Buscar
Reportagem

Após denúncias, gestão Nunes aditou R$ 49 mi à ONG de produtora de Dark Horse

Contrato de Wi-Fi com a ONG Instituto Conhecer Brasil sobe para R$ 157 milhões; MP investiga possíveis irregularidades

Reportagem
26 de maio de 2026
13:36

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Leon Rodrigues/Secom

A gestão de Ricardo Nunes (MDB) na Prefeitura de São Paulo fez um aditamento de R$ 49 milhões ao contrato com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

A renovação dos valores ocorreu poucos dias após a publicação das primeiras denúncias de irregularidades no contrato assinado em 2024 que previa a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas da cidade de São Paulo, com um custo inicial de R$ 108 milhões.

Ao longo de 2025, a prefeitura firmou quatro aditamentos ao contrato original, uma vez que a meta contratada não seria atingida. Os três primeiros termos serviram para estender os prazos de entrega e antecipar pagamentos. O quarto aditamento, assinado em 16 de dezembro de 2025, elevou o valor total para mais de R$ 157 milhões. 

A meta foi reduzida para atender 3,2 mil pontos, o equivalente a 64% do volume originalmente contratado. A justificativa apresentada no documento foi a manutenção dos pontos já instalados até o final de 2026. O texto não apresenta previsão para a entrega do restante da meta à população.

Além do montante, o momento da assinatura do quarto aditamento também chama a atenção. Seis dias antes, o Intercept Brasil publicou uma reportagem que revelou a relação entre a prefeitura e a entidade presidida por Karina Ferreira da Gama. O texto destacou que a dirigente não tinha atuação comprovada no fornecimento de redes Wi‑Fi e expôs que era dona da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse.

A reportagem também mostrou que Karina presidia a Academia Nacional de Cultura (ANC). A instituição recebeu R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares dos deputados federais do PL Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem (os dois últimos atualmente foragidos da Justiça), além do deputado estadual Gil Diniz. O recurso era destinado à produção de uma série conservadora, que não foi realizada. A ANC também recebeu R$ 1 milhão do então vereador Atílio Francisco (Republicanos) para um festival de dança ligado à Igreja Universal. Karina não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.

O próprio ICB obteve duas emendas parlamentares, no valor de R$ 1 milhão cada, para projetos de naturezas distintas: incentivo ao esporte e letramento digital. O autor dos repasses foi o deputado federal Mario Frias (PL-SP), creditado como produtor-executivo e roteirista de Dark Horse. Ele também atua no filme, interpretando o médico que opera Bolsonaro.

Outra empresa de Karina, a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, prestou serviços à campanha de Mário Frias à Câmara dos Deputados em 2022, no valor de R$ 54 mil. A mesma empresa atendeu à campanha de Felipe Carmona, então número 2 da Secretaria de Cultura, que foi candidato a deputado estadual e não se elegeu, e recebeu R$ 13 mil.

Alertas prévios e investigações em curso

No dia 10 de dezembro do ano passado, o vereador Nabil Bonduki (PT) ingressou com uma representação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Ele solicitou a investigação do chamamento público para a seleção da empresa fornecedora de Wi-Fi, processo no qual apenas a entidade de Karina apresentou proposta. No dia seguinte, a deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Celso Giannazi e o vereador Carlos Giannazi (todos do PSOL) pediram ao MP-SP a apuração da responsabilidade de Ricardo Nunes.

O inquérito civil que investiga o caso foi instaurado em janeiro. A 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), da Polícia Civil de São Paulo, também conduz uma apuração.

As reportagens e os pedidos de investigação não foram os primeiros sinais de problemas na contratação. Um relatório do Tribunal de Contas do Município (TCM) já havia apontado falhas antes da assinatura do contrato. O documento destacou a ausência de estudo técnico preliminar e de comprovação de que o chamamento público para organizações da sociedade civil era a melhor solução técnica. O TCM também criticou a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade, bem como a ausência de audiências e de consultas públicas.

Os auditores do TCM alertaram para a possibilidade, prevista no edital, de a organização subcontratar empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina. O tribunal defendeu que o mapeamento deveria ter sido realizado previamente pelo poder público, e não pela própria contratada. O relatório apontou a ausência de parâmetros técnicos fundamentais para a utilização da internet, a segurança de dados, a fiscalização e o monitoramento da qualidade do serviço, além de falhas na estruturação da execução orçamentária.

Financiamento e conexões políticas

O caso ganhou novos desdobramentos neste mês. Um áudio divulgado pelo Intercept revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de fraudes na gestão do Banco Master, para financiar o filme sobre seu pai, produzido pela empresa de Karina.

Em outro áudio, Mario Frias agradece a Daniel Vorcaro pelo apoio ao filme. Atualmente, o deputado é alvo de apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto desvio de finalidade na destinação de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, recursos que poderiam ter sido destinados à produção cinematográfica.

Nesta segunda-feira, 25 de maio, Frias enviou uma manifestação ao STF negando qualquer irregularidade nas emendas. Antes disso, um oficial de Justiça tentou intimá-lo cinco vezes, sem êxito. O parlamentar está em viagem ao exterior, que não é considerada oficial pela Câmara dos Deputados.

Recentemente, a Agência Pública mostrou que Karina estreitou laços com a administração paulistana após a eleição de Nunes. Os pagamentos por serviços prestados pelas empresas e entidades ligadas a ela continuaram, mesmo após funcionários da prefeitura registrarem dificuldades de contato.

O que diz a gestão Nunes

Em nota, a gestão Nunes afirmou que “os pontos de Wi‑Fi Livre viabilizados pelo Termo de Colaboração com o ICB seguem em pleno funcionamento com 3.200 pontos instalados, que registram cerca de 760 milhões de acessos”. Sobre o aditamento, a prefeitura declarou que “teve por finalidade a continuidade da prestação dos serviços dos pontos já em operação, o que inclui manutenção, fornecimento contínuo de sinal de internet, monitoramento de rede em tempo real, substituição de ativos vandalizados ou furtados, eventuais remanejamentos técnicos para melhoria do sinal, entre outros”.

Edição:
Divulgação Prefeitura de São Paulo
Edson Lopes Jr. /SECOM

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Gestão Ricardo Nunes pagou ONG de produtora de Dark Horse mesmo após problemas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)