Buscar
Coluna

Em busca de saídas para a sobrevivência do multilateralismo climático

Piora da geopolítica com avanços de Trump sobre Venezuela e Groenlândia põe em xeque combate à crise climática

Coluna
29 de janeiro de 2026
17:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Nem parece que há pouco mais de dois meses estávamos terminando a COP30, em Belém, se não exatamente satisfeitos com os resultados – muito aquém do necessário para enfrentar para valer a crise climática –, mas ao menos com algum grau de alívio de que o multilateralismo parecia estar sobrevivendo, apesar dos esforços em contrário de Donald Trump.  

Corta para janeiro, Estados Unidos invadem Venezuela e sequestram Maduro com a justificativa descarada de tomar posse das maiores reservas de petróleo do mundo, se assanham sobre a Groenlândia atrás, entre outras coisas, das riquezas minerais escondidas sob o manto de gelo que derrete e colocam mais lenha na fogueira de um planeta em franco aquecimento. O multilateralismo, já abalado, agora respira por aparelhos. 

Mudança do clima, nessa toada, cai alguns degraus na lista de prioridades dos governantes. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, o problema nem sequer foi mencionado nos discursos dos principais líderes, ainda atordoados com os avanços de Trump. E essa ausência deveria disparar um sinal de alerta bem estridente para todo mundo. Porque o problema não vai entrar em modo de descanso à espera de condições geopolíticas melhores. Pelo contrário.

Os sinais de piora do clima estão por todos os lados. Enquanto os Estados Unidos passam por uma nevasca histórica (o que também pode ser um cenário piorado pelas mudanças climáticas), a Austrália, nesta semana, em meio a uma onda de calor, registrou temperaturas próximas a 50 °C. 

Um estudo publicado na revista Nature Sustainability estimou que em apenas 25 anos, se o aquecimento do planeta superar 2 °C em relação aos níveis pré-industriais, quase metade da população mundial deverá viver em condições de calor extremo. Em 2010, cerca de 1,5 bilhão (23% da população) viviam nessas condições. Em 2050, poderão ser quase 4 bilhões (41%). A temperatura média do planeta já está, virtualmente, 1,5 °C mais quente.

É neste contexto conturbado que o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago, presidente da COP30 – que segue à frente das negociações climáticas internacionais até o início da COP31, em novembro –, fez um apelo nesta semana por uma nova forma de encarar o multilateralismo climático. Por um modelo que traga uma nova “velocidade institucional”.

Em mais uma carta dirigida à comunidade internacional, Lago ressalta que “a urgência climática não esperará até que as condições políticas e socioeconômicas se tornem ideais” e propõe que “para acompanhar o ritmo do aquecimento global, o multilateralismo precisa aprender a operar em mais de uma velocidade institucional — para passar a um multilateralismo em dois níveis”.

Lago se refere aos limites cada vez mais evidentes da necessidade de se definir a ação climática global por meio de consenso entre todos os países. Esse é o modelo de multilateralismo que vigora nas conferências do clima da ONU. A proposta é que se pense com mais afinco num segundo nível, mais focado na ação.  

“A COP30 também lançou luz sobre os limites do multilateralismo climático e da tomada de decisões por consenso. À medida que avançamos em nosso trabalho em 2026, que encaremos esses limites não como fronteiras intransponíveis, mas como sinais valiosos, que nos ensinam que o multilateralismo climático amadureceu e está pronto para evoluir”, escreve.

Por um lado, defende que parte do processo de ação climática – ou “velocidade institucional”, como ele descreve – ainda deve permanecer ancorada no consenso. “Ele assegura legitimidade, universalidade, clareza jurídica e direção coletiva – permanecendo indispensável e insubstituível”, diz.

“Uma segunda velocidade institucional deve concentrar-se na implementação. Ela deve permitir que coalizões voluntárias e atores prontos para tanto mobilizem recursos, implementem soluções e gerem aprendizado em escala – sem reabrir diretrizes já acordadas por consenso no primeiro nível”, complementa.

“Se acreditamos na ciência, se acreditamos que temos uma necessidade urgente de acelerar o que precisa ser feito para combater a mudança climática, precisamos estimular coalizões [voluntárias de ação climática]. Temos de promover e ajudar que mais e mais países se juntem a essas coalizões até que isso se torne consenso. Mas não vamos esperar que haja consenso para começar a agir”, complementou Lago em entrevista coletiva.

É um esforço louvável da equipe brasileira frente a COP30 de manter a bola quicando. Um jeito de incentivar que a roda do clima gire sem as amarras de um processo que já se provou bem limitado. Mas, mais importante do que isso, para que não acabe travada caso o sistema formal venha a desmoronar completamente com o caos geopolítico. 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer

1ª Coletiva do Ministro Kassio Nunes Marques no TSE - 04.10.2026

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

|

Para juristas, desequilíbrio da Corte fica evidente na agilidade de análise de alguns pedidos, não no teor da decisão

PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”

|

Amigo de Flávio Bolsonaro e ex-oficial de inteligência suspeito de espionar adversários de Jair Bolsonaro negam relação