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As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Reportagem
25 de julho de 2026
18:48

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Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL
Reprodução PL

Flávio Bolsonaro está diferente. Pelo menos foi isso o que o candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL) demonstrou na oficialização de sua candidatura neste sábado, 25 de julho, no Pacaembu, em São Paulo. Em pelo menos três ocasiões, o político foi levado às lágrimas: enquanto assistia a um vídeo do irmão, Carlos Bolsonaro; ao falar do pai, Jair Bolsonaro; e quando o telão reproduziu um vídeo feito com inteligência artificial com a imagem do ex-presidente dizendo que o filho é “a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue”. O mestre de cerimônias chegou a pedir uma pausa para Flávio “descansar um pouco os olhos”.

“Eu posso ser mais calmo, sorridente, tranquilo e moderado, mas aqui tem sangue de Bolsonaro”, disse o “filho mais velho do capitão”, como Flávio se refere a si mesmo. A frase reflete o que ele quer reforçar nesta campanha, em que tem a missão de representar o pai, preso e inelegível, ao mesmo tempo em que quer passar a imagem de ser um homem mais contido e sensível.

Um dos motivos para as lágrimas pode ser a falta de apoio a Flávio entre as mulheres. Pesquisa Datafolha divulgada na véspera projeta que, no segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 47% dos votos, contra 43% do senador pelo PL para o público em geral. Mas a diferença aumenta quando se considera só o eleitorado feminino: a proporção passa para 52% a 37%. Em outras eleições, analistas apontaram que a falta de tato — e o machismo — de Jair Bolsonaro foi um dos fatores que pesaram para ele ter dificuldade em obter adesão desse público.

Também entra na conta a briga familiar que ganhou os holofotes após Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio, divulgar um vídeo dizendo que ele a havia destratado durante a composição de chapas do PL pelos estados. A ex-primeira-dama ganhou protagonismo político após criar e liderar o PL Mulher, ala de mulheres conservadoras do partido, e aliados atuaram nos bastidores para costurar uma reconciliação entre eles, entendendo que o apoio de Michelle é fundamental.

Um dia antes da convenção, Michelle gravou um vídeo dizendo que perdoa Flávio e que “seguirão juntos na missão”. Ela ainda fez outra gravação para ser transmitida durante o evento, reforçando a mensagem – porém citou o nome do enteado apenas uma vez, quando pediu para Deus abençoar a sua candidatura. No centro de convenções havia figuras de papelão em tamanho real retratando a ex-primeira-dama ao lado de Jair e Flávio

Flávio também tem tido dificuldade de obter apoio do público evangélico, tanto quanto o pai em anos anteriores. Um dos motivos para isso, como a Agência Pública já mostrou, é que ele “não parece muito evangélico”, e a moderação no discurso e menções mais frequentes à religião e à Deus ajudam a falar com este público.

Uma das estratégias da campanha de Flávio é dar protagonismo à Fernanda, sua esposa, que costuma ser discreta. Ela foi responsável por introduzir o discurso do marido e falou por quatro minutos. “Eu não sou política, por isso estou aqui com a minha colinha. Estou aqui para prestar apoio ao meu marido”, disse, lendo o bloco de notas do celular. Fernanda disse que, como cirurgiã-dentista, “sabe o que é tentar empreender neste país” e que como mãe, “não quer mais ver notícia de mulheres sendo violentadas e assassinadas todo dia”. Também disse que tem orgulho do “homem de Deus” que o marido se tornou – o casal é evangélico.

Flávio, no início de sua fala, se cercou de mulheres: Fernanda (a quem chamou de “mais do que meu pilar, minha espinha dorsal”), a mãe, Rogéria (“que me gerou, me educou e me preparou para a vida”) e a ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques, ex-braço direito do ministro Paulo Guedes e cotada para vice. Coube a ela uma fala incisiva direcionada às mulheres. “Quero falar com as mães do Brasil: nós, mães e mulheres, não queremos discurso vitimista, a gente quer bandido na cadeia”, disse.

Flávio Bolsonaro acena para mulheres, mas já criticou Lei Maria da Penha

Um dos principais discursos da campanha do candidato do PL, a segurança pública também ganhou direcionamento às mulheres. Flávio Bolsonaro defendeu penas mais longas para “quem enfia o cacete em mulher” e a castração química para autores de crimes sexuais.

A missão de obter mais votos de mulheres, porém, esbarra em atitudes do próprio Flávio. Ele já chamou a Lei Maria da Penha, o principal mecanismo de prevenção e responsabilização em casos de violência contra mulheres, de “apenas um pedaço de papel”. Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, ele se posicionou contra a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres. Também articulou o adiamento do projeto de lei que criminaliza a misoginia e criticou o projeto publicamente, dizendo que tem viés ideológico. Depois ele votou a favor ao projeto, dizendo que seria uma “armadilha do PT” para prejudicar sua imagem com o eleitorado feminino.

Apesar da ênfase no combate à violência contra a mulher, Flávio também deu destaque a pautas mais amplas da segurança pública, repetindo que Lula “passa pano para bandido” e que ele adotaria medidas mais duras. “Que nação sobrevive a um presidente que defende bandido?”, disse. Além do aumento da pena e castração de estupradores, o candidato também defendeu a redução da maioridade penal. “Fazer com que um estuprador de 14 anos de idade seja responsabilizado e preso como adulto”.

No plano “Brasil sem medo”, divulgado em junho, o político defende declarar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, criar novos presídios de segurança máxima no estilo de El Salvador, criar um sistema nacional de reconhecimento facial nos moldes do Smart Sampa e do Muralha Paulista, programas da prefeitura e do governo de São Paulo, efaa quadruplicar a pena para roubo e receptação de celular, entre outros.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), apresentado como “o homem que enfrentou o cartel da Cracolândia”, e o prefeito Ricardo Nunes (MDB), ambos de São Paulo, também enfatizaram o tema em seus discursos. “Dói ver que um criminoso que rouba celular e que foi preso 20, 30 vezes não fica preso”, disse Tarcísio. Dispensando o tom moderado usual, Nunes conclamou a direita a votar unida e chamou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de “nosso presidente”.

Rock, tumulto e bandeiras dos EUA e Israel

O evento organizado pelo PL teve desorganização, superlotação e tumulto. A capacidade para 7 mil pessoas foi superada rapidamente e autoridades, apoiadores e jornalistas foram barrados na porta. Grades chegaram a ser derrubadas e a segurança teve que ser reforçada. A maioria dos participantes fazia parte do apoio de candidatos do PL de cidades do interior do estado e postulantes a cargos do legislativo.

O evento teve atrações internacionais: o presidente da Argentina, Javier Milei, que cantou e dançou rock e fez um longo discurso contra o socialismo, entremeado por gritos de “viva la libertad, carajo”, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que enviou um vídeo apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro.

As falas das autoridades foram intercaladas por músicas feitas por IA e uma tímida bateria de samba, que mais parecia incomodar do que animar os participantes que esperavam desde as 8h pela fala de Flávio – que só começou depois das 13h. Além do tradicional verde e amarelo, algumas pessoas também usavam adereços ligados a Israel, aos Estados Unidos e à Argentina.

Edição:
Reprodução PL
Amanda Audi/Agência Pública
Amanda Audi/Agência Pública

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