Buscar
Reportagem

Direito indígena é moeda de troca em disputa entre Congresso e STF, diz advogado indígena

Representante da Articulação dos Povos Indígenas critica uso político do Marco Temporal em conflito entre poderes

Reportagem
12 de dezembro de 2025
04:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Antonio Augusto/STF

“A gente tem a sensação de que os nossos direitos são sempre utilizados como moedas de troca”. É assim que o advogado Ricardo Terena, que representa a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), descreve o conflito entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) nas decisões sobre o Marco Temporal. Nesta semana, o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Marco Temporal, que altera a Constituição para incluir a tese que as terras indígenas só podem ser demarcadas se provadas sua ocupação por indígenas em 5 de outubro de 1988. A PEC agora será analisada pela Câmara.

Essa manobra do Senado aconteceu um dia antes do início do julgamento no Supremo sobre a constitucionalidade da Lei 14.701/2023, que colocou o Marco Temporal como critério na demarcação de terras indígenas. Em setembro de 2023, a tese do Marco já havia sido rejeitada pelo STF.

Em outubro de 2023, o presidente Lula vetou trechos da lei, como o que estabelecia o Marco, mas os parlamentares derrubaram os vetos dois meses depois. Depois, os partidos Liberal, Progressistas e Republicanos entraram no STF pedindo o reconhecimento da constitucionalidade da legislação, enquanto a Apib, a Rede, o PSOL, o PT, o PCdoB, o PV e o PDT ingressaram com ações que a contestam. Ao todo, quatro ações sobre o tema — três contrárias ao marco, uma favorável — serão analisadas pelo Supremo. Apesar da fase de sustentações orais já ter começado, ainda não há data definida para a votação.

“A gente tem a sensação de que os nossos direitos são sempre utilizados como moedas de troca”, explicou Ricardo Terena, que representa os indígenas via Apib no Supremo. O advogado considera que os indígenas estão no “cerne da disputa entre os poderes”.

Ricardo Terena fez a sustentação oral pela APIB no primeiro dia de julgamento.

“Quando a gente teve a Constituição, teve ali um prazo de cinco anos para se realizar a demarcação dos territórios, um prazo que nunca se cumpriu. Com o passar dos anos, cada vez mais a gente vê uma relativização dos nossos direitos com relação aos territórios”, afirmou. Ele considera que as “comunidades indígenas têm resistido a todos esses ataques” e lutado para tentar manter “o que existe na Constituição”, mas ressalta que os povos já têm sentido as consequências do Marco Temporal. “Os conflitos territoriais se intensificaram a partir dessa fragilização dos direitos indígenas”, explica.

Ricardo Terena destaca ainda a importância do protagonismo indígena na luta pela causa, evidenciado pela presença de advogados indígenas nas sustentações orais. “Ter a presença dos advogados indígenas é mais do que ter um advogado ali atuando, é trazer a vivência da realidade dos territórios para dentro do tribunal”, diz. “Somos beneficiários da causa e somos as pessoas que vão sofrer com as consequências deste julgamento”, conclui.

Por que isso importa?

  • A Proposta de Emenda à Constituição do Marco Temporal aprovada pelo Senado dificulta a demarcação de terras indígenas, ao deixar de fora as que não estejam ocupadas na data da promulgação da Constituição de 1988. Além da dificuldade de comprovação dessa ocupação, em muitos casos, os indígenas foram expulsos de suas terras ou tiveram seu território reduzido.

Julgamento do Marco Temporal não é só sobre Marco Temporal

Ao contrário do julgamento de setembro de 2023, a discussão agora em curso aborda o tema sob perspectiva mais ampla, já que a lei “traz outras questões além do marco temporal”, explica o advogado. A legislação modifica, por exemplo, detalhes sobre o processo de demarcação.

Dessa forma, Ricardo Terena explica que, ao longo do primeiro dia de sustentações orais, os representantes do agronegócio incluíram em seus argumentos defesas a outras medidas que “inviabilizam as demarcações dos territórios”. “Eles estão num olhar de debater o marco temporal, mas também outras questões, como a desapropriação por interesse social e outros aspectos relacionados ao procedimento administrativo de demarcação”, disse. O advogado cita que foram questionados, por exemplo, a validade do laudo antropológico como prova em si para a demarcação de terras indígenas.

Além de rebater os que consideram retrocessos nos procedimentos demarcatórios, o advogado conta que a Apib também utilizou o espaço para defender a necessidade de “redimensionamento do território indígena para a correção de erros” em processos demarcatórios passados, já que diversas terras indígenas seriam menores do que deveriam.

Ainda que esteja sendo contestado, o Marco Temporal já tem afetado territórios indígenas. Em 2023, a Pública revelou que a tese foi utilizada para anular a portaria que declarava um território indígena no oeste de Santa Catarina. Na área, de 3 mil hectares, deveriam viver os integrantes do povo Guarani de Araça’í, que seguiam reivindicando a terra, mas no momento estavam morando de “favor” com outro povo. O censo de 2022 revelou que as 336 pessoas que estavam vivendo na região não eram indígenas.

Edição:
Antonio Augusto/STF

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro