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Como o Brasil pode fugir da “maldição dos recursos naturais”?

Teorias dizem que estamos fadados à pobreza exatamente pela nossa riqueza natural. Será?

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16 de julho de 2026
12:00

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A estrada era um retão em uma vasta planície. Até onde a vista podia chegar, só se via uma enorme plantação. Monocultura. Quilômetros e quilômetros de uma só espécie. De dentro do ônibus eu enxergava apenas um tom de verde… E caminhões, muitas carretas levando carga pesada para grandes silos.

A paisagem lembrava o Brasil. Paulistas e os alagoanos podem pensar que eu via um de seus infinitos canaviais. Mato-grossenses e os goianos podem achar que eu contemplava suas intermináveis fazendas de soja. A turma do Matopiba – divisa entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – talvez possa imaginar uma boa safra de milho. 

Mas o que eu olhava eram mastodônticas plantações de dendê. Sim, aquela mesma palma da qual se faz o óleo de dendê, que conhecemos na moqueca baiana ou no acarajé. Estavam ali para produzir o valioso oil-palm, em inglês. 

Original do oeste da África, hoje as palmeiras de dendê são plantadas em grande escala no Sudeste Asiático e também massivamente nas florestas da bacia do Congo. E chegam também à Amazônia.

O óleo de palma é uma das principais commodities agrícolas negociadas globalmente. Quando se trata de óleo, o dendezeiro é campeão. É o principal azeite utilizado pelas indústrias de alimentos e cosméticos. Seu maior produtor e exportador é a Indonésia, arquipélago na linha do Equador formado por 17 mil ilhas entre o Pacífico e o Índico. Os maiores consumidores deste óleo são a China, a Índia e os Estados Unidos.

Quando recebi o convite da Agência Pública para escrever esta coluna, eu estava viajando pela Ilha de Sumatra, no norte da Indonésia. É um território fascinante, com florestas tropicais e rios de dimensões amazônicas. Mas ali existem tigres e elefantes. 

Muito honrado, avisei que ia tentar escrever a primeira coluna ainda durante a viagem. 

Fui a Sumatra para visitar o Parque Nacional Gunung Leuser, uma área protegida de cerca 800 mil hectares onde está uma das maiores populações remanescentes de orangotangos. Foi emocionante vê-los na natureza. Mas logo saquei que, apesar da fauna exuberante ser diferente de nossas impressionantes panteras e jaguatiricas, surucucus e harpias, Brasil e Indonésia têm muito em comum.  

São países tropicais com grande população, grande território e grande influência na economia regional por sua liderança na exportação de commodities agrícolas e minerais. Suas gigantescas florestas estão constantemente ameaçadas. Mas enquanto aqui a soja e os pastos lideram, as palmeiras de dendê da Indonésia são as grandes impulsionadoras do desmatamento. 

Aliás, há anos o Brasil lidera o ranking de países com maior desmatamento de florestas tropicais em todo o mundo, seguido pela Indonésia.

Assim, comecei a pensar se o melhor nome para esta coluna não seria mesmo manter “Antes que Seja Tarde”, como fazia a amiga Giovana Girardi – nome que tenho grande honra e responsabilidade de suceder neste espaço. Pois para alguns, como o orangotango e o rinoceronte-de-sumatra, talvez já seja mesmo tarde.

Mas pensei em uma proposta para fazer a você, leitor. Aqui na Ligando os Pontos quero fazer análises sobre a infindável corrida pelos recursos naturais e como ela afeta a nossa vida cotidiana, seja no preço da comida ou da energia. E, também, um olhar sobre os impactos na vida das comunidades ligadas a estes recursos. E nas vidas de muitas espécies de plantas e bichos.

Quero partir da ideia, amplamente difundida, de que muitos países exportadores estão presos à “maldição dos recursos naturais”. Segundo este conceito econômico, é exatamente a abundância de petróleo, minerais e outras riquezas que acaba por condenar países a um ciclo de subdesenvolvimento e violência. 

De fato, conhecemos bem a história colonial dos países que hoje chamamos de “Sul Global”, com a espoliação da natureza e o massacre de povos originários. 

Essa “História”, esse passado, continua. Todos os anos, organizações como Global Witness e Human Rights Watch apontam o Brasil, a Indonésia e outros países similares como aqueles onde mais são assassinados ativistas ambientais ou líderes indígenas.

Assim como na Indonésia, a nossa natureza está sitiada e as espécies, confinadas. Assim como lá, nossas paisagens vão se transformando por interesses privados. 

O exemplo que me veio à cabeça foram as margens e o entorno da rodovia BR-163, que liga Cuiabá, no Mato Grosso, a Santarém, no Pará. Esta foi uma história que acompanhei de perto quando fui repórter de política ambiental em Brasília. 

Em 2003, o governo Lula concebeu um plano territorial sustentável para blindar o asfaltamento da estrada, construída durante os anos da ditadura militar. Unidades de conservação foram criadas, tanto para a proteção da biodiversidade como para o manejo racional da exploração da madeira e outras matérias primas da floresta. A expectativa era conter o desmatamento e as grilagens impulsionadas pela grande obra.

Passados 20 anos, o plano não saiu como esperado. As unidades de conservação se tornaram ilhas rodeadas de pasto e muito garimpo ilegal. A paisagem se transformou segundo a sanha do dinheiro.  

Territórios indígenas foram invadidos por garimpeiros. Fazendas de gado apareceram no meio de florestas nacionais. 

Parece uma maldição autorrealizável. No final do ano passado, o Congresso, com ampla votação de parlamentares da Amazônia legal, aprovou a redução de uma destas áreas protegidas, a Floresta Nacional do Jamanxim.  

É a própria maldição dos recursos em curso. 

Minha pergunta que pretendo explorar junto a você, leitor, é: será que há um caminho diferente?


Deixo uma nota de tristeza pela passagem de Mariano Cenamo. Mas também de celebração pela vida deste engenheiro florestal que dedicou a vida a pensar cadeias sustentáveis para a Amazônia. Ele nos deixou no último sábado aos 46 anos. Como este é um espaço de se propõem a pensar, analisar o desafio dos mercados globais e seus impactos na vida, não poderia deixar de homenagear este colega. 

Por vinte e cinco anos, desde que deixou o campus da Esalq em Piracicaba, ele foi costurando iniciativas que buscavam o manejo sustentável da floresta. Neste caminho fundou o Instituto para a Conservação o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia – o Idesam e mais recentemente um fundo e incubadora de novos empreendimentos, a Amaz. 

Que seu exemplo inspire muitos a buscar caminhos diferentes para a nossa economia.

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