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EUA: Trump parece estar planejando um golpe para as eleições legislativas de 2026

Mudança no mapa eleitoral, libertação de envolvidos no 6 de janeiro e uso da Guarda Nacional apontam plano autoritário

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2 de setembro de 2025
12:00
Este artigo tem mais de 1 ano

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Um número crescente de analistas de notícias, comentaristas políticos e democratas proeminentes preveem que o presidente Donald Trump está preparando o cenário para intervir à força nas eleições legislativas de 2026 nos Estados Unidos (EUA), a fim de manter o controle da Câmara dos Deputados. Isso lhe permitirá continuar implementando seu programa de desmantelamento do Estado de bem-estar social e as garantias democráticas alcançadas nas últimas sete décadas.

Isso não deveria surpreender ninguém, dada a insistência tenaz de Trump em dizer que ele derrotou Biden em 2020, tendo mobilizado uma multidão para invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021, em uma última tentativa de anular os resultados das eleições. Naquela época ele fracassou, mas a Suprema Corte dos EUA, dominada por uma maioria conservadora (6 a 3), e o Partido Republicano, expurgado de opositores de Trump, o salvaram de ser julgado e condenado por organizar uma insurreição.

Sem se deixar abater, agora, os preparativos para um golpe parecem estar em andamento.

Em todas as direções, Trump tenta consolidar seu poder. Ele enfraqueceu a burocracia do governo dos EUA ao demitir centenas de milhares de funcionários. Ele eliminou ou desmantelou programas federais importantes e substituiu funcionários públicos dedicados por bajuladores leais. Ao mesmo tempo, forçou muitas universidades, escritórios de advocacia e empresas de mídia à submissão e ao silêncio, ameaçando abertamente cortar o financiamento federal, punir oponentes com ações judiciais ou bloquear transações comerciais que exijam aprovação federal.

Ele conseguiu, ainda, intimidar republicanos vacilantes a uma obediência inabalável, prometendo apoiar os partidários do MAGA (Make America Great Again) nas eleições primárias republicanas contra aqueles que ousassem questionar suas políticas. Como apontado em minha última coluna, ele pressionou as legislaturas estaduais controladas pelos republicanos a redesenharem os mapas eleitorais distritais, distribuindo os eleitores de maneira a garantir a vitória dos candidatos de Trump para o Congresso dos EUA.

Após ter alterado com sucesso o mapa eleitoral do Texas, Trump agora pressiona as legislaturas estaduais controladas pelos republicanos nos estados de Indiana, Missouri e Flórida a seguirem o exemplo.

Ao perdoar mais de 1.500 pessoas envolvidas na invasão do Capitólio dos EUA, ele consolidou um exército leal de seguidores, dispostos a praticar atos de violência em seu nome, com o entendimento de que os perdoará caso cometam crimes seguindo suas ordens.

Sob o pretexto de cumprir uma promessa de campanha de deportar imigrantes ilegais violentos, seus apoiadores republicanos no Congresso promulgaram uma legislação para aumentar o efetivo de agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE) – seu orçamento atual, de US$ 27,7 bilhões, é maior do que o da maioria dos exércitos ao redor do mundo.

Agentes mascarados e não identificados do ICE agora invadem sistematicamente áreas onde trabalhadores indocumentados se reúnem para procurar emprego, prendendo qualquer pessoa em seu caminho, a fim de atingir a cota nacional obrigatória, de realizar 3.000 prisões por dia.

Tudo isso se tornou familiar para aqueles que acompanham as notícias sobre a presidência de Trump. Embora diferentes juízes tenham bloqueado algumas dessas medidas, a maioria são ordens temporárias que acabam sendo levadas até a Suprema Corte – e esta, até o momento, não conseguiu impedir suas ações arbitrárias.

Embora todas as evidências apontem para uma marcha rumo a um regime autoritário, a recente decisão de enviar a Guarda Nacional, primeiro para Los Angeles para “auxiliar” agentes do ICE na prisão de moradores indocumentados, e agora para Washington, D.C., supostamente para livrar a cidade de uma onda de crimes, revelou com clareza o plano estratégico de Trump para minar a democracia americana em sua essência.

Nos Estados Unidos, a Guarda Nacional é uma força militar controlada por diferentes estados, geralmente composta por soldados que serviram nas Forças Armadas. Hoje atuando como civis, eles se alistam para esse emprego em meio período para complementar sua renda. Seu comandante-em-chefe é o governador. A Guarda Nacional geralmente é enviada para responder a emergências, como incêndios florestais, inundações e terremotos. No entanto, também pode ser usada ​​para restaurar a ordem em caso de distúrbios civis. O presidente dos Estados Unidos também pode federalizar essas forças para emergências nacionais declaradas.

Essa foi a base do envio de 4.000 homens da Guarda Nacional para Los Angeles em junho, “para proteger propriedades federais”, quando cidadãos da cidade — muitos deles, filhos e filhas de residentes indocumentados — protestavam contra a onda de prisões de imigrantes. Tanto o governador democrata Gavin Newsom quanto a prefeita de Los Angeles, Karen Bass, se opuseram às medidas do presidente. Ele os ignorou e também enviou 700 fuzileiros navais para “proteger” os agentes do ICE durante as operações de prisão de imigrantes.

Juristas e oponentes políticos de Trump alegam que suas ordens violam uma lei federal, conhecida como Lei Posse Comitatus (1878), que proíbe o uso das Forças Armadas para fazer cumprir leis dentro das fronteiras nacionais. Mesmo assim, Trump criou um precedente e naturalizou o uso da Guarda Nacional federalizada em situações domésticas, preparando o caminho para mobilizações semelhantes no futuro.

Em 11 de agosto, Trump emitiu uma ordem executiva para enviar a Guarda Nacional do Distrito de Columbia à capital do país devido a uma “emergência sobre crimes”. Como argumento, Trump usou um recente incidente violento contra um importante funcionário do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) para justificar suas medidas.

Como Washington está sob jurisdição federal, ali o presidente é o comandante-chefe da Guarda. Trump pode executar essa medida por 30 dias, e uma extensão exija a aprovação do Congresso. Governadores republicanos de outros cinco estados também enviaram suas tropas da Guarda Nacional para auxiliá-lo.

Os críticos afirmam que a justificativa de Trump é falaciosa, visto que as estatísticas de criminalidade em Washington estão baixas. Como a maioria dos moradores de Washington é negra, ele também recorreu a um estereótipo racista profundamente arraigado na sociedade norte-americana que associa pessoas de ascendência africana ao crime e à violência.

Mas Guarda Nacional não foi enviada para bairros onde a criminalidade é maior; foi enviada para locais turísticos, onde teriam maior visibilidade na mídia nacional. Muitos acabaram cuidando de gramados em propriedades federais e limpando o lixo ao redor dos monumentos nacionais. Enquanto isso, o promotor público de Washington ordenou que os moradores fossem presos e acusados ​​das penas mais severas para qualquer crime imaginável – incluindo portar uma lata de cerveja aberta em público – para mostrar que Trump está promovendo “a lei e a ordem”.

Trump agora anuncia que pretende fazer o mesmo com Chicago, no estado de Illinois, e Baltimore, em Maryland, duas cidades de tendência democrata com população majoritariamente negra. Ele usa o mesmo argumento de que elas estão infestadas de crimes e precisam ser “limpas” por uma intervenção federal, embora o prefeito Brandon Scott, de Baltimore, e o prefeito Brandon Johnson de Chicago, ambos negros, se oponham à medida.

Da mesma forma, o governador de Maryland, Wes Moore, também negro, e o governador de Illinois, JB Pritzker, um empresário bilionário branco, disseram claramente que a Guarda Nacional não é bem-vinda.

Agora, como essas medidas levariam a um golpe contra as eleições para o Congresso de 2016?

Em 2020, depois da sua derrota nas urnas, Trump entrou com 60 ações judiciais, sem sucesso, argumentando que os resultados das eleições foram fraudulentos e que ele havia vencido. Juízes nomeados por republicanos e democratas rejeitaram as alegações.

Trump está preocupado com o resultado das eleições de 2026, já que sua popularidade nas pesquisas mais recentes está no nível mais baixo de todos os tempos. Em uma pesquisa Gallup de junho de 2025, 79% dos adultos americanos indicaram que a imigração é algo positivo para o país. Outra pesquisa Gallup de agosto, apontou que apenas 37% dos entrevistados apoiam suas políticas econômicas. Só 40% dessas pessoas ofereceram apoio geral à forma como Trump está conduzindo seu trabalho. Esse número reflete o apoio de sua base, e não é suficiente para vencer eleições.

Historicamente, o partido do presidente perde cadeiras no Congresso nas eleições de meio de mandato – e a baixa aprovação do presidente é um fator determinante.

Sem o controle da Câmara, Trump seria forçado a chegar a um acordo com os democratas e não conseguiria implementar muitas de suas medidas. A Califórnia já está planejando um plebiscito para mudar seus distritos eleitorais a fim de enfraquecer os candidatos republicanos, e Illinois e Maryland estão considerando medidas semelhantes de redistritamento.

Se as eleições de 2026 tiverem resultados apertados, Trump já está legitimando uma estratégia que fracassou em 2020. Se os resultados forem apertados especialmente em estados com governadores ou prefeitos democratas, está claro que Trump pretende declarar estado de emergência nacional, federalizar e, em seguida, mobilizar a Guarda Nacional para apreender as urnas, adulterar os resultados e declarar os republicanos vencedores nas eleições.

Durante as eleições de 2024, Trump afirmou ambiguamente que, se fosse eleito, não haveria necessidade de eleições futuras. Na semana passada, ele declarou: “Muitas pessoas estão dizendo: ‘Talvez gostemos de um ditador'”. Ele então recuou, comentando: “Eu não gosto de um ditador. Eu não sou um ditador. Sou um homem com muito bom senso e uma pessoa inteligente.”

No entanto, parece que ele está plantando uma semente, primeiro em sua base de apoiadores e, depois, naturalizando a ideia para a população em geral.

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