Buscar
Reportagem

Vídeo: Meio complicado

O drama de pessoas deficientes que têm de enfrentar a difícil mobilidade nas favelas de São Paulo

Reportagem
16 de maio de 2016
12:01
Este artigo tem mais de 10 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A casa é a penúltima da viela, numa das favelas do Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Para chegar até a rua, a mãe Simone Fiuza precisa passar por degraus com tamanhos diferentes, buracos e becos estreitos.

O difícil acesso não ajuda em nada os demais moradores que passam diariamente pelo caminho. Mas para Simone o esforço é dobrado. Adaptar-se é ainda mais difícil para quem tem algum tipo de deficiência motora, caso de seu filho Gabriel, de 18 anos, que sofre de uma síndrome degenerativa ainda não desvendada pela medicina.

Gabriel anda com dificuldade e tem uma série de problemas de saúde. Não fala, tem convulsões com frequência, respira com o auxílio de um cilindro de oxigênio, alimenta-se através da gastrostomia, uma espécie de mangueira que introduz alimento diretamente no estômago. Sofre de um problema no pulmão que pode gerar asfixia e levá-lo à morte. Por isso, Simone fica meses sem sair de casa, dedicando-se integralmente ao menino, sempre contando com o companheirismo da avó. O pai é ausente.

“O nosso acesso é muito complicado, bastante difícil. Às vezes o pessoal do SAMU não quer vir pegar ele aqui. Ele já chegou a cair na viela. Derrubaram ele da maca”, diz Simone.

Já Daniel Mariano, de 55 anos, caiu de uma escada, acidente que o deixou em uma cadeira de rodas durante um ano. Hoje caminha com o auxílio de uma bengala de alumínio. Vive com a irmã e a sobrinha no Jardim Jaqueline, zona oeste de São Paulo. Sua casa fica muito abaixo do nível da rua. Para chegar até o asfalto, tem que passar por duas escadas e uma ladeira bastante íngremes. Por isso, Mariano acaba passando meses em casa. Para se exercitar dá voltas dentro do quarto. “De quinze em quinze minutos eu me levanto para caminhar. Fico andando aqui dentro. Se eu tivesse acesso à rua era melhor, dava para sair mais”, relata.

Os irmãos Eulália e Nelson Cordeiro são cegos e surdos por causa de uma síndrome hereditária chamada Usher, que leva à perda progressiva da audição e da visão. Geralmente os sinais aparecem na adolescência. Seus pais tiveram oito filhos; quatro nasceram com a síndrome.

Desde que chegou a São Paulo, vinda de Minas Gerais, a família reside em uma casa no alto de um morro, no Jardim Ingá, zona sul da capital paulista. Durante algum tempo, quando a doença ainda permitia, os irmãos conseguiam andar pelas ruas do bairro. No entanto, as calçadas irregulares, muitas vezes ocupadas por carros, obrigam-nos a andar pelo meio da rua, desviando de buracos, automóveis e motocicletas.

Eulália é hoje membro do Conselho Municipal de Saúde e suplente no Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. Ela avalia que, em relação às adequações necessárias para portadores de deficiências, a Prefeitura “tem o olhar mais voltado pro centro, e na periferia deixa a desejar”.

O vídeo “Meio complicado” mostra dificuldades enfrentadas diariamente por quem tem mobilidade reduzida e vive nas periferias, nas favelas. São pessoas que vivem presas por conta da ausência de infraestrutura urbana. Muitas moram em cômodos pequenos, sem ventilação, sem espaço e sem convívio. E não fazem parte das estatísticas oficiais: procurada pela Pública, a Prefeitura afirmou não ter dados detalhados sobre essa população.

Assista ao minidoc:

Meio complicado from Agência Pública on Vimeo.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro