Buscar
Reportagem

Em busca das peças saqueadas: fósseis extraídos ilegalmente do Ceará voltam ao Brasil

Mais de 2 toneladas de fósseis que seriam vendidas a colecionadores particulares foram trazidas de volta ao país

Reportagem
7 de julho de 2024
16:00
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Acervo MPPCN

Dentro de um contêiner atracado em um porto no norte da França, havia algo que pertencia ao povo brasileiro. Duas toneladas e meia de fósseis extraídos ilegalmente do sertão cearense e embalados em jornais do Diário do Nordeste estavam prestes a serem vendidas a colecionadores particulares e, quem sabe, alcançariam acervos de museus europeus sem levantar qualquer suspeita.

As autoridades francesas descobriram a carga contrabandeada em 2013. Os 998 fósseis de plantas, peixes, insetos, tartarugas e dinossauros nunca deveriam ter saído do Brasil. Mas eles só retornaram ao país em dezembro de 2023, depois de um processo judicial internacional que se arrastou por uma década.

A restituição desse patrimônio único, avaliado em mais de 1 milhão de euros, só foi possível porque o governo do Ceará desembolsou a quantia de R$ 330 mil para contratar o seguro do transporte dos fósseis de volta ao território nacional. “É como se fosse pagar um resgate por algo que foi roubado de nós”, afirma Juan Cisneros, professor de paleontologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Nascido em El Salvador, ele vive a maior parte da vida no Brasil e se dedica a pesquisar e denunciar o tráfico de fósseis e o colonialismo científico.

Esse conceito se aplica quando a ciência de um país é feita majoritariamente fora dele, como se a própria nação não tivesse condições de desenvolver pesquisas e produzir conhecimento. Na América Latina, teve início no período da colonização, já que os colonizadores costumavam levar animais, objetos e minerais que tivessem valor monetário, histórico ou científico para as sedes dos impérios europeus.

Nem mesmo a paleontologia, área da biologia que estuda a vida do passado remoto da Terra, consegue escapar disso. “As ciências naturais têm sua consolidação justamente na época da exploração colonial e, por isso mesmo, já nascem colonialistas”, avalia Cisneros. Se reconstituir a vida que existiu no planeta há milhões de anos é um desafio da paleontologia, essa tarefa se torna quase impossível quando os vestígios estão a um oceano de distância de onde foram encontrados. Tente montar um quebra-cabeça com peças espalhadas pelos continentes e o resultado final será um quadro repleto de lacunas.

Área de Proteção Ambiental Chapada do Araripe, no sul do Ceará

Um quebra-cabeça espalhado pelo mundo

Os fósseis brasileiros recuperados da França em 2023 estão hoje no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, no sul do Ceará. A cidade está inserida na Bacia do Araripe, geoparque mundial da Unesco conhecido como um dos cinco sítios paleontológicos do mundo mais ricos em evidências do período Cretáceo (entre 145 e 65 milhões de anos atrás). Esse é, justamente, o local de onde partiram os fósseis descobertos no contêiner.

O grande diferencial da região está no grau de preservação dos vestígios encontrados. “Quando a gente fala em fóssil, você pensa só em osso, mas aqui [na Bacia do Araripe] não é só esqueleto. A gente tem a asa da libélula, o coração do peixe, a crista do pterossauro, são detalhes que não tem em outros lugares”, explica Allysson Pinheiro, diretor do museu de paleontologia que recebeu os 998 fósseis repatriados.

A Bacia do Araripe é tão rica em fósseis que, durante a década de 1970, os achados eram vendidos em feiras livres, como se fossem frutas ou legumes. Nas casas, eram objetos decorativos e usados até mesmo como peso de porta.

Essa abundância despertou o interesse de cientistas estrangeiros, que passaram a frequentar Santana do Cariri e pagavam quantias ínfimas pelas preciosidades encontradas pelos trabalhadores locais. No ápice da exploração, caminhões carregados de fósseis deixavam a cidade e partiam de navio para a Europa e os Estados Unidos, sem deixar registros. “Naquela época, ninguém da região entendia que aqueles fósseis eram tão raros e valiam tanto dinheiro”, diz Pinheiro.

Desde 1942, a legislação brasileira estabelece que os fósseis são propriedade da União e, portanto, não podem ser comercializados nem transportados para fora do país sem uma autorização específica.

