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Petróleo na foz do Amazonas: onde vai parar o dinheiro?

A história de vida da mexicana Josefina Orlaneta nos ajuda a questionar o modelo de desenvolvimento extrativista

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17 de setembro de 2026
12:00

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No último sábado, em São Paulo, vi uma peça de teatro que me tocou profundamente. Se chama Mi Madre y El Diñero, do dramaturgo, ator e diretor mexicano Anacarsis Ramos e sua companhia Pornotráfico. A peça faz parte do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas Mirada e mostra de maneira contundente as dificuldades de uma mulher que, após 60 anos trabalhando, ainda sofre com a falta de dinheiro.

Esta “personagem” é Josefina Orlaneta e é a mãe do autor. Ela começou a trabalhar com apenas cinco anos de idade vendendo lanches na rua e, em seis décadas de vida, exerceu mais de 40 ofícios. O espetáculo é uma tragicomédia no qual, em hora e meia de duração, faz sentir que conhecemos como ninguém a protagonista. E de fato a encontramos em carne e osso pois é ela mesma, a senhora Josefina, que atua ao lado de seu filho. Seu último emprego, portanto, ela nos conta com muita graça, é ser atriz!

Esta peça vem na onda da autoficção, um gênero que na literatura tem conquistado espaço e corações. No palco, essa forma de narrar se mostrou extremamente eficiente para explicitar o contexto econômico em que a vida de uma trabalhadora pobre se desenrola na virada dos séculos XX e XXI. O texto torna palpável a desigualdade que marcou a trajetória de Josefina.

Quando ela, por exemplo no início dos anos 2000, consegue finalmente alguma estabilidade ao abrir um pequeno mercado, não demora muito para que as lojas do Oxxo acabem com seu sonho. Oxxo é a cadeia mexicana que agora domina muitos pontos de comércio em São Paulo, sufocando pequenos negócios.

O próprio autor e diretor, ao contracenar com a mãe, faz um comovente discurso em que diz (mais ou menos com estas palavras): se chegou aos 66 anos ainda sem dinheiro, a mãe não deveria considerar-se uma fracassada, mas sim uma vítima do sistema econômico. Anacarsis conta que decidiu fazer a peça (e assim conseguiu convencer Josefina a participar) para levar sua mãe a viajar pelo circuito internacional dos festivais de teatro. Quem sabe, ele diz, ganharão algum dinheiro. A considerar o sucesso entre o público, espero mesmo que estejam recebendo um bom dinheiro; terminamos todos aplaudindo de pé.

Mas por que afinal estou falando de uma peça de teatro em uma coluna que deveria falar de meio ambiente? Bem… a resposta está no final da peça, quando o diretor confessa que apesar de ter convencido a mãe pela promessa que poderiam embolsar algum din-din, sua maior intenção era mesmo denunciar o modelo econômico que exclui uma parcela da população. Um modelo que mantém países, estados e bairros sempre na periferia das oportunidades.

Ligando os pontos, a questão que logo me deixou inquieto foi a geografia em que a peça ou a vida de sua personagem principal se passa. Josefina e sua família quase sempre viveram em Campeche, um dos estados mais pobres e violentos do México. Suas cidades na costa do Golfo do México não têm o glamour de destinos turísticos próximos como Playa del Carmen e Cancun, que são parte da mundialmente conhecida Riviera Maia e promovem seus luxuosos resorts nas águas azuis do Caribe.

Em Campeche, nos anos 1970, foi encontrado o maior campo de petróleo em alto mar do México. Esta descoberta transformou a economia do país de maneira radical, tornando-o menos rural e um dos principais exportadores de petróleo. Naquele momento, o campo descoberto foi considerado a segunda maior reserva de hidrocarbonetos do mundo, apenas atrás de reservas na Arábia Saudita. Isso ajudou a consolidar a empresa nacional de petróleo, a Pemex, e atraiu as grandes do setor ao país: Chevron e ExxonMobil.

E vejam a ironia, o primeiro poço a ser explorado levou o nome de Cantarell, em homenagem do pescador que avistou uma mancha negra de petróleo saindo do mar, no local onde a Pemex tinha uma sonda de pesquisa. Esta homenagem a ele parou por aí, pois, como tantos outros pescadores, ele morreu na pobreza depois que a atividade petrolífera em alto mar acabou com a pesca em Campeche.

O Brasil também descobriu sua “mina de ouro” há cerca de duas décadas, quando a Petrobras iniciou a exploração do Pré-Sal. Os royalties fluíram para cidades e estados. O principal estado a se beneficiar foi o Rio de Janeiro. Pergunto: quantas Josefinas ainda existem no Rio que não viram a cor do dinheiro da exploração do petróleo? Mulheres que lutam em empregos mal pagos para manter as suas famílias.

Agora, estamos vendo o mesmo enredo a se descortinar na foz do rio Amazonas. Bem na frente dos nossos olhos uma corrida pelas riquezas que supostamente sairão da exploração em alto mar. Essa expectativa já alterou a vida do Oiapoque, cidade mais ao norte do país e que abrigará as bases para a extração do ouro negro. Reportagens da BBC e da Folha de São Paulo nos contam sobre um fluxo migratório que gera sobrecarga nos serviços públicos, além de invasões de terra e desmatamento para criação de novos bairros.

Eu poderia fazer uma peça de teatro listando todos os projetos de “desenvolvimento” do Brasil que não deixaram nada além de um legado de destruição e miséria. Mas acho que seria uma peça entediante, para não dizer deprimente. Vou deixar o teatro ao Anacarsis enquanto, inspirado por sua obra, levanto esta questão: o que acontecerá com a economia da costa amazônica se aqui, como no México, a exploração do petróleo causar vazamentos em alto mar? Basta lembrar que é na foz do rio Amazonas que está uma das maiores atividades pesqueiras de todo o Brasil.

Na minha coluna de estreia, eu falei da maldição dos recursos naturais e como ela está presente em muitos países que têm petróleo e minérios. Há muita riqueza, mas o povo vive na pobreza. Países em que, como Josefina, crianças começam a trabalhar muito cedo. Na peça, eu fiquei arrepiado ao ouvir a protagonista contar que sua primeira lembrança quando criança era aquela em que ela já trabalhava nas ruas.

Será que, daqui a 60 anos, vamos ter que contar as histórias de muitas Josefinas? As Josefinas brasileiras que neste momento não estão vendo a cor do dinheiro deste modelo de desenvolvimento feito apenas para os verdadeiros donos do dinheiro?

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