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Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Reportagem
6 de outubro de 2026
17:00

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Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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Em meio às acusações sobre a interferência das Big Techs na integridade eleitoral brasileira, plataformas digitais continuaram veiculando anúncios políticos irregulares e recomendando conteúdos de candidatos durante o período de resguardo do primeiro turno das eleições de 2026.

O período de resguardo para a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet compreende as 48 horas anteriores e as 24 horas posteriores à votação, conforme previsto no art. 29, § 11, da Resolução TSE nº 23.610/2019. A norma também define, nos artigos 28 e 29, as formas de propaganda eleitoral na internet e as regras para o impulsionamento de conteúdo. 

O monitoramento identificou 568 anúncios irregulares na Meta, 18 anúncios ativos no Kwai e um no Google Ads, além de ao menos seis campanhas fraudulentas que imitavam o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento também encontrou recomendações orgânicas de conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos no TikTok e no YouTube durante o dia da votação. Os dados são do Observatório das Big Techs, realizado pelo NetLab UFRJ, laboratório de pesquisa sobre internet e redes sociais vinculado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

O monitoramento foi dividido em duas frentes: o Observatório da Publicidade Política, voltado aos anúncios pagos, e o Observatório da Recomendação Algorítmica, que analisou os conteúdos sugeridos organicamente por TikTok, YouTube e Instagram.

Anúncios de TSE falso dizem que eleitor poderia votar pela internet

Na frente de publicidade política, foram identificados os 568 anúncios veiculados irregularmente na Meta relacionados a 15 candidatos, além de 18 anúncios ativos no Kwai e um anúncio ativo no Google Ads durante o período de resguardo. No Kwai, os pesquisadores também encontraram 45 anúncios de 10 páginas de candidaturas cuja data-limite de circulação havia sido alterada para permitir que continuassem ativos no dia da votação.

Entre os casos identificados na Meta estão ao menos seis campanhas fraudulentas que se passavam pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou pela Justiça Eleitoral. Segundo o NetLab, os anúncios eram veiculados tanto por perfis que imitavam contas oficiais, utilizando a marca da Corte e nomes como “TSE Informa”, quanto por contas aparentemente pertencentes a usuários comuns.

As campanhas promoviam a falsa ideia de que o TSE teria criado uma modalidade oficial de “voto digital”, que permitiria ao eleitor votar remotamente, de casa ou pelo celular. Para dar credibilidade à fraude, os anúncios exploravam situações que poderiam dificultar o comparecimento presencial às urnas, como fortes chuvas, problemas de saúde e dificuldades de locomoção.

Ao clicar nas peças, o usuário era direcionado para sites externos que solicitavam o CPF para supostamente iniciar a votação. Uma das mensagens identificadas no monitoramento dizia: “Você não precisa de fila para votar. O TSE criou o voto digital para que você participe desta eleição pelo celular, com total segurança e praticidade”. O NetLab aponta que esse tipo de conteúdo poderia induzir eleitores a acreditar que não precisariam comparecer presencialmente às suas seções eleitorais, além de criar riscos relacionados à coleta de dados pessoais.

O monitoramento também identificou anúncios da loja Vinho B II Mito, que promoviam produtos como vinhos, facas e bonés utilizando imagens de figuras políticas e manifestações explícitas de apoio a candidaturas.

O boletim aponta problemas de transparência nas próprias ferramentas utilizadas para fiscalizar a publicidade. Na Meta, os pesquisadores encontraram inconsistências entre os anúncios classificados como “inativos” e aqueles que permaneciam disponíveis como ativos na biblioteca da plataforma. No Kwai, foram identificados rótulos como “em pausa”, sem documentação clara sobre o significado desses status, além de divergências entre os dados exibidos na plataforma e os dados que poderiam ser exportados para análise.

Para a Pública, o Google afirmou que a política da empresa proíbe anúncios políticos no Brasil e que suas equipes atuam para impedir violações. A empresa também diferenciou a publicidade paga do conteúdo orgânico no YouTube, afirmando que, neste último caso, aplica suas Diretrizes da Comunidade de forma independente do alinhamento político dos criadores.

Íntegra do posicionamento do Google

“O Google apoia as eleições do Brasil ao conectar milhões de pessoas a informações confiáveis e de alta qualidade. Desde 2024, as políticas do Google Ads proíbem anúncios políticos no Brasil. Nós aplicamos nossas políticas e agimos imediatamente em caso de qualquer violação. Este estudo prova que nossas equipes preveniram abusos com sucesso e, por isso, apenas um anúncio foi identificado. Desde maio de 2024, o Google proíbe o uso do Google Ads para anúncios políticos no Brasil. Isso significa que anúncios relacionados a candidatos, partidos ou às eleições não são permitidos em nossas plataformas (inclusive durante as Eleições Gerais de 2026 no Brasil). Para o conteúdo orgânico no YouTube, aplicamos nossas Diretrizes da Comunidade globais e disponíveis publicamente de maneira consistente, independentemente do alinhamento político do criador, para proteger a integridade da plataforma e apoiar uma economia de criadores robusta e aberta.”

TikTok “para você” recomenda conteúdos políticos no dia de votação

Na segunda frente, o Observatório da Recomendação Algorítmica analisou como as plataformas recomendaram conteúdos políticos e de candidatos no dia da votação. Segundo o NetLab, a Resolução TSE nº 23.732/2024 estabelece regras sobre sistemas de recomendação e a propaganda eleitoral na internet. O monitoramento identificou recomendações de candidaturas pelo TikTok e pelo YouTube.

No TikTok, o feed “Para Você” apresentou a maior proporção de recomendações relacionadas à política, com 53,8% das sugestões analisadas sobre o tema. A plataforma recomendou 18 vídeos únicos de sete contas oficiais de candidatos. Flávio Bolsonaro (PL) apareceu em seis recomendações, seguido por Lula (PT) e Fernando Haddad (PT), com quatro cada. Jones Manoel (PSOL) e Gustavo Gayer (PL) tiveram duas recomendações cada, enquanto Nikolas Ferreira (PL) e Biólogo Henrique (MDB) tiveram uma cada.

No YouTube, a aba Shorts apresentou uma proporção menor de conteúdo político, de 1,26% das recomendações, mas também continuou sugerindo conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos. Foram identificados 17 vídeos únicos de seis contas de candidatos. Lula apareceu em quatro recomendações, enquanto Jerônimo Rodrigues, Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad tiveram três cada. Nikolas Ferreira apareceu em duas recomendações.

Já no Instagram, o monitoramento não identificou recomendações de conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos na seção Reels. Os conteúdos relacionados à política representaram 1,8% das recomendações analisadas.

O NetLab aponta que a permanência dessas recomendações no dia da eleição pode produzir assimetrias de visibilidade entre candidaturas. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que as limitações de transparência das plataformas impedem determinar a dimensão exata dessas irregularidades e de seu alcance. Os resultados representam apenas uma amostra do problema, e não o universo completo de anúncios e recomendações que circularam durante o primeiro turno.

Edição:

*Atualização às 14h38 de 07/10/2026: Inserimos o retorno do Google.

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