Tão antiga quanto a corrida pelos fósseis no Ceará é a desobediência à lei. Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Royal Society Open Science estimou que 88% dos fósseis da Bacia do Araripe descritos em publicações científicas estão em museus estrangeiros, uma clara evidência do colonialismo científico. Mais da metade desses artigos não tiveram a participação de pesquisadores brasileiros.

Fósseis exilados também sentem saudade de casa

O processo judicial pela posse dos fósseis interceptados na França se baseou na lei de 1942. O mesmo ocorreu na mobilização pela recuperação do dinossauro Ubirajara jubatus, datado de 100 milhões de anos atrás e também extraído ilegalmente do Ceará. Considerado o dinossauro mais antigo da Bacia do Araripe, o exemplar foi devolvido ao Brasil pelo governo da Alemanha em julho de 2023, que reconheceu as circunstâncias questionáveis que levaram o fóssil a pisar em solo europeu.

Fruto de anos de negociação, a repatriação se tornou um marco no debate sobre restituição de patrimônio histórico-cultural e movimentou as redes sociais na época, com a hashtag #UbirajaraBelongsToBR (Ubirajara pertence ao Brasil). Hoje, o dinossauro, antes exilado, faz parte do acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.

Imagem do fóssil Ubirajara jubatus, dinossauro de 100 milhões de anos atrás e também extraído ilegalmente do Ceará

O retorno dos fósseis para o local exato de onde foram retirados não é mera coincidência. Juan Cisneros explica que o fóssil é uma riqueza, um item de valor cultural que chama atenção do público, contribui para a cultura e educação local, gera renda e atrai turismo. “Quando esses fósseis não estão no Brasil, estamos perdendo todos esses benefícios. Temos que lutar pela preservação e para que eles estejam, de preferência, no lugar mais próximo de onde foram encontrados”, analisa.

Prova dessa importância é a visitação expressiva do museu de paleontologia de Santana do Cariri: a instituição recebe entre 20 e 30 mil visitantes por ano, número superior à população do município cearense (cerca de 16 mil habitantes, segundo o Censo 2022).

“O museu é um grande suporte econômico para a cidade. Nossa região tem enormes desafios socioeconômicos, IDHs baixos, precisa de motores para o desenvolvimento. É por isso que a gente não arreda o pé da discussão sobre repatriação de fósseis, é muito importante para o território”, afirma Allysson Pinheiro, diretor do museu.

Contando heranças

Um dos argumentos usados pelos europeus e norte-americanos para justificar a apropriação dos fósseis da América Latina é a alegação de que eles são objetos anteriores à presença humana no planeta. Como se, por não terem coexistido com pessoas, os países não tivessem o direito de reivindicar a posse dos fósseis. Essa linha de pensamento é defendida por cientistas como John Nudds e John Martin.

Nudds, da Universidade de Manchester, publicou um artigo em 2001, na revista Geological Curator, em que desafiou seus colegas a ignorar o código de ética da Associação de Museus do Reino Unido e afirmou que “os fósseis não guardam nenhuma relação com o país no qual foram preservados”. No mesmo periódico, Martin assinou um artigo em 2018 e defendeu a tese de que “fronteiras geopolíticas não existiam quando os organismos fossilizados eram vivos, logo, os fósseis não possuem identidade nacional”.

Juan Cisneros se opõe radicalmente a essas ideias: “O fato de algo ser mais antigo que nós não significa que não seja nosso dever cuidar dele, é algo que a gente herdou. Um país que herda um patrimônio tem a missão de zelar por ele”.

Felizmente, o debate está evoluindo. “Nem sempre foi assim, mas hoje conseguimos discutir abertamente com instituições, países e a comunidade científica internacional e mostrar que esses fósseis são daqui, são um direito do povo do Brasil e podem mudar a realidade da população. Eles nunca deveriam ter saído do país, mas os que saíram merecem retornar”, complementa Allysson Pinheiro.

Edição:

Esta reportagem foi originalmente veiculada na Revista Babel, publicação laboratorial produzida por estudantes de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), sob supervisão do prof. dr. Alexandre Barbosa. A matéria original pode ser acessada neste link. A edição de junho de 2024 da revista pode ser acessada aqui.

Paulo Henrique/Wikimedia Commons
Acervo MPPCN

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai