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Anvisa investiga 65 mortes suspeitas relacionadas ao uso de canetas emagrecedoras

Mortes suspeitas ligadas a remédios como Ozempic e Mounjaro vão além da pancreatite; Anvisa ressalta segurança de caneta

Reportagem
18 de fevereiro de 2026
18:47
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Ilustração sobre foto de HualinXMN/Creative Commons

Um total de 65 mortes está em investigação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como casos suspeitos de complicações diversas de saúde associadas ao uso de canetas emagrecedoras no Brasil nos últimos sete anos. Os registros da Anvisa, levantados a pedido da Agência Pública, datam de dezembro de 2018 a dezembro de 2025 e não incluem ocorrências deste ano. No mesmo período, os dados da agência também mostram um total de 2.436 notificações de eventos adversos relacionados ao uso da medicação, que vão de náuseas e diarreia até “experiências de morte iminente”.

A Anvisa acompanha as notificações para o controle de segurança de qualquer medicamento, não apenas as dos agonistas de GLP-1, como são classificadas as canetas emagrecedoras, indicadas para o tratamento de diabetes, obesidade e excesso de gordura no fígado. Essas substâncias são conhecidas assim por imitarem o hormônio GLP-1, produzido no sistema digestivo para controlar os níveis de açúcar no sangue e que afeta também a sensação de saciedade, por retardar o processo de digestão.

As notificações da Anvisa envolvem quatro substâncias: a semaglutida (vendida sob os nomes comerciais Ozempic e Wegovy), a liraglutida (que já possui versões biossimilares de vários laboratórios), a dulaglutida e tirzepatida (ainda vendidas exclusivamente sob o nome comercial Mounjaro). O levantamento, no entanto, computa todos os tipos de registros, sem caracterizar quais seriam substâncias regulares, vendidas em farmácias com recomendação médica, ou quais seriam feitas sem acompanhamento, ou com imitações irregulares dos remédios, a exemplo das chamadas canetas do Paraguai ou medicamentos manipulados.

A Anvisa já havia divulgado que investigava seis mortes suspeitas por complicações a partir de pancreatite associada ao uso das canetas, entre 2020 e 2025, segundo dados do sistema VigiMed, mas os registros são mais de dez vezes superiores quando considerados todos os óbitos em análise. A pancreatite é um tipo de inflamação no pâncreas, órgão que interfere diretamente na digestão e no controle da glicemia (açúcar no sangue) no organismo humano.

Entre os eventos adversos, complicações laterais que podem surgir durante o tratamento, a maioria já prevista em bula, a maior parte dos registros se resume a náuseas, vômitos, mal-estar e diarreia. Os registros mais graves representam 1% do total de 2.436 notificações entre 2023 e 2025 e incluem a pancreatite, a astenia (falta de força e disposição que não passa mesmo após dormir) e a experiência de morte iminente, com 71 ocorrências. A agência esclarece que “uma única notificação pode conter mais de um evento adverso, podendo, portanto, registrar mais de um desfecho”.

Considerando apenas esses últimos três anos, quando as quatro substâncias estavam em circulação no mercado brasileiro, a semaglutida (Ozempic/Wegovy) respondeu por 69% dos eventos adversos registrados, a liraglutida e a tizerpatida (Mounjaro) por 15% cada.

A Pública está investigando o universo das indústrias ligadas à obesidade, à alimentação e aos medicamentos, incluindo a realidade, os riscos e os interesses por trás das canetas emagrecedoras em reportagem que culminará no lançamento do podcast A Última Bolacha, em março deste ano.

Segurança

É papel da Anvisa acompanhar quaisquer novas informações e registros de adversidades para confirmar ou rever os parâmetros do que considera seguro para que a população possa ter acesso no comércio de medicamentos no Brasil. Justamente por isso, a agência emite alertas e pedidos de revisão de bula após avaliações regulares.

No caso das canetas emagrecedoras, a agência já havia emitido alertas para a possibilidade de cegueira e para o risco do uso em pacientes que passariam por sedação, antes de publicar um aviso do risco acentuado de pancreatite, neste ano. O alerta se deu após análise de dados publicados pela MHRA, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido, que apontou aumento no caso da doença em pacientes que faziam uso das canetas. No país europeu, foram 1.296 casos de pancreatite entre 2007 e 2025, com 19 mortes suspeitas.

A Anvisa ressalta que, apesar de lidar com a notificação e investigar a questão, não há como afirmar que o medicamento suspeito seja o causador da morte. “Para saber se existe realmente uma relação, é necessária uma avaliação clínica e científica completa que considera diversos elementos: condição clínica do paciente; uso concomitante de outros medicamentos; outras possíveis explicações para o evento; qualidade e completude das informações fornecidas na notificação; e procedência e regularidade do medicamento utilizado”, informou a agência em nota, ressaltando que os registros não devem ser interpretados como “prova de que o medicamento provoca o problema ou de que não é seguro”.

A Pública entrou em contato com a Novo Nordisk, empresa que concebeu a semaglutida e liraglutida, substâncias que concentram 85% das notificações de eventos adversos nos registros da Anvisa. Segundo a companhia dinamarquesa, globalmente “não houve nenhum crescimento alarmante nos relatos de farmacovigilância que apontassem qualquer mudança no perfil de segurança dos medicamentos” e que “eventos adversos representam relatos espontâneos e não estabelecem, por si só, relação causal confirmada com o uso de um medicamento”.

A Novo Nordisk não revelou se o número de mortes em seus registros internos seria igual ou superior ao relatado pela Anvisa, nem se os ensaios clínicos com os pacientes acompanhados registraram experiências de morte iminente. A empresa destacou ainda que a semaglutida passou por estudos de longo prazo com 54 mil pacientes e ressaltou os perigos da importação de insumos para produção irregular das canetas, o que, em um ano e meio, ocorreu no Brasil o suficiente para a produção de 8 milhões de medicamentos irregulares até setembro de 2025. Confira a íntegra da resposta.

A norte-americana Eli Lilly, fabricante da tirzepatida, comercializada sob o nome comercial Mounjaro, também foi procurada por telefone e e-mail, mas até o momento não houve resposta. Assim que houver manifestação, este espaço será atualizado.

Edição:

Atualização em 19/02/2025, às 18h58: texto atualizado para incluir a resposta da empresa Novo Nordisk.

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