Buscar
Reportagem

Prefeitura barrou atuação de coletivos na Cracolândia dias antes de região ser esvaziada

Grupos que atuam com redução de danos foram impedidos de entrar no fluxo; dias depois, usuários não estavam mais lá

Reportagem
17 de maio de 2025
08:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Uma semana antes do esvaziamento súbito da Cracolândia, no centro de São Paulo, grupos que atuam com práticas de redução de danos foram impedidos de entrar na região do chamado “fluxo”. A proibição foi fundamentada por uma diretriz da Prefeitura de São Paulo de dezembro de 2023, que teria sido aplicada só agora, segundo grupos ouvidos pela Agência Pública.

O documento foi apresentado por guardas municipais para quem tentasse atuar no local durante a semana passada, ao menos desde o dia 5 de maio, segunda-feira. No domingo, dia 11, a Cracolândia amanheceu completamente vazia.

O ofício impõe que atividades “fora da rotina” que possam causar aglomerações ou gerar “sons e ruídos adicionais” só podem acontecer após autorização da subprefeitura da Sé. A medida, segundo o ofício, visa “reduzir conflitos e perturbação do sossego” de moradores e comerciantes. Ele também determina que entidades que atuam no local deveriam ser previamente orientadas. Mas os grupos dizem que foram pegos de surpresa.

O documento é assinado por Edson Aparecido, secretário de Governo Municipal, e Edsom Ortega, secretário de Projetos Estratégicos da gestão Ricardo Nunes (MDB-SP). Ortega é o responsável pela zeladoria e segurança da Cracolândia. Suas medidas para o local, porém, são criticadas por defensores dos direitos humanos – como a instalação de grades que ocupam um terço da rua. Em 2012, quando fazia parte da administração de Gilberto Kassab, Ortega chegou a proibir a distribuição de marmitas no centro.

Dificuldades de acessar a Cracolândia

Grupos de redução de danos costumam usar atividades culturais ou lúdicas para ganhar a confiança de pessoas em situação de vulnerabilidade e, assim, trocar ideias sobre cuidados de saúde, orientações e até a redução do uso de substâncias.

A reportagem recebeu relatos de que eles vinham sendo impedidos de entrar na Cracolândia desde o fim do ano passado, sem justificativa. “No começo, os guardas não sabiam dizer por quê nos impediam de entrar. Depois [a partir de maio deste ano], apresentaram esse documento [de 2023]. A gente acredita que esse impedimento já era uma estratégia para o que está acontecendo agora: esse espalhamento da Cracolândia com violência”, afirma Marquinho Maia, do coletivo Pagode na Lata, que há oito anos realiza rodas de samba como forma de criar vínculo com usuários. “Eu conheço pelo menos quatro, cinco pessoas machucadas pela violência da polícia.”

O veto também atingiu outros grupos, como o TTT (Teto, Trampo e Tratamento), que faz atividades circenses, e o Cine Fluxo, de cinema. Flávio Falcone, médico e integrante do TTT, relata que ele e outros colegas foram obrigados a se retirar da região após abordagem direta da guarda municipal no último dia 9 de maio.

“O guarda falou assim: ‘Ligamos agora para o secretário Edsom Ortega e ele disse que o projeto não está autorizado a fazer atividade no fluxo. Eu peço que vocês se retirem’”, disse o médico, que acatou a ordem. O Pagode na Lata e o TTT afirmam que só puderam acessar a Cracolândia nos últimos meses em situações em que estavam acompanhados da imprensa. “Estamos vivendo uma guerra contra a redução de danos”, aponta Falcone.

Imagem mostra Cracolândia vazia

Esvaziamento suspeito

Nesta semana, representantes da Defensoria Pública de São Paulo fizeram uma reunião com integrantes da prefeitura para tentar entender onde foram parar as pessoas que costumavam permanecer na região. Ouviram, segundo relatos, a mesma explicação que a prefeitura vem dando: que elas teriam sido encaminhadas a serviços públicos, sem especificar onde e nem como. Uma pessoa que estava presente citou o encontro como “bizarro”.

Em resposta à reportagem, a Secretaria Executiva de Projetos Estratégicos da prefeitura respondeu que mantém diálogo com os movimentos e que se reuniu com representantes deles recentemente. Afirmou ainda que, entre janeiro e março de 2025, foram realizados 7.525 encaminhamentos de pessoas em situação de vulnerabilidade do fluxo para serviços públicos na região, que seria um aumento de 20% do que no mesmo período do ano anterior. Ainda segundo a prefeitura, a média de pessoas presentes no fluxo no período da tarde caiu de 651, em 6 de maio de 2024, para 103 em 6 de maio de 2025.

A versão, porém, é contestada por parlamentares e defensores de direitos humanos. O mandato do deputado estadual Eduardo Suplicy (PT) oficiou a Prefeitura, a Secretaria de Assistência Social, a Secretaria de Saúde e o próprio Edsom Ortega sobre a proibição.

“O ofício assinado por Ortega determina que as atividades no fluxo só podem ocorrer com autorização da subprefeitura da Sé, mesmo que se enquadrem na Lei do Artista de Rua, que dispensa autorização prévia. Isso inviabiliza as ações dos coletivos, mesmo as que estavam ocorrendo há anos, de forma pacífica e contínua”, diz Amanda Amparo, pesquisadora e assessora do deputado.

“Tudo isso indica que o afastamento dos coletivos é mais uma forma de fragilizar essas pessoas. É um desgaste deliberado, uma estratégia para afastá-las do território”, aponta.

O Grupo de Trabalho Interinstitucional na Assembleia Legislativa de São Paulo sobre a Cracolândia está preparando um relatório com denúncias recebidas de violações de direitos humanos, incluindo violência física por parte da GCM, revistas vexatórias, insultos racistas e até casos de dinheiro rasgado na frente dos usuários. O documento deve ser apresentado nos próximos dias.

Edição:
Cadu Pinotti/Agência Brasil

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso