Buscar
Reportagem

Gestão Nunes assinou contrato com ONG apontada como “de fachada” pelo TCU em 2012

Contrato de R$ 157 mi do Instituto Conhecer Brasil com a gestão Ricardo Nunes está sob investigação

Reportagem
2 de junho de 2026
11:14
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Colagem com as fotos do prefeito de SP Ricardo Nunes e Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse
Matheus Pigozzi/ Agência Pública - Governo do Estado de São Paulo/ Reprodução/ Redes Sociais

Uma auditoria obtida com exclusividade pela Agência Pública, feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2012, é taxativa ao afirmar que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, é uma entidade “de fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, sob a mesma presidente, assinou um contrato com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), de R$ 108 milhões para fornecer 5 mil pontos de internet para comunidades vulneráveis na capital paulista.

Karina Ferreira da Gama é também a proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como a Pública revelou em 26 de maio, o contrato da ICB teve um aditamento no final do ano passado, que elevou seu total a mais de R$ 157 milhões, para a instalação e manutenção de 3,2 mil pontos de internet, 64% do volume inicialmente contratado. O aditamento foi feito seis dias depois de o caso ter vindo à tona, em reportagem do Intercept Brasil, e ser alvo de pedidos de investigação. Antes deste aditamento, outros três aditamentos haviam antecipado pagamentos sem que as metas de serviços fossem entregues.

Na manhã desta segunda-feira, 1 de junho, a investigação deu um novo passo, com uma operação policial em endereços pessoais de Karina, da produtora do filme e da entidade que preside, além da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Na investigação, são apuradas as suspeitas de fraude na licitação, na execução do serviço contratado e o suposto desvio de dinheiro público, além de confusão patrimonial e desvio de finalidade dos recursos.

Alertas de irregularidades ignorados

Muitos dos problemas agora revelados nas investigações sobre o contrato do ICB com a gestão Nunes já eram apontados mais de uma década antes em um relatório feito pelo TCU, sobre entidades que haviam recebido recursos do Ministério da Cultura em 2010.

O contrato do ICB que é alvo da auditoria, de R$ 553 mil no valor da época, foi assinado em razão de uma emenda parlamentar do então senador brasiliense Gim Argello (hoje no Avante) para a “realização do festival de música de Brasília, a ser realizado nos dias 03 e 04 de dezembro de 2010 no Teatro Dulcina de Moraes, com o objetivo de promover a difusão cultural através de uma competição musical”.

Segundo a assessoria do ministério, não houve liberação do pagamento “em atendimento à recomendação constante do Aviso-Circular Conjunto n. 128/2010/MPOG/CGU-PR de 20/12/2010, e Memorando-Circular n. 33/2010 – AECI/GM MinC de 28/12/2010”.

O documento levantava dúvidas sobre a capacidade de realizar o trabalho e o alto grau de terceirização na sua execução. Além disso, o TCU já apontava incertezas quanto à própria idoneidade da entidade.

O Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica do ICB data de 1990, quando Karina era apenas uma pré-adolescente, segundo ela própria, na Vila Brasilândia, periferia noroeste da capital paulista. Seu nome passou a ser ligado à entidade apenas em 2010, quando o instituto mudou de dirigentes e de atividades e, logo em seguida, assinou seus primeiros contratos com o poder público, então na área de cultura.

Até 30 de março daquele ano, o ICB era registrado como Associação Rodoviários de Brasília e estava classificado no Cadastro Nacional de Atividades Econômicas como uma “Instituição de Longa Permanência para Idosos”. Uma semana após a alteração da razão social, veio a mudança completa do quadro de dirigentes. Entre 2008 e 2010, aponta o TCU, o instituto não tinha folha de pagamento ou quadro de pessoal.

Para a celebração de contratos como estes, geralmente é exigido que a entidade tenha, pelo menos, três anos de atividade. A mudança e a forma como foi feita, na avaliação dos auditores, indicam que a entidade possa ter sido “adquirida” ou “preparada formalmente” com a finalidade de assinar parcerias com o poder público.

O ICB é apontado ainda no relatório como uma entidade de fachada, sem existência formal, qualificação técnica e capacidade operacional. Assim como outras entidades descritas da mesma forma, o instituto fazia cotação de preços com as mesmas três empresas de produção de eventos, assessoria e marketing. Boa parte do valor total do convênio foi executada por uma delas.

As irregularidades são apontadas em um contrato cujo valor é consideravelmente menor do que o da gestão Nunes. Na ocasião, o acordo analisado era de R$ 553,5 mil (R$ 1,46 milhão em valor atualizado pelo IGP-M até dezembro de 2025, quando foi assinado o aditamento na prefeitura paulistana). Ou seja, mesmo em valores corrigidos, o contrato equivale a menos de 10% do montante do acordo atual.

Os pontos destacados pelo TCU guardam relação direta com as ressalvas feitas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) antes da assinatura do contrato agora sob investigação, como a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade. Outro aspecto que chama a atenção é a possibilidade de subcontratação de empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina.

Antes da entrada milionária na área de Inovação e Tecnologia da gestão Nunes, o ICB recebia recursos basicamente de emendas parlamentares para eventos literários, de inclusão digital, esportes e empreendedorismo. Em um deles, como a Pública mostrou, os pagamentos continuaram a ser feitos mesmo depois de os funcionários da prefeitura relatarem dificuldade de contato com a entidade.

O ICB e a Go Up fazem parte de uma rede de entidades e empresas ligadas a Karina. Dessa rede também participam a Academia Nacional de Cultura, que recebeu mais de R$ 2,6 milhões em emendas para a produção de uma série conservadora, e a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, que tentou captar R$ 4,9 milhões — quando Mário Frias era secretário nacional de Cultura do governo Bolsonaro — para uma série a respeito de atletas cristãos.

O que diz a prefeitura

Em nota, a prefeitura afirma que “não há qualquer impedimento junto à administração pública para a contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB)”. Diz ainda que, “no momento da celebração do Termo de Colaboração, em 2024, a entidade atendeu integralmente aos requisitos de habilitação previstos no processo de Chamamento Público, que respeitou e seguiu rigorosamente a Lei Federal nº 13.019/2014, marco regulatório das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil”.

Segundo a gestão Nunes, “o ICB apresentou toda a documentação necessária para comprovar sua aptidão e regularidade para participar de certames e formalização do contrato”. Afirma também que “os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foram sanados à época e a Corte concordou com o prosseguimento do chamamento”.

A gestão municipal garante que “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento do objeto celebrado”.

Edição:
Reprodução redes sociais

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia também

Deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ)

Lindbergh Farias aciona Interpol para investigar empresas ligadas a Dark Horse no exterior

|

Deputado baseia-se em reportagem da Pública e denuncia suposto esquema da produção do filme com empresas estrangeiras

Após denúncias, gestão Nunes aditou R$ 49 mi à ONG de produtora de Dark Horse

|

Contrato de Wi-Fi com a ONG Instituto Conhecer Brasil sobe para R$ 157 milhões; MP investiga possíveis irregularidades

Notas mais recentes

Facebook não barra anúncios com desinformação sobre eleições brasileiras


Horário eleitoral gratuito começa nesta sexta-feira com apenas 4 candidatos a presidente


Governos de 4 estados não aderem a esforço nacional de combate a roubos de celulares


Quem é Fernando Cerimedo, aliado de Bolsonaro preso por ataque a tiros à ex-companheira


MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Leia também

Lindbergh Farias aciona Interpol para investigar empresas ligadas a Dark Horse no exterior


Após denúncias, gestão Nunes aditou R$ 49 mi à ONG de produtora de Dark Horse


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso