Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Argumento de Lula em defesa de Temer é falso

Procuradoria-Geral da República não precisa ter provas materiais, como alegou o ex-presidente, para fazer denúncia

Checagem
18 de julho de 2017
08:45
Este artigo tem mais de 9 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Lula afirmou, em entrevista, que PGR precisaria provar a denúncia contra Temer (Foto: Agência Brasil)

“Se o procurador-geral da República tem uma denúncia contra o presidente da República, ele primeiro precisa provar. Tem que ter provas materiais.” – Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à rádio difusora do Acre “A voz das selvas” dia 29 de junho sobre a denúncia contra o presidente Michel Temer

Falso

Lula comentou a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente Michel Temer no mesmo dia em que a decisão foi apresentada à Câmara dos Deputados. Em entrevista a uma pequena rede de rádios acreana, citada por veículos como Valor e Jovem Pan, o petista falou que Janot deve apresentar provas materiais para sustentar sua acusação. O Truco – projeto de checagem de fatos e dados da Agência Pública – procurou advogados e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) para verificar a veracidade da afirmação de Lula. De acordo com eles, não é necessário que as provas apresentadas pela procuradoria sejam materiais. Por isso, a frase do ex-presidente é classificada com o selo “Falso”, já que a legislação não demanda que o procurador apresente provas materiais, mas indícios de que o crime ocorreu e de que o acusado tem envolvimento no caso.

O artigo 41 do Código de Processo Penal prevê que qualquer acusação feita pelo Ministério Público deve conter “a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas”.

O advogado João Daniel Rassi, doutor em direito penal pela USP e sócio do Siqueira Castro, explica que a legislação não prevê a necessidade de provas contundentes para oferecimento de denúncia. “Para oferecê-la, um promotor deve reunir indícios da autoria e da materialidade”, afirma. “A denúncia é uma petição inicial que precisa cumprir certos requisitos. Uma denúncia feita sem o mínimo lastro probatório pode ser considerada inepta, mas provas materiais não são um requisito. Para a denúncia, bastam indícios. Na sentença, o juiz precisa das provas contundentes”.

José Robalinho, presidente da ANPR e procurador-regional há mais de 18 anos, em entrevista à Pública, repetiu a conceituação feita por Rassi. “A denúncia de um procurador, seja ele o procurador-geral da República ou qualquer outro procurador de Justiça, precisa incluir o binômio materialidade e autoria”, explica. “Materialidade seriam provas que demonstrem que o crime de fato ocorreu. Quanto à autoria, você não precisa ter a prova, mas indícios suficientes de que a pessoa acusada está envolvida”.

O procurador destaca ainda que o processo penal só deve ser arquivado se não houver o mínimo lastro probatório. “No momento da denúncia, se existe uma dúvida, ela deve ser denunciada. Nesse caso, a dúvida funciona a favor da sociedade enquanto no momento da sentença, a dúvida deve ficar a favor do acusado”, exemplifica. Ele avalia que o erro da frase de Lula está na conceituação do que é prova. “Em direito penal, não existe mais, há muitos anos, a chamada hierarquia das provas, que estabelecia quais tipos de provas seriam mais relevantes. Hoje, todo conjunto indiciário pode ser considerado prova”, explica.

Robalinho compara a situação a um homicídio encomendado. “Nesse caso, você geralmente não tem provas físicas contra o mandante. Não há pólvora na mão do sujeito, DNA dele na cena do crime ou digital na arma. Nada disso vai existir. No entanto, o conjunto indiciário pode mostrar o envolvimento do mandante no crime. A prova física nunca é indispensável”, afirma.

Os dois especialistas entrevistados pela reportagem avaliam que a denúncia contra Temer é apta. “Eu achei muito sólida e técnica. Traz uma narrativa extremamente forte”, considera Robalinho, da ANPR. “Pelo que eu vi, ela foi feita com requisitos. O que ela traria seria uma dúvida sobre a autoria. No entanto, não há dúvida de que o crime ocorreu. Tanto que há dados de corroboração, como os vídeos gravados, há delações”, explica Rassi, do Siqueira Castro. A íntegra do texto apresentado por Janot está disponível online, no site da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em 27 de junho a PGR publicou uma nota pública rebatendo as críticas à Janot. No texto, a instituição alega que a denúncia “é pública e baseada em fartos elementos de prova, tais como laudos da Polícia Federal, relatórios circunstanciados, registro de voos, contratos, depoimentos, gravações ambientais, imagens, vídeos, certidões, entre outros documentos”. Tais provas, segundo o órgão, “não deixam dúvida quanto à materialidade e a autoria do crime de corrupção passiva”.

A nota da PGR rebate muitos dos argumentos do presidente Temer que, assim como Lula, também questionou a validade da acusação feita pela procuradoria. Em discurso, o peemedebista disse que “as regras mais básicas da Constituição foram tripudiadas pela embriaguez da denúncia que busca a revanche, a destruição e a vingança”.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Lula diz que mais pobres vão ganhar meio salário mínimo com reforma da Previdência. Está certo?

|

Ex-presidente afirmou em manifestação que medidas também reduziriam o rendimento de trabalhadores rurais do Nordeste

Ao criticar reforma trabalhista, deputado exagera dados do governo Lula

|

Parlamentar afirmou que desemprego chegava a 4,8% e não houve alterações na CLT, durante discussão da reforma trabalhista na Câmara

Notas mais recentes

PL reúne-se esta semana para debater candidatura de Rogério Marinho a presidente do Senado


Lula vence em seções eleitorais com local alterado, apesar de abstenção maior


Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador


Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Leia também

Lula diz que mais pobres vão ganhar meio salário mínimo com reforma da Previdência. Está certo?


Ao criticar reforma trabalhista, deputado exagera dados do governo Lula


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países
Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo
Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil