Buscar
Crônica

Branco duro, pingo de mel, maracotão ou solta caroço

Na caixa de branco duros que o avô trazia da feira havia mais que fruta: havia pertencimento, saudade e cheiro de casa

Crônica
7 de novembro de 2026
04:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Meu avô amava frutas, em especial pêssegos. Nós morávamos em Jundiaí e ele pegava seu Fiat 147, a Fortunata, para passar fins de semana conosco. Naquela época, a Anhanguera era povoada de pequenas paradas e barracas à beira da estrada que vendiam a produção local, garapa e, às vezes, pamonha. Na safra, os pêssegos pareciam estar por toda parte. Depois vinham morangos de Atibaia, uvas Niágara de Jundiaí, daquelas de chupar e jogar fora a casca, figos de Valinhos, grandes, gordos e macios, como já não se encontram hoje. Às vezes havia também uvas Itália, de bagos gordos, que vinham — eu nem sabia de onde —, talvez do Vale do São Francisco. Mas a Fortunata quase sempre saía carregada com caixas de pêssegos aveludados e sumarentos.

Eu lembro também do pêssego em conserva, sobremesa de festa. Amarelos, macios, embebidos na calda, apareciam na mesa em dias mais nobres. Quase sempre o creme de leite de lata vinha ao lado. Eu me lembro da propaganda: “envolvi tudo”, falava uma voz de criança, com a câmera fechando na fruta e no creme espesso escorrendo sobre ela.

Os pêssegos em lata também apareciam no centro da mesa de Natal, cuidadosamente arrumados na forma de gelatina vermelha que tremia levemente sobre a toalha. Minha tia a preparava invariavelmente para as festas, perfumada com cravo e canela.

Quando via uma caixa de pêssegos, meu avô desembrulhava um deles, retirava o papel fino que o protegia, disfarçava, mas dava uma apertadinha para saber se a polpa cedia ou se ainda resistia na firmeza verdolenga.

Ele tinha uma tese. Conhecia todas as espécies e achava os branco duros melhores do que os solta caroço, os pingos de mel ou os maracotões. “Só têm tamanho, falta textura e sabor nesse aí.”

Acho que parte dessa paixão veio da época em que morou no Rio Grande do Sul. Mas ele também inventava causos para tornar as histórias mais interessantes.

Quando tive o Bistrô nos Jardins, quis fazer um Bellini seguindo a receita do Harry’s Bar. A receita de Cipriani leva purê de pêssego e espumante da região, o prosecco. Tentei reproduzir o purê usando maracotão, mas não funcionou. Coloquei um pouco de suco de maçã, pedaços em cubos descascados, um pouco mais de açúcar, tentei corrigir daqui e dali. Nada funcionava. Um ficava sem sabor, outro doce demais.

Fui pesquisar e descobri que na Itália existem variedades mais comuns — bianca, gialla e percoca — e que Cipriani usava, em sua receita, purê fresco de pêssego branco. Comprei mais pêssegos, tirei a casca, processei, cozinhei, tentei vídeos no YouTube, mas nada ficou igual ao que experimentei uma vez, num verão em Veneza. Desisti do drink.

Mas não dos pêssegos.

Meu marido é como meu avô: ama pêssegos. Mas não sabe diferenciá-los. Compra pela aparência. Às vezes acerta.

O pêssego sempre teve alguma coisa de desejo. A fruta suculenta, doce, perfumada, escorre pelo canto da boca, mela os dedos, ocupa o espaço inteiro só com seu cheiro. Tem até pele, e aveludada. “Pele de pêssego”, fala a adolescente sedutora e debochada passando o dorso da mão no rosto. Pêssego combina mais com o universo de Vênus do que com o da cozinha. Em inglês, amantes se chamam de “peach” — meu pêssego, meu docinho —, um apelido que cola na fruta toda a intimidade de um amor.

Mas eu não vejo nele a sedução. Vejo outra coisa — um universo de afeto e pertencimento. Uma lenda pessoal, uma ancestralidade que só eu e a minha família podemos entender. Uma possibilidade de reviver meu avô. E, na obsessão dele por distinguir cada variedade, lembrar que sinto muita falta dele chegando em casa carregado de sacolas de frutas e da necessária caixa de branco duros da feira.

Pêssegos assados

6 pêssegos branco duros maduros 150 g de açúcar demerara 50 ml de gin 25 ml de licor Peachtree

Corte os pêssegos ao meio. Retire o caroço. Disponha as metades com os buracos dos caroços para cima. Regue com o gin e o Peachtree. Polvilhe o açúcar demerara e leve ao forno a 180 graus até o açúcar começar a caramelizar.

Sirva com sorvete de iogurte ou nata.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imposto do pecado: Governo alivia para indústrias e adia proteção popular, alma da reforma

|

Indústrias do refrigerante e mineração terão 2027 de impostos baixos ou zerados frente a impacto à saúde e meio ambiente

Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña

|

Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco

Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

|

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países