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Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

Reportagem
13 de agosto de 2026
04:00

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Reprodução CAAF

Sobre uma toalha azul, os ossos ficam dispostos em fileiras, alguns identificados por tiras de fita adesiva branca. São fêmures alinhados por tamanho, vértebras em sequência, alguns crânios. Ao fundo, a parede exibe retratos de pessoas em preto e branco e traz a pergunta: “Onde estão os nossos desaparecidos?”.

O cenário faz parte do dia a dia do laboratório do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo que, desde 2022, tem filmado essa rotina dos peritos de luva que medem, giram e descrevem em voz alta fragmentos exumados de valas comuns. Agora, o material será parte de uma exposição inédita: “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado”, que abre as portas em 14 de agosto no Centro MariAntônia, da USP, e fica em cartaz até 27 de setembro em São Paulo.

A curadoria é das linguistas Lorenza Mondada, de Basileia, e Fernanda Cruz, da Unifesp, e do filósofo Edson Teles, também da Unifesp. O que eles propõem ao visitante não é olhar para os mortos, mas sim para o trabalho de quem os procura.

“Os ossos nunca são apresentados de forma sensacionalista”, diz Lorenza Mondada à Agência Pública. “Eles só são visíveis indiretamente, por meio de vídeos que mostram esse trabalho.” A violência, argumenta a curadora, está no contexto: “a ditadura brasileira que torturou, matou e desapareceu pessoas”. O manuseio dos ossos pelos peritos é “um trabalho cotidiano, técnico e científico que se conecta com a história de um fragmento de osso, com a busca dos familiares e com o modo de funcionamento da repressão, da produção de falsos laudos, do silêncio do Estado”, explica.

A mostra nasceu do projeto homônimo, o Making Bones Talk, conduzido pela Unifesp e pela Universidade de Basileia, na Suíça, com financiamento da Fapesp e da Swiss National Science Foundation. 

Fazer falar os ossos

O método por trás das filmagens tem tradição acadêmica: etnometodologia e análise da conversa, campos que estudam como as pessoas produzem sentido nas interações cotidianas. Aplicada a um laboratório forense, a situação desloca a atenção do resultado (o laudo, a identificação etc.) para o processo. As imagens são transcritas em detalhes, como, por exemplo, o modo como duas pessoas seguram o mesmo osso. É daí que sai a estética da exposição, avalia Mondada: “na possibilidade de olhar o gesto repetido das mãos; no azul contrastante da toalha anatômica que também deixa ver detalhes nos ossos; na leitura em voz alta sobre o desaparecimento sem pistas de um militante em um documento de arquivo”.

A pergunta do cartaz, “Fazer falar os ossos”, organiza a mostra: “É uma pergunta dos familiares, mas não só. Ela passa também a ser uma pergunta nossa, enquanto sociedade que se quer democrática e mais justa”, argumenta Fernanda Cruz.

Serviço: Centro MariAntonia (USP), rua Maria Antônia, 258, São Paulo. Abertura em 14 de agosto, às 18h; visitação até 27 de setembro, de terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada gratuita.

A dívida impagável

Edson Teles conhece a pergunta por dentro. Filho de militantes presos e torturados, foi levado, ainda criança, ao DOI-Codi de São Paulo com a irmã. Hoje coordena o CAAF, o centro que examina os ossos. Para ele, o que emerge das valas, 40 anos depois, diz mais sobre o presente do que sobre a morte. “Quando uma sociedade não pode se despedir de seus mortos, os corpos ganham uma multiplicidade de sentidos”, afirma à Pública. Os restos que reaparecem agora “dizem muito sobre o quanto o país tem uma dívida histórica com as vítimas da violência de Estado e sobre como esta dívida, praticamente impagável, expõe a baixa qualidade de nossa democracia”.

A comparação com os vizinhos da América do Sul mede o tamanho do buraco. Argentina e Chile julgaram agentes de Estado, criaram programas permanentes de busca e abriram arquivos militares. No Brasil, nenhum agente da ditadura foi condenado, não há programa institucional de busca, os arquivos das Forças Armadas seguem fechados e o estatuto das instituições militares nunca foi revisto. Dos mais de 200 desaparecidos políticos reconhecidos oficialmente, os identificados cabem em uma curta lista.

Foi na ausência do Estado que as famílias construíram os primeiros acervos de prova, explica Teles: “Apesar de todos os bloqueios, conseguiram reunir uma extensa documentação sobre as vítimas, ainda sem a participação dos profissionais das ciências forenses”. Dessa mobilização nasceu o CAAF, instalado numa universidade pública, com estrutura permanente, que investiga e forma pesquisadores ao mesmo tempo — um arranjo que Teles descreve como único na América Latina e que manteve o trabalho de identificação de pé, pela autonomia universitária, mesmo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, defensor do período de exceção.

Do laboratório às empresas cúmplices da ditadura

O mesmo CAAF produziu outra frente de prova. Com 55 pesquisadores e em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), o centro investigou a responsabilidade de empresas por violações de direitos durante o regime. Os resultados foram antecipados pela Pública no especial “Empresas Cúmplices da Ditadura”, que mostrou a sala de interrogatório da Fiat em Betim, o monitoramento de funcionários pela Petrobras e as listas sujas da Mannesmann. Em maio deste ano, as controladoras da Mannesmann e da Belgo-Mineira passaram a negociar um termo de ajustamento de conduta com o MPF e o MPT. O levantamento traz outras empresas, como a Fiat, Companhia Docas de Santos, Itaipu, Josapar, Paranapanema, Cobrasma, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Aracruz e Folha de S. Paulo.

A antropologia forense, observa Teles, não serve só ao tribunal: alimenta “diferentes níveis do debate social e político”, do luto das famílias ao dever de memória e ajuda a mostrar o método, não só o desfecho. Durante o período de exposição haverá exibição de filmes, debates sobre a chamada virada forense, um curso aberto e uma mesa-redonda com familiares de desaparecidos. As mesmas pessoas que, há meio século, começaram a juntar as provas.

Edição:
Divulgação
Amanda Miranda/Agência Pública

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