que tudo ali é resolvido por consenso, o que acaba por reduzir os avanços ao mínimo denominador comum. Um ritmo frustrante para a emergência climática mas um processo totalmente baseado no diálogo para resolver problemas. E isso é valioso. 

O multilateralismo é a resposta à violência e ao autoritarismo como sabe Lula. 

Não é pouco no mundo dominado pela arrogância de Donald Trump, mas que aconselha colocar os óculos na esperança como cantava Elis Regina. 

Funciona melhor quando reunimos forças para ir às ruas pelo país que queremos e admiramos a coragem lúcida da Flotilha da Liberdade pela Palestina que, sem desistir de remar, nos mostra o quão longe ainda estamos da paz.
PS. O Bom dia, Fim do Mundo voltou cheio de informação e esperança nesta primavera. Estaremos mobilizados pela COP30, não perca a nova temporada. Nos tocadores de podcast, no YouTube da Pública, na TVT, Canal Universitário e C3 TV.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer

1ª Coletiva do Ministro Kassio Nunes Marques no TSE - 04.10.2026

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

|

Para juristas, desequilíbrio da Corte fica evidente na agilidade de análise de alguns pedidos, não no teor da decisão

PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”

|

Amigo de Flávio Bolsonaro e ex-oficial de inteligência suspeito de espionar adversários de Jair Bolsonaro negam relação