Buscar
Nota

Ministério do Trabalho critica projeto contra escravidão doméstica

25 de junho de 2025
12:29
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Sônia Maria de Jesus é uma mulher negra e surda de 50 anos que passou as últimas quatro décadas em situação de trabalho análogo à escravidão na casa de um desembargador de Santa Catarina, conforme foi constatado pelo Ministério do Trabalho e Polícia Federal. O caso de Sônia se tornou inspiração para o projeto de lei 3.351/2024, apelidado com o nome dela, que tramita na Câmara Federal. Porém, o próprio Ministério do Trabalho se posicionou contra a proposta.

O projeto de lei, da ex-deputada federal Carla Ayres (PT-SC), cria normas para atender e ressocializar trabalhadoras domésticas resgatadas em situação análoga à escravidão e de tráfico de pessoas. Conforme o texto, aos casos deverão ser aplicadas as disposições previstas na Lei Maria da Penha e nos estatutos da Igualdade Racial, da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência.

Na avaliação do setor de Análise Técnica do ministério, porém, a proposta poderia “gerar efeitos discriminatórios de desproteção” para outras vítimas, como homens também resgatados de trabalho doméstico ou mulheres resgatadas de outros contextos.

“O PL 3.351/2024, ao incidir apenas na combinação necessária entre resgate, mulher e trabalho doméstico, consolida um recorte de público-alvo demasiadamente restritivo e inadequado, e acaba deixando de lado tanto inúmeras mulheres que são resgatadas de condições similares, ou até piores, em outras atividades econômicas, quanto os muitos homens que são resgatados de semelhantes circunstâncias na mesma atividade doméstica”, diz o texto.

O documento reconhece que a maioria das vítimas do trabalho análogo à escravidão no ambiente doméstico é de mulheres, mas ressalta que há homens na mesma situação. De acordo com o ministério, 15 homens foram retirados da condição de escravizados em 2023, o que representa cerca de 30% dos casos daquele ano.

Dois servidores do Ministério do Trabalho que atuam na área afirmaram à Agência Pública, sob condição de anonimato, que o projeto de lei não iria retirar a proteção já garantida por lei a todas as vítimas de trabalho análogo à escravidão, mas ajudaria a conferir mais um grau de proteção ao grupo mais afetado pela escravidão doméstica. “A proposta, se fosse aprovada, funcionaria como a Lei Maria da Penha, que protege vítimas de violência doméstica, embora já existam leis que punem violência de forma geral”, explica uma das pessoas ouvidas.

Além disso, de acordo com os servidores, as condições de homens e mulheres resgatados de trabalho doméstico análogo à escravidão costumam ser diferentes. Segundo eles, a maioria dos homens ocupava funções como de caseiros de sítios ou outros serviços que não costumam ter tanto contato direto com os empregadores quanto as empregadas domésticas, que muitas vezes são tidas como “parte da família” – o que dificulta ainda mais o rompimento com a situação de escravidão.

Sônia, por exemplo, acabou voltando a morar na casa do desembargador após o resgate. A família dizia que ela “era como uma filha”, apesar de ela fazer trabalhos domésticos sem folga, não ter documentos de identificação até depois dos 40 anos e não ter aprendido língua brasileira de inclusão para conseguir se comunicar, de acordo com vários relatos colhidos durante a investigação.

Outro trecho questionado do projeto de lei estabelece que as ações administrativas e judiciais envolvendo trabalhadoras domésticas resgatadas devem seguir uma série de princípios, como dignidade da pessoa humana, saúde integral e plena ressocialização. Porém, segundo a nota técnica, inserir esses princípios como exigência legal poderia ter um efeito reverso, criando brechas para que os empregadores processados aleguem que a fiscalização desrespeitou algum deles, o que poderia levar à judicialização das ações fiscais. 

O projeto de lei também propõe impedir que empregadores tentem iniciar processo de adoção da pessoa submetida ao trabalho forçado, entendendo que isso seria uma forma de atrapalhar a operação de resgate. No caso de Sônia, a família do desembargador fez o pedido para adotá-la formalmente após o processo de resgate. Na análise do ministério, o trecho contém “vício insanável de inconstitucionalidade por obstaculizar o direito de ação ou de pedido de tutela jurisdicional” assegurado pela Constituição.

A autora do projeto, Carla Ayres, disse em nota que está analisando os pontos levantados pelo Ministério e considerando eventuais ajustes para “fortalecer o texto sem comprometer seu mérito central”. “É importante ressaltar que o PL não retira nenhuma das proteções já garantidas por lei às vítimas de trabalho escravo, mas busca oferecer um grau adicional de proteção por meio da qualificação de condutas, da responsabilização de agentes exploradores e da visibilidade à realidade do trabalho doméstico escravizado”, ela disse.

A nota técnica deve ser analisada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, onde o projeto se encontra atualmente, sob a relatoria da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ). Depois, o texto deve ser analisado pelo plenário da Câmara e do Senado. O Ministério do Trabalho foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

A primeira vez que uma trabalhadora doméstica foi resgatada em situação análoga à escravidão ocorreu em 2017, na cidade de Rubim, em Minas Gerais. Até 2023, houve outros 129 resgates do mesmo tipo.

Atualização às 16:40 de 25/06/2025: Inserimos o retorno da ex-deputada federal Carla Ayres, autora do projeto de lei.

Edição:

Notas mais recentes

Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos
Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca
Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa
Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo
Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro
Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores