Buscar
Coluna

Um beijo em uma mulher trans

Com um gesto espontâneo, Lula aposta na ternura ao invés do horror

Coluna
28 de outubro de 2026
08:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A cena toda deve ter durado cerca de três segundos: A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) faz um vídeo comemorando a eleição de Lula após a contagem das urnas, no dia 25 de outubro. Ele passa por ela, pega seu rosto, tasca um beijo carinhoso em sua bochecha e sai do quadro. Um gesto simples, espontâneo, terno, um carinho. 

Eu não sei se Lula tem noção do tamanho da declaração que fez pro mundo. O presidente de um país, que acaba de ser reeleito em um processo histórico e inédito em tantos níveis – com participação popular e engajamento sociais sem igual, em uma virada épica que acontece apesar de todo tipo de sabotagem das Big Techs ao governo Trump, de tentativas de boicote ao transporte público para que as pessoas não chegassem às urnas a uma grande imprensa tacanha jogando contra – um homem de 81 anos, que tem os olhos do mundo virados para si, mostra publicamente afeto a uma mulher trans. 

Essa cena me emociona por diferentes motivos. Tenho passado os últimos anos me infiltrando em eventos da extrema direita pelo mundo e entrevistando essas figuras. Posso afirmar que não houve um desses congressos sequer, nenhuma dessas conversas, que não passou por discursos ultraviolentos contra pessoas trans. 

Já escrevi bastante sobre isso, inclusive sobre como no governo Trump essa violência levou a resoluções e políticas públicas desde seu primeiro dia de mandato. Não vou me repetir aqui sobre a maneira como essas narrativas são construídas com base no pânico moral e na ideia da destruição da família e de valores sagrados. O que quero ressaltar é que a demonização de pessoas trans está hoje no epicentro político da extrema direita. É um tema de consenso entre eles, usado para mobilizar o medo, o ressentimento e o ódio e que tem efeitos concretos na vida de milhares de pessoas. 

E a mobilização desses afetos não é exclusiva da extrema direita, também é importante dizer. Não sei dizer quantas vezes eu mesma fui perseguida, ameaçada e exposta por mulheres que se dizem feministas radicais trans excludentes ou quantas vezes o Pauta Pública foi alvo de ódio quando apontamos nosso microfone para pessoas trans. Tudo bem. Como me disse Judith Butler, ser perseguida por essas pessoas é um distintivo de coragem. 

Um outro ponto importante é que o Brasil é um dos países que mais mata transexuais no mundo. Quando Lula faz esse gesto, que mensagem ele manda para o povo? E que mensagem ele manda para as pessoas trans?

A cena me lembrou o relato de Suzanne Hommel, uma alemã nascida em 1938 que falou no documentário “Encontro com Lacan” sobre o tempo em que foi paciente do psicanalista francês. Ela carregava traumas profundos de sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial, mas, em uma de suas sessões com Lacan, contou de um sonho recorrente que a acordava sob forte angústia todos os dias pontualmente às 5h da manhã. Acrescentou o contexto histórico de sua infância: “Era às 5h da manhã que a Gestapo vinha buscar os judeus em suas casas”. Ao ouvir a palavra “Gestapo” (polícia secreta oficial da Alemanha Nazista) o psicanalista levantou-se rapidamente da poltrona e fez um carinho suave em seu rosto. Quando ela conta isso no documentário, imediatamente leva a mão ao rosto imitando o gesto. 

Através desse ato físico e verbal, Lacan transformou a palavra “Gestapo” em “geste à peau”, que em francês significa “gesto na pele”, e introduziu ternura onde antes habitava apenas o horror e o trauma. No documentário, ela se emociona ao dizer que isso não apagou seu sofrimento mas o modificou de forma definitiva e que mesmo décadas depois, ela ainda sentia aquele toque que mudou a forma como olhava para a própria história e sua própria dor. 

O “geste à peau” de Lula em Erika Hilton neste momento da nossa história, me parece muito poderoso, simbólico, um marco de posição diante do mundo, que pode ressignificar um monte de afetos pra muita gente. E ao mesmo tempo é tão bonito precisamente porque foi um afago espontâneo em um país que está ressignificando sua relação com a política, que ainda sofre com o trauma dos quatro anos sob o governo genocida de Bolsonaro – e que escolheu neste domingo apostar na ternura ao invés do horror.

Aliás, que fique marcado aqui: Erika Hilton foi reeleita como a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados e, com 1,5 milhão de votos conquistados em São Paulo, é a segunda parlamentar no país a romper a barreira de 1 milhão de votos para o cargo. 

Reprodução redes sociais

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imagem de suposto jatinho utilizado por Flávio Bolsonaro em sua fuga do Brasil

Em fuga, Flávio Bolsonaro embarcou da Argentina rumo ao Equador e ainda não chegou aos EUA

|

Órgão argentino registrou entrada do senador às 22h50 de terça (27), de onde teria decolado para os EUA via Guayaquil

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer