Buscar
Perfil

100 mil mulheres lotaram Brasília na Marcha das Margaridas

Entre elas, a trabalhadora rural Marilene Rodrigues Rocha, da Reserva Extrativista Tapajós; veja imagens

Perfil
17 de agosto de 2023
11:33
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Mulheres participantes da Marcha das Margaridas em Brasília.
João Canizares/Agência Pública

Para chegar a Brasília e participar da Marcha das Margaridas, a trabalhadora rural Marilene Rodrigues Rocha, de 54 anos de idade, fez um longo percurso. Viajou cerca de oito horas de barco da sua comunidade Vista Alegre do Muratuba, que fica dentro da Reserva Extrativista Tapajós — Arapiuns até Santarém, no Pará, pelo rio Tapajós.

Marilene Rodrigues, vice-presidente na diretoria executiva da Organização das Associações da Reserva Extrativista Tapajós — Arapiuns. Ela veste camiseta com a frase "Marcha das Margaridas"
Marilene Rodrigues, vice-presidente na diretoria executiva da Organização das Associações da Reserva Extrativista Tapajós — Arapiuns

Depois foram outras três horas e meia de avião para chegar à capital federal. Ela veio participar pela quinta vez da Marcha das Margaridas e pedir mais direitos e respeito a quem trabalha no campo.

Mulheres deixam ônibus em Brasília à caminho da Marcha das Margaridas
Margaridas enfrentaram longo trajeto até Brasília

“Essa marcha é um movimento muito importante para as mulheres que vivem na área rural. Que são filhas de trabalhadoras, que são agricultoras, pescadoras, indígenas e quilombolas. Todas as mulheres que vivem nas periferias e áreas urbanas também”, explica Marilene.

“Nós estamos sofrendo alguns problemas muito sérios. Um deles é o desmatamento, as queimadas. Outro é o nosso rio Tapajós que está com muito agrotóxico e alto nível de mercúrio por conta do garimpo na região do Alto Tapajós”.

Marilene é vice-presidente na diretoria executiva da Organização das Associações da Reserva Extrativista Tapajós — Arapiuns. A denominada Tapajoara, que representa 24 comunidades presentes na reserva. Juntas elas somam cerca de 3.500 famílias, em torno de 20.000 pessoas em um território que possui mais de 670 mil hectares, nos municípios de Santarém e Aveiro, no Pará.

Para ela, esse é um momento importante: “É a primeira vez que conseguimos trazer um número grande de mulheres extrativistas e indígenas para este evento. E isso vai somar com a busca de políticas públicas para nosso município e nosso território”.

Nesta sétima edição, segundo informações da organização e da polícia militar do Distrito Federal, a Marcha das Margaridas recebeu mais de 100 mil pessoas nos dias 15 e 16 de agosto.

“Pela reconstrução do Brasil e pelo bem viver” foi o título da maior ação de mulheres da América Latina este ano.

Após o período de pandemia e os retrocessos que o governo passado causou, o encontro lembrou a necessidade de se retomar a luta por igualdade, democracia e liberdade. Marilene, as mais de 40 mulheres que vieram da Reserva Extrativista Tapajós — Arapiuns, e as outras milhares de participantes da marcha, em sua maioria, ficaram acampadas durante esses dois dias no Pavilhão do Parque Dona Sarah Kubitschek.

Foram noites frias e dias quentes e secos nas barracas, colchonetes e redes que ocuparam o enorme “galpão” normalmente destinado à eventos.

Apesar da simbologia e das inúmeras flores de todos os tipos e cores que tomaram uma das maiores vias de Brasília, o Eixo Monumental, casa dos principais poderes do país e palco da Marcha das Margaridas, que caminhou cerca de 6 km, o nome do evento é uma homenagem à Margarida Maria Alves.

Margarida era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, uma cidade do interior do estado da Paraíba. Ela foi assassinada com um tiro no rosto, na porta de sua casa, em 12 de agosto de 1983. Aos 50 anos de idade. Foi uma lutadora pelos direitos e por melhores condições de trabalho no campo. Lutou também pela reforma agrária e contra a violência no campo.

No primeiro dia da Marcha das Margaridas de 2023, 15 de agosto, foi aprovado na Câmara dos deputados o projeto de lei que que inclui o nome de Margarida Alves no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Um livro histórico que reúne nomes importantes na história da luta pela democracia e igualdade no Brasil.

Mulher negra com chapéu de palha segura placa com a frase "Violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer", logo abaixo "Marcha das Margaridas"
Evento é uma homenagem à Margarida Maria Alves, lutadora pela reforma agrária e contra a violência no campo

“Só com gerador”

Enquanto falava sobre o dia a dia na Reserva Extrativista, Marilene ficava na ponta dos pés procurando suas companheiras de viagem e de vida entre as milhares de pessoas que se organizavam para sair com a marcha enquanto o sol terminava de nascer. “Lá não tem energia. Só com gerador. Para funcionar tem que comprar combustível e esperar o barco trazer”.

Na comunidade, elas organizaram bingos e conseguiram apoios financeiros para custear passagens de avião de Santarém até Brasília. “A nossa dormida na Marcha das Margaridas foi no chão mesmo, com colchonete que ganhamos de doação ou até de outros companheiros que estavam participando”.

O café da manhã no Pavilhão do Parque Dona Sarah Kubitschek começou a ser servido às 4h da manhã. A marcha partiu às 7h e chegou no gramado em frente ao Congresso Nacional por volta das 10h. A multidão se aglomerou em frente a um palco que devagar foi tomado pelas autoridades.

Entre ministros, deputados e presidentes de entidades estavam mulheres como a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a Deputada Federal Célia Xakriabá, a Ministra da Igualdade Racial Anielle Franco e a Secretária de Mulheres da Contag e coordenadora geral da Marcha das Margaridas Mazé Morais.

O evento foi encerrado com discurso do presidente Lula. Ele assinou oito decretos em resposta às demandas das mulheres.

São eles:

  1. Criação do Pacto Nacional de Prevenção do Feminicídios;
  2. Programa Nacional de Cidadania e Bem Viver para as Mulheres Rurais com retomada do Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural;
  3. Retomada da Política Nacional para os Trabalhadores Empregados;
  4. Retomada do Programa Bolsa Verde;
  5. Instituiu o Programa Quintais Produtivos;
  6. Instituiu uma Comissão de Enfrentamento à Violência no Campo;
  7. Criou o Grupo de Trabalho Interministerial para construir o Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural e retomou a Reforma Agrária com atenção a famílias chefiadas por mulheres.

Além desses decretos, os ministros do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves também anunciaram novos programas.

Marilene começou o caminho de volta a sua terra assim que a marcha chegou ao Congresso Nacional. Não conseguiu ficar para ver o presidente Lula discursar. “Não vai dar tempo, nosso avião vai sair”.

Marilene é mãe de quatro filhos, e todas as outras mulheres que representaram Margarida Alves nestes dois dias, convivem cotidianamente com diversas formas de violência. Física, psicológica, de seus territórios, de sua segurança alimentar e de seus direitos.

“É muito preocupante porque nós somos desafiados e até violentados moral e emocionalmente. A gente recebe muita ameaça desse povo que quer entrar na nossa reserva e explorar nossa maior riqueza, que é a madeira. Além de outros bens naturais”.

João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso