Buscar
Coluna

A parábola do gato e as mudanças climáticas

Por que Flow, vencedor do Oscar de melhor animação, é muito mais do que um filme sobre bichinhos fofos

Coluna
7 de março de 2025
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Quase tanto quanto torci por Ainda estou aqui no último domingo (2), durante a premiação do Oscar, foi minha torcida por Flow, que tem como protagonista um gatinho preto tentando sobreviver a um mundo que, de repente, sofre uma inundação de proporções bíblicas.

Meu lado gateira falou alto, confesso, mas não foi isso – ou só isso – que me levou às lágrimas já quando eu assisti ao trailer do belíssimo filme da Letônia, vencedor da categoria de melhor animação do ano. Durante a exibição no cinema, então, foi um chororô só. Fiquei absolutamente emocionada.

Sem precisar recorrer à antropomorfização dos bichos, e sonorizada apenas com música e os sons naturais emitidos pelos animais (eles não falam – o que achei um acerto tremendo do diretor Gints Zilbalodis), a película é uma poética parábola sobre as mudanças climáticas. Ou ao menos essa é uma das interpretações possíveis.

Isso não é dito – nada é dito. Não sabemos como o mundo chegou àquele ponto. Por que a água sobe de repente. E naquele volume surreal. Por que os humanos não estão mais ali. Se fugiram. Se sucumbiram.

Tudo o que temos são os animais, suas vocalizações, gestos e expressões faciais – medo, angústia, curiosidade. O gato, o cachorro, o lêmure, a capivara e o secretário (uma ave de rapina, tipo uma garça grandona) em um barquinho, uma espécie de arca de Noé, navegando por campos e cidades submersas, em um esforço para também não desaparecerem.

É uma história de convivência entre os diferentes, de tolerância aprendida. Da necessidade de se adaptarem e cooperarem, ao intuir que somente juntos eles têm alguma chance diante de um cenário sobre o qual eles não têm nenhum controle. Mas também de perplexidade e de desamparo frente a um problema sem solução, como bem descreveu o colega Rodrigo Ratier em sua coluna no UOL. 

Coincidência ou não, é a mesma temática do filme Robô selvagem, que concorreu à categoria de melhor animação do Oscar. Curti. Mas não amei como Flow. No filme à la Disney – na verdade é da Dreamworks –, não há muito espaço para sutilezas ou interpretações. Também não há humanos, mas robôs e animais bem falantes, que não deixam nada sem muita explicação.

Ali também estamos em um mundo pós-apocalíptico, evidenciado na cena em que os gansos, em sua viagem de migração para locais mais quentes, sobrevoam a ponte Golden Gate, na Califórnia, totalmente submersa. E, assim como em Flow, os animais que ficaram no norte precisam se ajudar para sobreviver a um inverno anormalmente rigoroso (sim, essa também é uma consequência das mudanças climáticas).

Uma crítica do site americano mashable.com definiu que os dois filmes são “silenciosamente revolucionários sobre mudanças climáticas”. Mesmo não sendo a mensagem expressa das histórias, o problema está apresentado nelas como “parte inextricável de seus cenários – assim como se tornou uma parte inextricável de nossa própria experiência na vida real”. Concordo.

Em entrevista ao site, Zilbalodis fala sobre as pistas que deixou ao longo do filme de que os humanos em algum momento não só estiveram por ali como sabiam que o nível da água iria subir. O primeiro sinal é um barco que aparece preso nos galhos de uma árvore logo nos minutos iniciais, quando o gatinho está perambulando pela mata. 

A água já subiu até ali em algum momento antes. O mundo já sofreu com aquilo, talvez tenha sido o que levou ao desaparecimento dos humanos. Eles tentaram se preparar, mas não foi o suficiente? Teriam fugido e deixado animais para trás? Esse é o novo normal?

Para a mensagem que o filme tenta passar, isso, na verdade, pouco importa. “Acho que nos importamos mais com um gato nessa situação do que com uma pessoa”, disse Zilbalodis ao Mashable. “Para o bem ou para o mal, nos importamos mais com animais no cinema.”

Chris Sanders, diretor de Robô selvagem, tem uma opinião parecida. “Quando esses eventos acontecem com animais, é pungente, porque eles não tiveram nada a ver com isso”, complementou. 

Impossível não pensar, imediatamente, no cavalo caramelo que ficou dias sobre um telhado na cidade de Canoas (RS), em meio às enchentes que atingiram o estado em maio do ano passado. Assim como nos milhares de gatos e cachorros que ficaram para trás quando a água destruiu suas casas e levou embora seus donos.

É um problema que nós, humanos, causamos, e estamos impondo as consequências a todas as outras espécies com as quais dividimos este planeta – assim como às novas gerações. Daí a força dos filmes, especialmente de Flow.

É pós-apocalíptico, mas não é uma tragédia. Sua beleza é mostrar que o mundo pode continuar existindo. Talvez sem nós. Ou com outro tipo de experiência da nossa parte. Em que caiba cooperação e tolerância entre povos e espécies. Em uma configuração em que a natureza tenha espaço para se readaptar.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem