Buscar
Crônica

Fila

A fila é o momento de jogar conversa fora, é como um organismo vivo, próprio, mutante

Crônica
24 de janeiro de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A fila é um universo em suspensão. Na fila, não há nada a fazer senão esperar. É o momento de jogar conversa fora, de comentar de tudo, desde o que vai ter no almoço até a falta de laterais na seleção brasileira ou, ainda, para o desconforto dos demais, a fila também pode ser o momento de discutir a relação. Para o paulista, a fila é até um motivo de alívio, afinal, se tem fila, você provavelmente está no lugar certo nessa cidade imensa. Para o músico, a fila é o momento de aproveitar uma plateia involuntária e descolar a moeda do almoço. Para o apressado, a fila é lugar de reclamar, bater o pé e pedir o horário com a exatidão intransigente dos minutos, só para desistir prontamente. “Não tem paciência, mas aqui a fila anda rápido”, comentam, protegendo a fila, depois que o engomadinho de pólo rosa deixa a formação. A fila se dissipa e se reconstrói várias vezes ao dia. Ela é como um organismo vivo, próprio, mutante. Saber quando entrar numa fila é como saber entrar numa onda. E, na fila, pode-se contar com a gentileza dos estranhos. Uma moeda emprestada hoje, pode voltar no almoço de amanhã ou como sobremesa em dobro, num gesto sutil que, quanto menos solene, mais bonito parece.

Faltavam cinco minutos para às 7h. Ainda era cedo para os sinos da igreja ressoarem pelo bairro, mas ela já estava lá. E tão rapidamente quanto se formou, a fila logo se desfez. Às 9h30, ressurgiu, e já reunia dez pessoas. Outros três espiavam da rua para dentro do galpão. Às 10h, já eram trinta pessoas esperando o almoço, em sua maioria idosos – e essa é a melhor hora de entrar na fila. Entre as 10h e 10h30, quando a entrada no refeitório é liberada, é o momento em que a fila triplica de tamanho. Em dias de feijoada, a palavra se espalha rápido e a fila passa da banca de jornal da esquina, chegando a 150 pessoas. A fila pode ser rápida, mas a espera do almoço tem mais horas em sua vantagem, o que torna o tempo da fila uma experiência muito singular, intransferível, só. Tirania do estômago, em alto e bom som.

O velho quase saiu da fila, mas seu gesto foi cortado no ar. Voltou a cavar os bolsos. “Puta merda, esqueci a moeda no bolso da bermuda!”, disse ao vento. Seu Antônio tem uma longa barba branca, à la Hermeto Pascoal. São parecidos de rosto e até na prosa. Seu Antônio vem todos os dias para a fila, mas faz questão de dizer que é só até resolver a questão da aposentadoria. “Depois, só vou vir, assim, muito de vez em quando para ver os colegas. A gente faz muita amizade aqui, sabe?”, sorri. É mesmo um cara de muitos amigos. Quase no mesmo instante em que acusou que tinha esquecido o dinheiro, ganhou uma moeda – emprestada, claro –, pela qual agradeceu já se oferecendo para pagar o almoço do dia seguinte. Encontro marcado: amanhã, 10h30 da manhã, na fila.

A fila entra pelos portões azuis e, então, o tempo ganha o ritmo acelerado dos funcionários que servem a comida no balcão. É o tempo da linha de produção, marcado mais pelo soar dos talheres de metal do que pelo relógio ao alto, cujos ponteiros apontam o horário com garfo e faca. Bandejas beges para quem come pouco, bandejas laranjas para quem come bem. Olhares de censura para quem desperdiça comida são severos e silenciosos. Todos são iguais perante o Bom Prato. Todos são iguais perante a fila. Corintianos e palmeirenses comem o mesmo bife de fígado acebolado e recebem a mesma mexerica miúda de sobremesa. Operadores de telemarketing e zeladores repetem a mesma carne de panela com cenoura. Vendedoras de lojas de departamento e moradores de rua celebram o dia da feijoada com o mesmo gosto. Depois, uns sentam pela porta para ver o dia passar, outros voltam ao trabalho correndo. Entregadores de aplicativo se reúnem entre as motos e jogam conversa fora, enquanto esperam os pedidos voltarem a apitar. Então, deitamos sob o mesmo céu para o sagrado repouso de uma quarta-feira de sol.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas