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Virilidade e impotência

Socióloga Silvia Viana explica que a dualidade é a principal marca do nosso líder populista de direita, Jair Bolsonaro

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2 de janeiro de 2024
06:00
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“Eles estavam implorando por um líder”, me disse a Silvia – Silvia Viana, socióloga, escritora, minha irmã – há algumas semanas, quando lhe perguntei pela primeira vez o que queriam os manifestantes que foram às ruas a partir de 2013. Semanas depois, já na varanda da sede da Agência Pública, no centro de São Paulo, fumando um cigarro atrás do outro, ela se corrigiu: não era exatamente um líder, mas uma “direção” que aquela “pulsão social” buscava.

(Se o leitor está achando essa introdução muito maluca, um aviso: essa é a continuação da nossa última coluna, que pode ser lida aqui.)

Houve vários líderes antes do movimento que hoje conhecemos como bolsonarismo tomar forma. Houve uma época em que, nas manifestações de rua, Eduardo Cunha era visto como o grande herói, por ter presidido o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Houve, claro, Sérgio Moro, exaltado durante um longo tempo como o homem que salvaria o Brasil da lama da corrupção, antes de cair em desgraça e abraçar a própria mediocridade numa triste carreira política como linha auxiliar do bolsonarismo. 

A pergunta mais importante, portanto, é: por que Bolsonaro? “Foi ele quem conseguiu capturar e dar um nome a uma coisa que poderia ter outros nomes, poderia ser contra o capitalismo, inclusive”, explica Silvia.

Em 2015, no Largo da Batata, como parte da sua pesquisa, a minha irmã viu pela primeira vez uma manifestação, minguada, com umas 200 pessoas, carregando faixas com o nome de Bolsonaro. 

Nascia um líder carismático. 

Para o pensador alemão, há três tipos clássicos de líderes carismáticos: o demagogo, aquele que convence pela palavra; o líder profeta, o que conquista pela fé; e o herói guerreiro. 

“Bolsonaro não se encaixa em nenhuma das caracterizações clássicas, sociológicas, de líder. Pelo contrário: ele é anti os três tipos”, raciocina. “Ele é covarde, não é um herói guerreiro, muito pelo contrário. Por outro lado, ele vem das Forças Armadas. Ele é um pecador assumido, amoral, imoral, não se encaixaria em porra nenhuma de religião. E ele não sabe falar”. 

Falta, entretanto, nas reflexões de Weber, um elemento que a Silvia vê como fundamental para entender essa equação. “Para mim, o carisma é radicalmente histórico. Pode ser que aparecesse hoje o Gengis Khan, e todos pensaríamos: que cara louco. Então, o que hoje faz com esse tipo de carisma, que é inédito, seja eficaz? Isso tem de ser descrito”. 

Passamos então a descrever o que faz de Bolsonaro um líder eficaz no mundo de hoje. Alerta de spoiler: muitos outros líderes, de Trump a Duterte, de Maduro a Bukele, trazem algumas das mesmas características. 

“Uma das características mais interessantes do carisma do Bolsonaro é a vitimização. É o par virilidade e impotência”, diz Silvia. Como parte de sua pesquisa, minha irmã tem assistido todos os dias ao programa Pingos nos Is, da Jovem Pan. Algo que chama a atenção: todos os apresentadores são condescendentes com Bolsonaro. “Não, ele fala errado, mas isso é bom”. “Poxa, ele tá sofrendo”. “Ai, ele chorou”, são tipos de frases que se ouve constantemente. 

“As pessoas paternalizam um líder”, reflete Silvia. “E isso é totalmente fora do esquadro clássico de um líder”. 

E por que esse carisma funciona hoje? 

Para ela, a resposta vem em uma passagem do livro “A muralha”, de Adorno, no qual o pensador trata da “psicopatia objetiva”: “Hitler só foi eleito porque encaixava como uma luva naquela objetividade social da época”, replica. “Então o Bolsonaro é inteligente nessa objetividade, que é burra!” 

Não se trata só de burrice, claro, mas de uma virilidade possível no mundo que já acabou. 

“A virilidade que se constrói na nossa reprodução social todo santo dia está na literatura de gestão, na indústria cultural, todo mundo diz isso. Trata-se de uma concepção radicalmente nova de concorrência que é estimulada em todas as empresas. O inimigo é o cara que tá do seu lado. E é isso que a gente aprendeu na prática”.

O mantra também era sempre repetido no programa Pingos nos Is, por exemplo, quando tratavam da epidemia de Covid. “Você tem que ser macho para ir para a rua enfrentar a Covid, enfrentar a doença. Isso é virilidade. Só que é uma covardia, porque você obedece o imperativo da produtividade. Entendeu?” 

Estou aqui tentando acompanhar, tomando notas. Pergunto: 

– A virilidade é servir ao capital, é isso? 

– É uma das possibilidades. Nesse caso específico, você está obedecendo a um patrão, a uma necessidade, à fome. E é uma concorrência muito particular, porque é uma concorrência de vida ou morte. Que começa na década de 70, com a revolução tecnológica e de fato o capitalismo já não pode prometer que vai ter trabalho para todo mundo. E quem não tem trabalho, morre de fome. 

Uma das características do bolsonarismo (e de Bolsonaro como seu líder) é portanto, ser altamente individualista. 

Quando as manifestações de rua já eram profundamente antipetistas, Silvia e seus colegas fizeram um esforço para encontrar e entrevistar pessoas que foram beneficiárias dos programas sociais petistas. Elas diziam terem vencido, sempre, por mérito próprio. “Eu só venci por causa do meu mérito. E se você me disser que eu venci pelo Prouni, isso me diminui”, explica ela. 

“Só quem quer o Estado é gente fraca, porque a vida não funciona assim. A vida é guerra e a esquerda quer transformar as pessoas em pessoas fracas”. 

“Em escravos”- completo. 

O papel do Estado intervencionista seria, portanto, o de desbalancear uma competição na qual, ao ser deixada da maneira natural, ganham os mais fortes. E o mundo criado pelas intervenções do Estado seria, portanto, artificial. Injusto. Quem precisa de cotas é errado, é “trapaceiro”. 

Foi essa mesma dicotomia que apareceu, talvez de maneira mais elaborada e estruturada, durante a epidemia da Covid. Ela lembra do discurso que foi mais utilizado contra Bolsonaro, aquele em que ele disse que a Covid seria apenas “uma gripezinha”. Na verdade, o que o ex-presidente dizia era que ele tinha um histórico de atleta e, se pegasse, a doença seria fraca, seria só uma gripezinha.   

“Bolsonaro falava justamente que o mundo é uma selva. Só quem pode ficar sem trabalhar é privilegiado. As pessoas verdadeiras, as pessoas que são ‘machos’, elas devem seguir o fluxo do mundo”, começa. 

“No capitalismo atual, o chão se estreita”, diz. É por isso que faz sentido a aliança do bolsonarismo com o neoliberalismo, que traz estranheza a muita gente. “É uma coisa nova, porque o neoliberalismo via o mundo como natureza, e a intervenção estatal como artificialidade. Mas o bolsonarismo amplia um pouco essa concepção, porque nem fala mais de mercado. Fala de guerra. O mundo é guerra e se você sair fora, você é um covarde ou um privilegiado”, diz ela. 

Assim, Bolsonaro é talvez o melhor dentre todos os líderes, porque ele sempre foi assim. “Ele é bom. Porque ele sente a vida assim. Outros psicopatas poderiam ter sido nossos líderes, mas ele tem isso inato, e não precisa elaborar. Ele fala a coisa certa – errada”.  

Bolsonaro provou ser um líder único no mundo quando, no começo da pandemia, rejeitou a solução que todos esperavam – e pela qual Sérgio Moro tentou empurrar a resposta governamental – a de militarizar a sociedade. “Ele pegou o universo no contrapé. Os aliados e a oposição”, diz Silvia. “Porque foi o único que falou da virilidade. Tem que sair na rua e enfrentar”.

De fato, para a maioria, não havia nada a fazer a não ser enfrentar a doença.  

“Não é pra você ficar em casa. Porque a gente já está no fim do mundo. E tem gente querendo te enganar, falando que vai salvar e não vai”.

Assim, faz sentido, ainda, na concepção bolsonarista do mundo, ter um governo cujo único propósito é o de destruição de políticas públicas. “O que é o governo Bolsonaro? Tirar os diques de contenção de barbárie. Ponto. O Salles dizendo, ‘vamos deixar a boiada passar’ é isso: Tira o dique de contenção. Queima. Porque o mundo é guerra e já acabou”. 

“Eles têm um conceito de liberdade que temos que entender, também. O que é liberdade para eles? Deixar a barbárie, que é a realidade, fluir”, diz. “Então a incompetência é lógica. Eu quero que o Estado não funcione. Eu quero que a proteção social não funcione”. De uma certa forma, diz ela, é um sonho de retorno a um estado pré-moderno, um Estado Robbesiano, em que as coisas são organizadas pela lei do mais forte. 

“Se você for pensar, é lógica de milícia”, diz. 

“O Bolsonaro é isso. Ele conseguiu dar mais consistência a essa relação das pessoas com o mundo real desse capitalismo bárbaro. Ele é a personificação disso”. 

Você discorda de quem diz que Bolsonaro foi um acidente?  

“Sim e não. Ele foi produto de um momento histórico. Existem as duas coisas ao mesmo tempo. Ele foi a coisa mais perfeita que surgiu no meio do acidente”. 

E agora? Existe um bolsonarismo sem Bolsonaro, ou pós-Bolsonaro, pergunto, sabendo muito bem que é injusto perguntar a qualquer pessoa como será o futuro. Claro que ela não sabe, mas aponta que existe um fenômeno do ‘carisma que falha’, quando um líder falta com o ‘milagre’ que se espera dele. Foi o que aconteceu com os primeiros meses deste ano, quando um Bolsonaro acovardado se enfurnou nos Estados Unidos em vez de reunir os desesperados que se arriscaram por ele. A covardia por ter matado o bolsonarismo, mas não a extrema direita. 

Afinal, para muita gente, o mundo já acabou – e não tem nada além de desespero no seu lugar. 

Caro leitor, sugiro como leitura o livro da Silvia, Rituais de Sofrimento, da editora Boitempo. Recomendo!

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