Buscar
Coluna

A empresa de IA que destruiu milhões de livros para treinar seu modelo

Processo judicial revela que Anthropic comprou e rasgou milhões de obras para treinar a IA Claude

Coluna
3 de agosto de 2026
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

A cena é de terror. E quando pensamos nas maiores disputas em torno da Inteligência Artificial, raramente pensamos na dimensão física, real, humana que está por trás dessas disputas. Modelos de IA como ChatGPT e Claude parecem vindos de uma força etérea, que vive na nuvem, fora da nossa mundana existência e, portanto, imparáveis, irrefreáveis, irreguláveis.

É por isso que essa história não me sai da cabeça. 

Um processo judicial por violação de direitos autorais, movido em um tribunal da Califórnia, nos EUA, revelou a metodologia empregada pela empresa Anthropic para treinar seus modelos de IA com linguagem produzida por humanos. 

O processo foi movido por três escritores – Andrea Bartz, Charles Graeber e Kirk Wallace – contra a Anthropic por ter roubado o conteúdo dos seus livros. 

Eis o que a empresa fez para alimentar seu robô: 

Em fevereiro de 2024, a empresa adquiriu milhões de cópias de livros nos EUA, e para obter o conteúdo – as palavras e frases escritas por seres humanos – rasgou as lombadas, cortou as páginas de cada um deles, ajustando as folhas ao tamanho do scanner. Depois, seus funcionários escanearam cada página através de um software que digitaliza textos, para incluir cada frase lapidada pelos autores na enorme base de dados que treinaria o Claude. Finalmente, aquela pilha de destroços foi picotada e jogada no lixo

A cena, que relembra a história de Fahrenheit 451 – que retrata uma sociedade totalitária onde livros eram proibidos e queimados – é talvez o maior resumo da distopia que as Big Techs nos oferecem como caminho para o futuro. 

Primeiro, porque elas escondem todos os vestígios profanos dos seus modelos de negócio: os trabalhadores do Quênia que adoecem filtrando vídeos e textos com imagens de violências e abusos indizíveis para os modelos de IAs poderem ser treinados, as cidades que estão passando sede porque a água está sendo usada para enormes datacenters, as festas nababescas e temáticas oferecidas para políticos de todo o mundo não atrapalharem seus negócios com leis e regulações. 

A destruição de milhares de livros é apenas um destes elementos. Trata-se de uma decisão de negócios, tomada por executivos racionais, que visam superar obstáculos físicos ao desenvolvimento de softwares avançados rapidamente e com o menor custo possível. 

No caso da Anthropic, ela precisava de literatura de alta qualidade para treinar seu robô “superior” e estava buscando reproduzir a metodologia empregada antes pelo Google para sua biblioteca virtual. O Google conseguiu argumentar nas cortes dos EUA que criar e disponibilizar uma cópia digital de um livro físico comprado regularmente, seria um uso justo para uma obra. 

Mas, neste caso, não se trata de democratizar o uso de uma obra literária, mas de alimentar um modelo de IA que vai transformá-lo, e lucrar com ele em infinitas variedades de usos. 

Por isso, o caso judicial é considerado um marco histórico. 

E é mais brutal porque, vocês devem se lembrar, a Anthropic é a mesma empresa cujo fundador rompeu com a OpenAI sob o comando de Sam Altman para desenvolver IA que seria realmente “responsável” e segura. 

A mesma Anthropic cuja IA foi usada para a invasão dos EUA na Venezuela, anos depois, assim como nos ataques ao Irã. 

Assim, o destroçamento de milhões de livros é apenas uma lembrança do rastro de destruição que já se vê, e que se verá ainda pelas empresas de IA, diante da hesitação de nossos governantes de regularem contra ela, a nosso favor. 

Como nossos deputados, que não tiveram ainda a coragem de aprovar o PL da IA (PL 2338/2023) que garantiria pelo menos uma compensação pelo uso de livros e obras criadas por humanos para treinar robôs. O projeto, aprovado em dezembro de 2024 no Senado, está parado na Câmara dos Deputados. 

Não temos podido contar com aqueles que deveriam nos proteger. 

Eu gostaria de finalizar essa coluna dizendo que, ao saber da metodologia medonha empregada pela Anthropic para treinar sua IA, sem nenhum consentimento dos autores, ou da editora, o juiz da Califórnia reconheceu que se trata de puro e simples roubo.  

Mas não foi assim. 

O juiz William Alsup decidiu, na primeira decisão do tipo, que comprar, destroçar, e copiar obras literárias para treinar robôs a falarem como gente que sabe escrever é um exemplo de “fair use”, uso justo, dentro das leis de direito autoral americano.  

Tratar o roubo de conteúdo dos livros para treinar IA como ilegal seria como argumentar que “treinar crianças em idade escolar para escrever bem resultaria em uma explosão de obras concorrentes”, escreveu o juiz, alertando que a empresa ainda pode ser multada por ter baixado milhões de livros piratas da internet para treinar seu modelo.

Sim, o juiz equivaleu a inteligência sintética a treinar um ser humano. 

A OpenAI saudou a decisão. “Estamos satisfeitos que o Tribunal reconheceu que usar ‘obras para treinar LLMs foi transformador — espetacularmente transformador’.”

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas