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Análise

Retórica cristã e ataque ao Papa podem “sair pela culatra” para Trump

Atitudes do presidente dos EUA e estilo messiânico podem afastá-lo do cristão conservador

Análise
14 de abril de 2026
14:34
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Imagem de IA com a bandeira dos EUA e do presidente Donald Trump
Reprodução / Truth Social

Eu sou o salvador escolhido por Deus. Foi essa a mensagem que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comunicou ao se igualar à figura de Cristo numa imagem gerada por IA, onde aparece curando um doente ao tocá-lo com uma luz divina que emana das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartilhado depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutrina católica, o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra. 

Trump chamou Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou que o líder católico não teria sido escolhido se ele “não estivesse na Casa Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, apagando a postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto do tom abertamente bélico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na narrativa de batalha espiritual trumpista, que tem sido ativada para justificar a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar um racha no campo cristão conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute na santa” pode sair pela culatra. 

Declaradamente cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar a retórica cristã quando convém, assim como Bolsonaro, que se porta à sua imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as “guerras santas” históricas, mas que tem ganhado novos elementos no seu atual governo, observa a socióloga da religião pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser. 

“Ele adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é fundamental – o capitalismo versus o comunismo, Oriente contra Ocidente, por exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás, a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explica.

Acontece que, no caso de Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado, segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump, assim como evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries, os chamados “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham e a conselheira espiritual do presidente estadunidense, a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula White, que comparam o presidente dos EUA a Jesus em suas falas, ajudam a amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra do Irã.

No setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy, secretário de transportes do governo Trump, estão entre os principais propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo já adulto, representa o crescimento da religião nos EUA, onde aproximadamente 20% da população é católica, segundo dados recentes do Pew Research. 

“Num mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser lida como uma lógica de espiritualidade que segue pelo caminho do meio, uma espécie de terceira via”, explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto como símbolo desse comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que têm também um respeito à figura do Papa”, diz Tesser.  

A diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já vinha dando sinais de desgaste. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações semanais do Angelus, em março, denunciou a violência atroz contra o Irã. No sábado passado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na Praça de São Pedro em uma oração pela paz, o que foi interpretado por Trump como um levante contra ele. 

Leão 14 respondeu às críticas afirmando que não tem medo do presidente dos EUA e que seu papel não é o de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos EUA, Paul Coakley, também reagiu. Ele se disse desconfortável com as palavras de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”, afirmou. 

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu nota em apoio ao Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos EUA e a Igreja Católica. Contudo, já é possível afirmar que “a declaração impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maioria seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”, diz a socióloga.

Ela acrescenta que, “na perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que se associa à imagem de Deus, se rompe com uma dimensão teológica e isso pegou muito forte”, avalia. “Ou seja, ele ficou sendo odiado por ambos os lados. É algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar um racha no campo da ultradireita cristã conservadora”, conclui Tabata Tesser . 

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