Buscar
Coluna

Os erros e acertos do governo ante à escalada de fogo e fumaça na Amazônia

Derrubar desmatamento foi fundamental para evitar cenário ainda pior, mas faltou agir mais cedo para conter queimadas

Coluna
3 de novembro de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Na semana passada comentei neste espaço sobre como a extrema direita estava se valendo das notícias de seca e queimadas na Amazônia para alimentar um discurso anti-Lula e anti-Marina Silva com um tanto de desinformação e muita leitura enviesada dos fatos.

Mas na tentativa de traçar a big picture dos acontecimentos na Amazônia nos últimos anos, traçando a cadeia de responsabilidades, talvez tenha me faltado retratar com mais precisão o cenário caótico que de fato se instalou na região neste último mês. E três fatores me alertaram para isso logo cedo nesta quarta-feira (1), o que me impeliu a voltar ao tema aqui. 

O primeiro foi um vídeo postado pela jornalista Eliane Brum, que há muitos anos escolheu viver em Altamira (PA) e de lá reportar a partir do que ela chama de Centro do Mundo – sim, a Amazônia. 

Com o semblante abatido e apavorado, ela começou: “Eu preciso dividir com vocês que eu não aguento mais acordar todo dia, todo dia, todo dia com cheiro de fumaça, testemunhando a floresta queimar, com o céu encoberto. Faz muito tempo que a gente não vê o azul do céu”. Na sequência, comparou o que está acontecendo com um holocausto. “Macacos, araras, cobras estão queimando em dor excruciante, morrendo pela mão de criminosos.” 

Desde setembro temos visto o quadro de seca e estiagem se agravando na região. Começou com imagens de peixes e mais de uma centena de botos mortos pelo aumento da temperatura das águas. Na sequência os rios chegaram a seus níveis mais baixos, vimos populações isoladas, sem água para beber na maior bacia hidrográfica do mundo. Então começaram as queimadas.

Ao ver o vídeo de Brum, entrei na página do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) onde ficam concentrados os dados de monitoramento das queimadas no Brasil. Já era sabido, desde mais ou menos metade do mês, que outubro bateria recordes de focos no Amazonas. Hoje foi possível ver o balanço dos 31 dias. E de fato tivemos um cenário aterrador.

O bioma Amazônia como um todo registrou em outubro 22.061 focos de queimadas, o maior valor para o mês desde 2008 e 58% superior ao ocorrido no mesmo mês de 2022. No Amazonas, onde a estiagem começou, foi de longe o pior outubro dos registros do Inpe (iniciados em 1998), com o recorde de 3.858 focos – 60% acima do pior outubro até então, que era de 2009. 

O problema já se estende por outros estados. O Pará teve o segundo pior outubro da série histórica, com 11.378 focos, só um pouco atrás do que foi registrado em outubro de 2008, com 11.568 focos.

No dia 13 de outubro, quando o cenário estava se revelando crítico, o governo reagiu e dobrou o número de brigadistas no Amazonas. Nesta terça-feira (31), o presidente Lula fez uma postagem citando essa ação. 

“Na Amazônia, o governo federal reduziu o desmatamento em 49,5% em 2023, no comparativo com o mesmo período do ano passado, mudando a tendência depois de anos de descaso com o meio ambiente na gestão anterior. Durante as queimadas que deixaram o Norte sob a fumaça, os brigadistas do Ibama e do ICMBio tem reforçado o combate aos incêndios feitos pelos estados, reduzindo os focos em 78% na terceira semana de trabalho. O @mmeioambiente voltou a trabalhar em defesa do meio ambiente e da vida”, escreveu na conta oficial no X/Twitter.

Nada incorreto nos dados que ele destacou, mas a terceira coisa que me chamou atenção nesta quarta-feira foi um outro post reagindo a esse comentário de Lula. “A little too late [um pouco tarde demais], presidente. Ao mudar o nome do MMA pra incluir as mudanças do clima, as ações preventivas ao fogo deveriam ter tomado protagonismo imediato. Combater fogo é paliativo. Urge a criação de um grupo técnico-científico sobre os incêndios na Amazônia”, escreveu Érika Berenguer, ecóloga que já citei outras vezes por aqui. 

