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Hoje, cadeias de abastecimento se tornaram armas de guerra

Enquanto estreito de Ormuz afeta preço de alimentos, tarifaço de Trump mira produtores da Amazônia

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23 de julho de 2026
12:00

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No começo deste ano, durante o encontro anual de Davos, nos Alpes Suíços, o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, teve grande repercussão. Poucas semanas depois da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, o liberal canadense resumiu com palavras fortes o que estava na cabeça de todos: a chamada ordem mundial estava rompida.

Ele se referia principalmente ao fato de que Donald Trump tomara a decisão de bombardear Caracas e sequestrar o presidente Nicolás Maduro sem consultar o Congresso ou seus principais aliados na OTAN e na Europa. As regras de cooperação internacional estão desaparecendo, disse Carney, e “os fortes fazem o que querem, enquanto os fracos precisam aguentar o que devem.”

Naquele discurso, pouca gente notou, mas me chamou a atenção sua menção sobre as vulnerabilidades econômicas das cadeias de abastecimento.

“Mais recentemente, as grandes potências passaram a utilizar a integração econômica como arma, as tarifas como meio de pressão, a infraestrutura financeira como forma de coação e as cadeias de abastecimento como pontos fracos a serem explorados”, disse. Vale ver o discurso inteiro, de 17 minutos, aqui.

Seu discurso, agora, soa profético se pensarmos no que está acontecendo no estreito de Ormuz.

O fechamento de uma das principais rotas de petróleo do mundo, graças à guerra iniciada por Estados Unidos e Israel, jogou a economia global em uma turbulência inesperada.

Em todo lado, o preço da gasolina e do diesel segue aumentando. O combustível mais caro afeta diretamente a inflação dos alimentos – tema que já se mostra central nas eleições deste ano no Brasil.

Estamos falando dos impactos diretos dos conflitos armados. Mas as guerras que estamos vivendo vão muito além dos mísseis e dos drones.

As escaladas tarifárias que Trump iniciou contra a China, o Brasil e, vejam só, até mesmo contra o Canadá, que recebeu nada menos que 50% sobre suas importações nesta semana, também terão impacto sobre as pessoas e o meio ambiente.

No caso do Brasil, as tarifas de importação americanas para diversos produtos foram elevadas a 25%. A Confederação Nacional da Agricultura calculou que o setor agropecuário vai perder 36%, ou cerca de 4,5 bilhões de dólares, em exportações. Um dos argumentos utilizados para impor as tarifas sobre o Brasil é que as cadeias de produção daqui estão contaminadas por crimes ambientais, além dos apontamentos sobre trabalho análogo à escravidão.

O documento da investigação que orientou a sobretaxa afirma que o Brasil obtém vantagens injustas ao não aplicar a lei. Na avaliação do Escritório para o Comércio dos EUA (USTR), a produção em terras invadidas e desmatadas é uma forma de competição desleal.

Parece um contrassenso imaginar que a sanção ao Brasil parta dos Estados Unidos, país com as maiores emissões de gases de efeito estufa em todo mundo e que se retirou do Acordo de Paris contra a emergência climática.

A contradição não é simples e não deve ser atacada com argumentos nacionalistas.

Embora a investigação do governo americano seja basicona quando aponta os problemas da produção agropecuária no Brasil (qualquer um de nós poderia fazer uma investigação dessas apenas lendo notícias locais), não é possível ignorar os problemas. Eles existem.

Uma das razões para impor tarifas há poucos dias ao Canadá, de acordo com Trump, seria a fumaça dos incêndios florestais que chegaram às principais cidades dos Estados Unidos na semana passada.

Não é, portanto, uma loucura imaginar que a guerra comercial, ou mesmo a hostilidade dos EUA com relação ao Brasil possam ser recrudescidas com argumentos de proteção à Amazônia.

E nossos produtores estão dando motivos para isso.

Nesta semana, um artigo publicado na revista Science mostrou que a falta de compromisso dos produtores brasileiros em produzir soja apenas em áreas livres de desmatamento deve causar uma destruição adicional de 1,4 milhões de hectares na Amazônia, ou um aumento de 17% na taxa de desmatamento em uma década.

A moratória da soja era considerada um exemplo exitoso de um acordo voluntário entre empresas, governos e ONGS Ambientalistas. Desde 2006, algumas das maiores traders de grãos e os compradores finais (incluindo o McDonald´s!) estavam comprometidas com uma cadeia livre de desmatamento. As associações de produtores de soja, incluindo a Aprosoja-MT, sempre foram contra o pacto.

Mas, em janeiro desse ano, questionando a validade de barreiras não comerciais, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), entidade que reunia as principais tradings participantes, liderou uma debandada do pacto. Empresas como Cargill e Bunge, além da chinesa Cofco, deixaram o acordo.

A soja não está entre os produtos exportados do Brasil aos Estados Unidos. Os países competem nesse mercado. Por isso mesmo, ao jogarem um pacto de desmatamento zero no lixo, os produtores brasileiros estão dando mais argumentos para as sanções americanas.

Seria ganância ou burrice?

Na minha opinião, um pouco dos dois: com o crescente domínio da China no mercado da soja, os produtores brasileiros parecem não se preocupar que sanções socioambientais possam afetar o seu lucro. Por outro lado, esta sanha não permite enxergar que compradores chineses e os europeus já questionam a sustentabilidade da produção brasileira.

As guerras, sejam as comerciais ou não, parecem cada vez mais perto.

Correção em 11:21: Corrigimos a informação de que associações de produtores eram signatárias da Moratória, o que estava errado.

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