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A rara Terra

Imagens feitas pela Artemis 2 podem não mostrar o degelo da Antártida, mas lembram que nosso planetinha é único

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9 de abril de 2026
17:06

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A retomada das viagens espaciais da Nasa à Lua com a missão Artemis 2 na última semana trouxe nas redes sociais comparações das fotos da Terra feitas agora pelos astronautas e as registradas há pouco mais de 50 anos, em 1972, quando os norte-americanos foram pela última vez ao nosso satélite. Um dos comentários que apareceu por aí foi de que seria possível ver nas imagens sinais claros do aquecimento global. Na de 1972 haveria muito mais gelo nos polos do que na de 2026.

De “cabeça para baixo”, em posição inversa àquela que estamos acostumados a ver o globo, as imagens trazem, no alto, a região Antártida. Com menos áreas brancas que a de 1972, parece mesmo que a Terra está com muito menos gelo em 2026.

Contrariando os princípios jornalísticos, acreditei, sem checar, que isso fazia todo sentido – afinal, sei bem que as áreas congeladas do planeta estão diminuindo – e acabei compartilhando uma dessas postagens no Instagram. Mas depois bateu a pulguinha atrás da orelha que é dever de bater em todo jornalista: “Será mesmo?” O enquadramento era diferente, poderia não ser bem aquilo.

Entrei em contato, então, com um dos maiores especialistas em Antártida no Brasil, o Francisco Aquino, mais conhecido como Chico Geleira, pesquisador do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele me explicou que não é possível comparar o gelo marinho e do continente antártico entre as duas fotos por causa do ângulo da imagem mais recente.

“Pela posição da foto mal dá para ver o gelo marinho na volta da Antártida. A posição da foto não favorece ver a Antártida, está muito no limite do horizonte da foto. Na de 1972, a posição favoreceu mesmo enxergar parte da África austral em direção à Antártida e por isso é fácil ver o gelo marinho”, afirmou.

O que não quer dizer, claro, que o problema não está lá. “Estamos batendo valores muito baixos de gelo marinho ao redor da Antártica em consequência da mudança do clima. Atingimos o mínimo de gelo no verão em 26 de fevereiro deste ano. E no inverno também temos visto valores menores de máximo de gelo”, explicou Chico Geleira.

De acordo com a Nasa, a Antártida está perdendo massa de gelo a uma taxa de 135 bilhões de toneladas por ano. A Groenlândia, quase o dobro disso: 266 bilhões de toneladas por ano, o que contribui para o aumento do nível do mar. O New York Times, aliás, publicou uma reportagem aterradora de como o mundo pode ser afetado com o derretimento da Antártida. Vale checar os gráficos aqui.

Não são poucos os indicadores que mostram como a Terra de 2026 está bem avariada, na comparação com a de 1972. A concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera saltou de 327 ppm (partes por milhão) para 424 ppm (dados de 2024), o que tem se traduzido em aumento da temperatura.

Se em 1972 a temperatura média da Terra ainda estava na média do século 20, hoje estamos falando de quase 1,5°C acima. Os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes do registro histórico. O nível do mar subiu mais de 10 centímetros nesses pouco mais de 50 anos. O aumento de ondas de calor e de eventos extremos é a face mais visível dessas mudanças.

Ainda assim, a Terra vista de fora continua sendo uma das coisas mais emocionantes das aventuras humanas pelo espaço. E um lembrete de que, apesar de chegarmos à Lua e termos planos para ir até Marte, de que talvez sejamos até capazes de montar bases habitáveis por lá, ainda este é o único planeta com capacidade de receber vida como a conhecemos. Não é papo de ambientalista dizer que não existe planeta B.

“Percebi não apenas a beleza do planeta, mas também a imensidão da escuridão ao seu redor, e como isso a torna ainda mais especial”, afirmou a astronauta Christina Koch, uma das tripulantes da missão e primeira mulher a sobrevoar a Lua.

“Isso realmente enfatizou o quanto somos parecidos, como a mesma coisa mantém cada pessoa no planeta Terra viva”, continuou. “Evoluímos no mesmo planeta, compartilhamos algumas características universais sobre como amamos e vivemos, e a singularidade e o valor disso se tornam ainda mais evidentes quando percebemos tudo o que existe ao nosso redor.”

Não foi só ela. O piloto Victor Glover, igualmente pioneiro – é o primeiro negro a viajar ao nosso satélite natural, também deu declarações muito tocantes. “Em todo esse vazio, nesse grande nada, essa coisa que chamamos de universo. Você tem este oásis, este lugar lindo onde podemos existir – juntos“, afirmou, em pronunciamento compartilhado pela Nasa no domingo de Páscoa.

Religioso, Glover evocou à Bíblia, mas pediu para que as pessoas, independentemente da crença, vissem aquilo como “uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos todos iguais e que precisamos superar isso juntos”. Foi também uma mensagem pela paz em tempos de guerra.

Em 1968, quando a humanidade viu pela primeira vez a Terra do ponto de vista do espaço – a imagem clássica do “nascer da Terra” –, o astronauta Jim Lovell disse algo parecido a bordo da Apollo 8: “A Terra daqui é um grande oásis na grande vastidão do espaço”.

A imagem de 1968, que inspirou Caetano Veloso a compor Terra, é amplamente creditada como algo que impulsionou o movimento ambientalista no mundo. Já se sabia que estávamos alterando perigosamente o planeta, que ele era algo único e muito frágil nesse mundão, mas a gente ainda não tinha nem ideia do quanto.

Impossível não refletir, vendo novas fotos tão lindas e impactantes, sobre como aquela compreensão e toda a ciência gerada desde então – em grande parte com o auxílio de tecnologias de monitoramento desenvolvidas em decorrência da exploração espacial –, foram fundamentais para mostrar que o rumo está errado e para nos dar ferramentas para mudá-lo. Mas isso ainda não aconteceu. Vem bem a calhar um lembrete de quão rara é a Terra.

Reprodução/NASA

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