Especialista em fogo, ela está há semanas na região de Santarém, no Pará, sua área de estudo, sentindo na pele o que está acontecendo por lá. O desabafo era quase pessoal, assim como o de Brum. Berenguer me contou estar com febre, tossindo, “quase com pneumonia”, como ela descreveu. 

Se no Amazonas o problema de fato se concentrou mais no começo do mês, com uma desaceleração da quantidade de focos na segunda metade, no Pará foi ao contrário. Em apenas quatro dias, entre 25 e 28 de outubro, o Inpe registrou 3.848 focos – 33% do que foi detectado no mês inteiro. É o que tanto a pesquisadora quanto a jornalista estavam testemunhando.

Já disse aqui outras vezes, mas não custa repetir. Há uma conjunção de fatores em curso na Amazônia que contribuem com esse quadro. Talvez o mais forte deles torne quase impossível de evitar todo o resto, que é a estiagem extrema resultante de um El Niño intenso combinado com as mudanças climáticas. A floresta está mais seca, logo mais suscetível a queimar. Mas ainda assim o fogo não é espontâneo. Depende de alguém riscar o fósforo. 

E fogo, na Amazônia, costuma ocorrer por dois motivos principais: como etapa final do processo de desmatamento (para acabar de limpar o terreno) e para manejar pastagem. Nos dois casos, há o risco, quando o clima está muito seco, de as chamas se espalharem para a mata em pé. Aí se dá o incêndio florestal. A mortalidade de árvores em anos como este aumenta, o que degrada a floresta remanescente. Ou seja, mesmo o que não foi desmatado fica mais fraco, diminuindo a capacidade de prestar os serviços ecológicos, como chuva e a absorção de gás carbônico da atmosfera.

O governo Lula teve uma atuação realmente digna de nota neste ano ao derrubar as taxas de desmatamento. Em nove meses (de janeiro a setembro), os alertas de corte da floresta caíram quase à metade, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados do sistema Deter, do Inpe. 

Mas havia muita madeira ainda derrubada de anos anteriores esperando para ser queimada. Para sorte da Amazônia, como já disse Berenguer, nos anos anteriores, sob Jair Bolsonaro, o período de seca não foi intenso, pelo contrário. Havia uma La Niña em curso (o oposto do El Niño), e a Amazônia estava mais úmida.

Já se sabia que este ano seria diferente, que havia muita matéria orgânica acumulada. Evitar que mais tora estivesse no chão para ser queimada foi um ganho enorme. Mas pode ter faltado agir mais cedo para evitar o princípio das queimadas. Para considerar políticas que evitem a degradação também da floresta que resta.

O país tem um compromisso, junto ao Acordo de Paris, de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Hoje e historicamente, o desmatamento da Amazônia foi a principal fonte de emissão do Brasil. Diante do aumento da perda da floresta nos anos Bolsonaro, ficamos mais longe das nossas metas até 2025. 

Nesta semana, pesquisadores que fazem o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), ligado ao Observatório do Clima, calcularam que o Brasil só vai conseguir cumprir sua meta se acelerar a redução do desmatamento aos mesmos níveis que ocorreram no Brasil entre 2008 e 2012 – o período de mais intenso controle já aplicado na Amazônia. Em 2012 a taxa de desmatamento chegou ao menor nível da história.

Só que as queimadas podem prejudicar todo esse esforço. Em um artigo publicado em meados deste mês na revista Nature Ecology and Evolution, 18 pesquisadores do Brasil e do exterior alertaram que a degradação da floresta provocada pelos incêndios que estão ocorrendo pode acelerar um processo, já em curso, em que a Amazônia passe a emitir mais gás carbônico do que absorve hoje. 

Seria certamente o pior dos mundos, como alerta há alguns anos a pesquisadora Luciana Gatti. Lula e companhia vão precisar fazer bem mais para salvar a Amazônia e ajudar o planeta a se salvar do aquecimento global.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imposto do pecado: Governo alivia para indústrias e adia proteção popular, alma da reforma

|

Indústrias do refrigerante e mineração terão 2027 de impostos baixos ou zerados frente a impacto à saúde e meio ambiente

Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña

|

Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco

Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

|

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países