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Banco Master: PF revela detalhes sobre Ciro Nogueira, o ‘amigo de vida’ de Vorcaro

7 de maio de 2026
10:30
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Em maio de 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro desembarcou no Brasil após uma viagem internacional. Antes de encontrar a então namorada e influenciadora digital Martha Graeff, tinha um compromisso prioritário na agenda. Em mensagem ele explicou: “Eu vou chegar e ir pra uma reunião com o Ciro, e depois te encontrar”. Diante da pergunta sobre quem seria o interlocutor, o dono do Banco Master respondeu: “Ciro Nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”.

A relação de amizade entre o banqueiro e o senador pelo Piauí, presidente nacional do partido Progressistas (PP) e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, parece ter ultrapassado os limites da convivência social, segundo a Polícia Federal (PF). A proximidade, aponta a investigação, teria estruturado um esquema de benefícios mútuos no qual o parlamentar é suspeito de instrumentalizar seu mandato para favorecer os negócios do Banco Master, em troca de contrapartidas financeiras.

A defesa de Ciro Nogueira, realizada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, negou as acusações em coletiva de imprensa realizada nesta manhã em Brasília. 

O senador chegou a dizer, em março deste ano, durante uma entrevista a jornalistas, em Teresina, quando foi questionado sobre sua relação com Daniel Vorcaro, que “se algum dia surgir alguma denúncia que seja comprovada, eu renuncio ao meu mandato”. 

“Conheço todos os grandes empresários deste país. Sou convidado para jantares, para palestras, para encontros. Agora, o CPF dele é um, o meu é outro. O que vai nortear a minha trajetória de vida é a minha história e podem ter toda a certeza, o povo do Piauí: se algum dia surgir alguma denúncia que seja comprovada, eu renuncio ao meu mandato. Eu jamais vou voltar ao meu estado, olhar para o povo da minha terra, de olho no olho, se eu não tiver a autoridade e a confiança desse povo”, declarou o senador na oportunidade. 

Ciro Nogueira e Operação Compliance Zero

Na manhã desta quinta-feira, 7 de maio, a PF deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, com o cumprimento de dez mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Ciro Nogueira e seus familiares no Piauí, em São Paulo, em Minas Gerais e no Distrito Federal. A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, resultou também na prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro, e no bloqueio de bens dos investigados, no valor de mais de R$ 18 milhões.

A investigação da PF detalha que as vantagens repassadas ao senador se dividiam em quatro frentes. A primeira envolvia a aquisição de participação societária na Green Investimentos pela CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa formalmente administrada por Raimundo Neto, irmão do senador. A compra de 30% do negócio custou R$ 1 milhão, valor considerado ínfimo pela PF, que estima o preço de mercado da fatia em cerca de R$ 13 milhões.

A segunda frente consistia em um pagamento mensal, efetuado por Felipe Vorcaro. A mesada, justificada como uma “parceria”, começou no valor de R$ 300 mil e, posteriormente, foi elevada para R$ 500 mil. A terceira via de benefício consistia no uso, por tempo indeterminado, de um imóvel de alto padrão pertencente a Daniel Vorcaro, como se fosse propriedade do parlamentar.

Por que isso importa?

  • Segundo a Polícia Federal, a operação desta quinta-feira aprofunda as investigações sobre um esquema de corrupção, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

A quarta e última frente de vantagens envolveria o custeio de um estilo de vida de alto padrão. A PF aponta o pagamento de viagens internacionais em voos privados, hospedagens no luxuoso Park Hyatt, em Nova York, e despesas em restaurantes para o senador e uma acompanhante. Em uma das conversas interceptadas, um intermediário questiona Vorcaro se “os meninos” deveriam continuar pagando as contas de restaurantes “do Ciro/Flávia”. O banqueiro respondeu: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.

Emenda parlamentar encomendada pelo Banco Master

Em contrapartida às benesses, Ciro Nogueira teria atuado no Congresso Nacional em defesa dos interesses do Banco Master. O episódio mais emblemático, segundo os investigadores, ocorreu em agosto de 2024. O senador apresentou uma emenda parlamentar com o objetivo de ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

O texto da emenda não nasceu no gabinete do parlamentar, segundo a coluna de Natália Portinari, no Uol. A Polícia Federal descobriu que a proposta foi redigida pela assessoria do Banco Master e encaminhada por um ex-executivo da instituição a Daniel Vorcaro. O documento foi então impresso, e teria sido colocado em um envelope endereçado a “Ciro”, sendo entregue na residência do senador. A versão protocolada no Senado reproduzia integralmente o conteúdo elaborado pelo banco.

A medida era vista no mercado como a “emenda Master”. Interlocutores de Vorcaro avaliaram que a aprovação da proposta “sextuplicaria” o negócio da instituição e provocaria uma “hecatombe” no sistema financeiro, oferecendo uma saída para a arquitetura financeira insustentável montada pelo banco.

No dia da apresentação da emenda, Vorcaro celebrou o feito em mensagens à namorada. “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro!”, escreveu. “Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Todo mundo me ligando. Sentiram o golpe.” A proposta acabou não avançando no Congresso.

A entrega de minutas prontas na casa do senador era uma prática estabelecida, segundo a PF. Em novembro de 2023, Vorcaro ordenou a retirada de envelopes da residência de Nogueira contendo projetos de lei sobre transição energética e comércio de emissões de gases de efeito estufa. O banqueiro orientou expressamente que o motorista responsável pelo transporte não vinculasse os documentos ao parlamentar e que os envelopes não fizessem qualquer referência ao Banco Master.

STF: “extrapolando relações de mera amizade”

O ministro André Mendonça, ao autorizar as buscas, destacou que a narrativa policial demonstra a “existência de um arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”. O magistrado proibiu o senador de manter contato com os demais investigados e testemunhas do caso.

O advogado de defesa Kakay afirmou à imprensa que acompanha a busca e apreensão e busca se informar sobre a situação. O senador, figura central do bloco do Centrão, vê seu nome no epicentro de um esquema que, segundo a PF e o Ministério Público Federal (MPF), o coloca como “principal beneficiário” das condutas de lavagem de capitais em apuração.

Edição:
Lula Marques/ Agência Brasil

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