Buscar
Reportagem

Sete em cada dez vereadoras eleitas nas capitais brasileiras são cristãs

Levantamento inédito do Iser mostra predominância de católicas e evangélicas nas câmaras municipais

Reportagem
21 de abril de 2025
14:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Renan Olaz / CMRJ

A vereadora reeleita no Rio de Janeiro, Joyce Trindade (PSD), é evangélica e frequenta a Igreja Batista. Ela diz que a religião teve influência na sua reeleição, mas não somente isso. “Sou mulher, preta, vim da periferia e fui estudante de universidade pública, não dá para me reduzir somente à minha religião”, completa.

Trindade está entre as vereadoras cristãs eleitas para assumir o mandato entre 2025 e 2028. Elas são maioria nas câmaras municipais das capitais brasileiras, segundo pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Sete em cada dez vereadoras eleitas nas capitais brasileiras são cristãs, de acordo com o levantamento, que mapeou a identidade religiosa das eleitas, ao qual a Agência Pública teve acesso com exclusividade.

Dos 840 parlamentares eleitos nas capitais, 179 são mulheres. Dessas, quase 70%, 125 do total, são cristãs, sendo 55 católicas, 47 evangélicas e 23 de identidade cristã não determinada.

Há ainda 16 afroreligiosas, três espíritas, uma judia – a vereadora de Porto Alegre Fernanda Barth (PL) – e uma de espiritualidade indígena – a vereadora de Florianopólis Ingrid Mawé (PSOL). Três vereadoras foram identificadas como afrocatólicas, por se autodefinirem com duplo pertencimento religioso. A metodologia leva em consideração a autoidentificação (nome de urna, redes sociais) e a heteroidentificação, que se relaciona com o discurso ou fotos em comunidades religiosas durante as campanhas.

Por que isso importa?

  • Levantamento inédito mostra que quase 70% das vereadoras eleitas em capitais brasileiras são cristãs;
  • Entre as evangélicas, maioria é vinculada a igrejas pentecostais e a partidos de direita

Entre as evangélicas, 29 são de igrejas pentecostais (61,7%), sendo a maior parte das Assembleias de Deus (10) e da Igreja Universal do Reino de Deus (7).

Quando se cruza dados de religião com raça, as vereadoras cristãs são predominantemente mais brancas, 55,86% frente a 43% negras. As católicas são as mais brancas (33), e as evangélicas se distribuem entre brancas (27) e negras (22). Das 16 afrorreligiosas, dez são negras, assim como as três afrocatólicas. Todas as espíritas são brancas.

Quanto à vinculação partidária, de acordo com o Iser, o PT e o PSOL são os partidos com maior número de mulheres eleitas no país, 23 e 22, respectivamente. Mesmo assim, a pesquisa mostra um predomínio dos partidos de direita nas vinculações: 45,13% vereadoras são de partidos de direita, 37,43% da esquerda e 15,64% do centro. “As evangélicas estão mais vinculadas a partidos de direita, as católicas se dividem entre direita e esquerda, e as afrorreligiosas são predominantemente de esquerda, com menor participação ao centro e nenhuma de partidos de direita”, diz o estudo.

De acordo com a pesquisadora do Iser Magali Cunha, o cenário acompanha as tendências observadas em candidaturas com identidade religiosa nas eleições anteriores de 2020 e 2022. “Houve um crescimento dessa categoria cristã não especificada, que nem se diz católica ou evangélica. Ao que nos parece, é uma estratégia que avança a cada eleição, numa tentativa clara de alargar o apoio do eleitorado, sem polarizar para nenhum dos lados”, explica.

O estudo do Iser mostra que a Câmara Municipal de São Paulo é a com maior quantidade de mulheres eleitas entre as capitais brasileiras, são 20 parlamentares dos 55 vereadores. Destas, 11 são cristãs, sendo sete evangélicas e quatro católicas. Ainda há uma afrorreligiosa, uma espírita e sete não identificadas.

Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro dividem o segundo lugar com 12 vereadoras em cada. No Rio, destas, sete vereadoras são cristãs, duas afrorreligiosas, uma espírita e duas não identificadas.

Intolerância religiosa

Joyce Trindade foi eleita para a Câmara de Vereadores do Rio, assim como Thais Ferreira (PSOL). “Sou filha de Oxum com Xangô, e isso atravessa não só a minha vida, mas também o meu mandato”, disse Thais, que é candomblecista.

Por assumir uma posição religiosa mais explícita no seu mandato, em defesa das casas de matriz africana como espaços de cuidado e promoção da saúde, ela tem vivido episódios de intimidação dentro da Câmara por outros vereadores.

Vereadora das capitais cristãs, mulher negra de cabelo black power volumoso, fala ao microfone em um ambiente de debate ou conferência. Ela veste blusa preta rendada, brincos prateados e usa um broche com os dizeres "Preto é lindo". Há um copo d’água à sua frente e outras pessoas parcialmente visíveis ao redor.
Vereadora Thais Ferreira em sessão na Câmara dos Vereadores

Atualmente, a vereadora protocolou um Projeto de Lei que institui a política municipal de combate ao racismo ambiental, em que cita as comunidades de terreiro como vítimas desse tipo de violação. Além disso, ela tem articulado com lideranças de terreiros, especialmente nas regiões mais afetadas pela intolerância religiosa. De acordo com a central da Prefeitura do Rio de Janeiro que recebe relatos e denúncias enviadas pela população, no ano passado, a Zona Norte teve 21 denúncias de ataques a terreiros. Em segundo lugar, a Zona Oeste do Rio recebeu 15 denúncias.
Neste ano, nas redes sociais, a vereadora Joyce Trindade, que é evangélica, também recebeu diversas críticas por prestar homenagem à orixá feminina Iemanjá. “Eu perdi muitos seguidores com essa foto, mas se eu perco de um lado, ganho de outro, acabo sendo visto como uma evangélica mais aberta, me favorece”, disse à reportagem.

Publicação na rede social da vereadora Joyce Trindade em homenagem a Iemanjá – Crédito: Reprodução Instagram

Mulheres evangélicas na política

Assembleiana do Ministério Madureira e filha de pastores, a vereadora de Goiânia Aava Santiago (PSDB) foi reeleita neste ano como a quarta parlamentar mais votada entre os 37 vereadores empossados. Entre os parlamentares, apenas cinco são mulheres. Somente Aava e a vereadora Léia Klebia (PODE) foram reeleitas. “É como se internamente na política, as mulheres não pudessem avançar em relação ao número de homens na Câmara. Então, para uma ser eleita, uma precisa sair”, diz.

Vereadora das capitais cristãs com longos cabelos escuros encostada em uma parede amarela, olhando diretamente para a câmera. Ela veste um vestido rosa com estampa floral amarela e está em uma rua com portas de comércio fechadas ao fundo.
Aava Santiago, foi a quarta vereadora mais votada de Goiânia

No ano passado, a vereadora foi convidada pela primeira-dama Janja para uma reunião com o presidente Lula (PT) no Palácio do Planalto sobre a rejeição do governo pelo público evangélico. Ela participou da campanha do presidente durante as eleições de 2022.

“Diferentemente de vereadores da Câmara que saíram pedindo bênção de pastor às vésperas da eleição, minha eleição não se deu em defesa exclusiva dos interesses que atravessam minha fé. E isso é bom, me possibilita transitar por diversas pautas com liberdade, Deus me livre ser cobaia de igreja, isso é ir de encontro ao evangelho de Jesus”, disse à Pública.

Edição:
Eduardo Barreto / CMRJ
Mídia Ninja

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas