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O jornalismo ainda serve para alguma coisa?

É nossa obrigação reinventar o lugar do jornalismo na nova ordem informacional

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4 de maio de 2026
17:00

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Passei este domingo 3 de maio, dia mundial da liberdade de expressão, num misto de espanto e pessimismo. Havia me planejado para pegar o avião para Lusaka, na Zâmbia, onde participaria do Dia Mundial da Liberdade de Expressão, mas a coisa toda foi tumultuada quando o governo Chinês pressionou a Zâmbia a tentar censurar a conferência Rights Con. Não embarquei para Addis Abebba, onde pegaria o segundo vôo. O evento, promovido pela Unesco, vai acabar sendo online.   

As notícias não são boas pra quem acredita que o jornalismo é um elemento central para cumprir o direito à liberdade de expressão. Do outro lado do mundo, nos EUA, o governo Trump adota táticas antes usadas por ditadores como Vladimir Putin ou Hugo Chávez, pressionando jornalistas que o criticam e colocando aliados para comprarem conglomerados de mídia. A autarquia FCC, que define quem recebe as licenças de TV, está ameaçando rever a licença do canal ABC depois do apresentador Jimmy Kimmel fazer uma piada sobre os repetidos atentados à vida do presidente. 

Que isso esteja acontecendo na tão propalada “maior democracia do mundo” sem grandes repercussões – onde estão os protestos? Onde estão as notas da OEA? Isso apenas demonstra que silenciar jornalistas é uma frente de batalha dos governos autoritários cada vez mais normalizada. 

As notícias não são boas. Os oligarcas de Silicon Valley continuam sugando o conteúdo jornalístico para treinar suas IAs e negando-se a pagar, como o Google tem feito há décadas, alegando, sempre, que o jornalismo não tem nenhum valor.    

Há algumas semanas, o obsequioso Peter Thiel financiou a criação do Objection, um site que pretende ser o “ tribunal de IA” para revelações publicadas na imprensa. A plataforma vai contratar arapongas, como ex-CIA, FBI e NSA para julgar o que a imprensa publica, terminando a “análise” com o julgamento por modelos e IA. “Os autores das alegações têm amplo direito de resposta e são convidados a responder e defender suas reportagens apresentando evidências”, diz o release circulado para sites de negócios.

As notícias não são boas. O modelo comercial de financiamento ao jornalismo ruiu, a IA tenta massificar uma visão de mundo que é americanocêntrica, racista e machista, e as redações encolhem. 

Para nós que acreditamos que as sociedades só avançam se têm seu direito à informação garantido, àqueles que ainda acreditam que é preciso de serem humanos verificando, contradizendo e denunciando as manipulações dos poderosos, não há muito a fazer a não ser reinventar o lugar do jornalismo na nova ordem informacional. 

É por isso que, aqui na Pública, nos dedicamos a construir um veículo que possa sobreviver aos ataques e às mudanças de vento com independência e integridade. É por isso que há 15 anos temos construído uma marca de renome, e aprendido como liderar um empreendimento que seja disruptivo e ajude o jornalismo a chegar do outro lado deste momento de desafios. 

Aprendemos um monte no caminho. E sabemos que não conseguiremos reintentar como será o jornalismo do futuro sem multiplicar esse aprendizado. Por isso, nos juntamos à ESPM para lançar o curso “Liderança e Empreendedorismo no Jornalismo: Da Ideia à Realidade”, no qual vamos ensinar a jornalistas e empreendedores como transformar ideias em produtos jornalísticos reais, que mudem a sociedade. Vou dar o curso ao longo do mês de junho, ao lado de Veronica Goyzueta, cofundadora do site Sumaúma e empreendedora do ramo de restaurantes. Desde como escrever um projeto, como criar uma marca, como gerir uma equipe e como entender e buscar impacto.   

Nossa ideia é formar uma nova geração de empreendedores que consigam aliar o rigor jornalístico – feito, sempre, por seres humanos – com pensamento estratégico, permitindo a fortaleza institucional necessária para resistir aos ataques e ao assédio, e por outro buscar novas soluções para melhorar e ampliar o consumo do jornalismo de interesse público. Para saber mais sobre o curso, clique aqui.         

Sabemos que o jornalismo vale a pena, e assusta os poderosos. Afinal, se homens vis como Peter Thiel gastam milhões de dólares para tentar destruir a reputação de jornalistas, é porque estamos fazendo algo certo. 

Falta, agora, entendermos o tamanho da missão histórica que temos pela frente: defender o futuro da profissão, arregaçar as mangas, estudar, e aprender. Convido todos vocês a embarcarem nesta jornada conosco e, se conhecem alguém que possa se interessar, envie esta mensagem.  

Sozinhas, não vamos conseguir. Precisamos de um exército de novos líderes da imprensa do futuro.    

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