Buscar
Coluna

Não, a jornada de trabalho não determina o PIB

Estudo em 160 países mostra que a duração média da jornada de trabalho não é proporcional ao desenvolvimento econômico

Coluna
28 de julho de 2026
12:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Um dos argumentos mais utilizados contra a redução da jornada de trabalho diz que trabalhar menos horas vai prejudicar a economia do país. Afinal, a lógica é simples. Se trabalho dá dinheiro, mais trabalho dá mais dinheiro, e mais dinheiro dá mais desenvolvimento. Numa analogia meritocrática, não é raro escutar que, nos países ricos, as pessoas têm maior dedicação e trabalham mais horas.

Mas, quando se trata de lógicas simples no debate macroeconômico, aqui vai um conselho: desconfie de qualquer lei ou postulado “universal”.

A economia não é uma ciência natural – e muito menos exata. Nós, economistas, não somos físicos, nem biólogos. E o comportamento econômico de pessoas ou países dificilmente pode ser descrito a partir de uma regra geral.

Em termos newtonianos, nem sempre a maçã cai da árvore para o chão, como vaticinou o físico Isaac Newton em 1666. A economia não funciona como as leis da física.

Em setembro de 2025, dois economistas do Banco Mundial e da Universidade de Berkeley, na Califórnia, lançaram um estudo que agrega dados atuais de jornada de trabalho de 160 países, combinada a uma série de mais de 20 anos dos mesmos dados para 86 países. Em junho, uma matéria sobre o estudo no site do Fundo Monetário Internacional voltou a chamar minha atenção.

Amory Gathin e Emmanuel Saez analisaram as jornadas de trabalho médias de populações em diferentes países e ao longo de diferentes períodos, utilizando recortes de gênero e idade. O estudo é o mais completo já realizado, e compila dados oficiais referentes a 97% da população mundial.

Sua principal descoberta é que o desenvolvimento econômico e a duração da jornada semanal de trabalho não se relacionam de forma linear. Ou seja: trabalhadores de países mais desenvolvidos – aqui entendidos como aqueles que possuem maior Produto Interno Bruto, ou PIB – não necessariamente trabalham mais horas por semana.

Para ser justa, o PIB até conta uma parte da história. A relação encontrada mostra que países nos extremos da renda apresentam semanas de trabalho mais curtas. É o caso da Etiópia, de um lado, e da França, do outro. A primeira, com um PIB anual per capita de 3.064 dólares, e a segunda, de 60.927 dólares em 2023. Ambas com jornadas médias de cerca de 31 horas semanais, apesar da diferença grande no volume de riqueza.

Já as maiores jornadas ficam com uma porção de países de renda média: Índia, China, Vietnã e Bangladesh se aproximam das 45 horas semanais. O Brasil, classificado como um país de renda média-alta, tem a jornada média de 40 horas.

Mas olhar apenas para a riqueza de um país é insuficiente. Não explica por que em alguns países ricos, como Singapura e Estados Unidos, se trabalha muito mais horas do que em outros, como Inglaterra e Alemanha: são 42 e 38 horas nos primeiros, respectivamente, e 33 e 30 horas, nos segundos. Também não explica por que a República Democrática do Congo possui um PIB per capita tão menor que o do Japão – 1.732 versus 52.726 dólares em 2023 –, quando a média de horas semanais trabalhadas por lá é maior – 37,6 versus 35,5.

A conclusão dos autores é direta: a duração da jornada de trabalho é uma escolha social, que traduz a cultura de trabalho de cada país. Quando outros fatores são levados em consideração, a relação entre o PIB per capita e a jornada semanal média desaparece.

Por exemplo, em países com políticas melhores de educação e aposentadorias mais generosas, pessoas jovens e idosas trabalham menos, o que reduz a jornada média. Além disso, a inclusão feminina no mercado de trabalho tem promovido uma redistribuição das horas trabalhadas, com homens reduzindo a jornada remunerada e as mulheres aumentando. A média se mantém, mas a distribuição do trabalho muda, o que impacta bastante coisa.

Isso tudo sem nem considerar as peculiaridades produtivas de cada país. Uma coisa é passar 40 horas produzindo bananas, e outra, nanocondutores. Mas essa já é uma outra discussão.

Meu ponto aqui é que, por trás do que parece uma regra simples (mais trabalho = mais dinheiro para pessoas ou para países), há fatores muito mais complexos. Ocultá-los é estratégico, pois cria a noção de que algumas “leis” da economia são indiscutíveis, não importando a quem beneficiam ou prejudicam.

O que o estudo prova é que a jornada de trabalho, como tantas outras variáveis econômicas, é fruto de uma decisão coletiva.

É política.

Construída de acordo com heranças históricas, pactos sociais ditos ou não.

Tem a ver com a quantidade de horas que uma sociedade, em conjunto, entende que é humanamente razoável trabalhar.

E, nesse âmbito, a sociedade brasileira já parece ter tomado uma decisão. O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho, se forem aprovadas no Congresso, podem ser conquistas políticas que elevam a qualidade de vida de muitas pessoas, e cujos impactos econômicos não estão dados de antemão.

Não existem leis naturais da economia. Por isso, é fundamental que não nos prendamos a nenhuma “lei da gravidade” que nos deixe presos ao chão.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas