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Crônica

Homens corajosos

Você se considera a exceção. E talvez seja mesmo.

Crônica
15 de agosto de 2026
04:00
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“Nem todo homem, mas sempre um homem.” Ao ler essa frase, você pensou que o mundo estava perdido, sentiu um desconforto inexplicável, acreditou que acabara de ler uma sentença que comprova a existência da injustiça contra você e se colocou prontamente na defensiva? Respire fundo, alecrim dourado. Você pode pegar seu baba, gostar de carros, jogar seu dominó, tomar umas com os bróders no bar ouvindo o hit do momento, pegar peso na academia, assim como pode também ser meticuloso com sua aparência, ter amizades com mulheres, gostar de ler livros, de ir ao teatro e ter o costume de cruzar as pernas (estilo Gilberto Gil), tudo isso pouco importa. A questão, veja só, é ter coragem de abandonar uma masculinidade frágil, precária e violenta, que transforma a frustração em agressividade. Tem coragem?

Eu sei, você se considera a exceção. E talvez seja mesmo. É o tipo de homem que nunca agrediu nem ameaçou mulheres, né? Não é justo que lhe apontem o dedo, você pensa, pois você é o tipo que respeita as decisões das mulheres, que sabe que o corpo dela pertence a ela. Afinal, você a enxerga de forma integral, como uma pessoa com história, sonhos e desejos próprios; alguém tão imperfeito quanto você. Então você sabe que o fim de um relacionamento não é o fim do mundo. É triste, dói, mas passa. A vida continua com tantas possibilidades, não é? Você sabe o impacto que as palavras têm. Por isso você se considera um homem maduro, alguém diante de quem uma mulher se sentirá confortável e aceita como é. De repente, o vento sopra uma palavra ao seu ouvido: empatia. Sim, você sabe que um relacionamento saudável é baseado em parceria, autonomia e consentimento.

A psicóloga Vera Iaconelli, refletindo outro dia sobre a avassaladora violência contra a mulher, escreveu o seguinte: “Para entender a violência contra a mulher, há um jeito simples: trata-se de uma opressão histórica em benefício dos homens, mantida à base de muita ameaça, assédio, estupro e assassinato, que recrudesce à medida que a mulher começa a ganhar terreno.” Percebeu? Nós, homens, herdamos comportamentos, privilégios e preconceitos aprendidos ao longo da vida, e reconhecer como eles afetam as mulheres ao nosso redor é o primeiro passo para desconstruir uma identidade forjada na tirania. É preciso ter coragem para escutar o que as mulheres têm a nos dizer. É preciso ter coragem para abandonar a camaradagem machista. É preciso ter coragem para assumir que, por baixo dos músculos e das performances esperadas por uma sociedade historicamente violenta, existem vulnerabilidades, medos e sentimentos que compõem emocionalmente quem somos.

Sim, eu olho para mim com alguma autocrítica. Não sou o ser iluminado de superioridade moral que está acima de outros homens; sou apenas alguém que vem de São Caetano, bairro periférico de Salvador, onde ser homem era vestir uma couraça e olhar para o mundo com olhos inabaláveis. Sou alguém que prestou atenção na vida e percebeu que, sem maleabilidade, a gente simplesmente quebra. Alguém, enfim, que busca como virtude a autorresponsabilidade e a cumplicidade com a mudança para uma sociedade mais ética e justa. Meu desejo é caminhar na direção de uma masculinidade mais leve e saudável.

É plenamente possível ser um homem respeitado, bem-sucedido (o que isso quer dizer?) e confiante sem precisar diminuir as mulheres. É preciso ter coragem para escapar da paranoia e das amarguras, armadilhas colocadas ao longo de nossa breve jornada. É preciso ter coragem para se permitir viver uma conexão humana real, com empatia e vulnerabilidade, assumindo que uma vida plena e satisfatória nos fará perceber a solidão que habita em nós, nos fará chorar, mas também nos fará sorrir com o corpo inteiro. Porque a vida, já sabemos, espera de nós coragem.

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